18 de outubro de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração:
O guia da sacoleira dos brechós

Viver neste mundinho capitalista em constante crise não é tarefa fácil pra ninguém — fora os banqueiros e essas pessoas —, né? Como todas nós, você provavelmente anda preocupada com as surpresinhas que o futuro promete e também já deu uma cortada nos gastos aqui e ali, e aceitou de braços mais ou menos abertos essa realidade em que a marmita é companheira fiel de todos os dias, a entrada gratuita passou a ser pré-requisito pra qualquer rolê e andar três estações de metrô já não parece assim tão longe.

E, no meio de tudo isso, entrar naquela loja de departamento que costumava ser baratinha e dar de cara com uma camisetinha meio cretina sendo vendida a 80 reais começou a parecer mais obviamente o que realmente é: loucura total e absoluta. Então, como é que, levando a conversa pra um lado ainda mais “classe média sofre”, fica a jovem fashionista sem fundos nessa história toda? Como sustentar o look quando já anda meio complicado sustentar seu próprio almoço?

Olha, seus problemas não acabaram, porque, bem, o capitalismo não acabou. Mas a gente tá aqui pra tentar dar pelo menos uma ajudinha. Guerreira da moda baixo orçamento (o mais adequado seria “nenhum orçamento”, pra ser bem sincera) que sou, convoquei minha querida amiga e medalha de ouro em compras em brechó com barreiras, Giovanna Pelin, e fomos dar uma passeada por um maravilhoso mundo onde um guarda-roupas completo sai por pouco mais de 50 reais — e isso quase não é uma hipérbole —, onde reunimos fotos e conselhos para ensinar as manhas das compras de segunda mão e te trazer para o lado recessionista da força. É sustentável, é tendença, é um pouco menos consumista e, o melhor: é barato pacas.

 

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Sai do centro, amiga!

Os brechós badaladinhos aqui de São Paulo ficam sempre no eixo Avenida Paulista-Jardins-Vila Madá-Perdizes. Significa que vai ser, no mínimo, precinho Zara?

Se a ideia é comprar realmente barato, sair desses lugares é essencial. Como este é um guia para você, fashionista sem grana, certamente o ponto aqui não é encontrar aquele Dior vintage, e sim comprar alguma coisa com o que sobrou de moedas no fundo da sua bolsa, né? Então vai dar uma voltinha pelos bairros! Tem brechó de igreja, tem bazar beneficente e tem lojinha de garagem da sua vizinha. E tudo isso vale ouro. O meu preferido por aqui, onde tiramos as fotos do post, por exemplo, fica na minha querida zona leste e é de uma associação espírita.

 

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Vá pros lugares certos do centro, amiga!

O centro também tem seu valor, é claro. Você só precisa ir pra parte barata dele, e a teoria geral que se aplica à maior parte das cidades é: centro barato é o centro mais feio. Tem prédio de fachada de vidro e Starbucks? É caro. Tem gente pra caramba e patrimônio cultural que esqueceram de tombar e tá meio desmoronando? É barato. Com o tempo, você aprende a bater o olho em um brechó e saber se tá adequado ao seu orçamento ou não, mas as dicas visuais mais importantes são que 1. normalmente é meio feio, 2. normalmente não tem nome e 3. normalmente é bem abarrotado de coisas e fica meio difícil de andar.

 

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Nobody said it was eeeeasyyyyy

Sabe a parte do “bem abarrotado de coisas e fica meio difícil de andar” do último item? Então. Os brechós carésimos mais descolados são caros, entre outras coisas, porque tornam sua vida um pouco mais fácil. É como se, no preço da roupa, já incluíssem a taxa de personal stylist por terem achado aquela peça, já que tudo passa por um processo de seleção muito mais rigoroso. Nós, gata, não podemos contar com esses luxos, e a delícia de ser sua própria garimpeira é o que se paga (além de dinheiro, claro) pelos preços baixos. E, sério, é delícia mesmo! Você vai encontrar araras completamente lotadas sem nenhuma divisão lógica aparente, e vai ser um bocado cansativo, mas é tipo uma caça ao tesouro.

 

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As vantagens do olhar carinhoso

De cara, tudo parece meio feio, afinal, estamos acostumadas à preocupação estética das lojas tradicionais, onde tudo segue as tendências do momento e fica ajeitadinho no manequim com a iluminação correta e às vezes até um perfumezinho. Uma das graças de comprar em lugares em que existe esta quebra temporal de coleções — você pode achar uma peça deste ano ou de trintas anos atrás — é que é um ambiente muito mais interessante para descobrir e escolher o que você quer usar com base em coisas que vão além do que foi pré-determinado pelo pesquisador de tendências de alguma marca.

Ou seja, no começo é meio assustador não achar nada obviamente interessante, mas, depois de algum exercício, o olhar vai ficando mais flexível e aceitando coisas novas que serão adições incríveis na criação de um estilo mais pessoal.

 

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Vá acompanhada (ou não)

Para esses exercícios todos de tornar o olhar mais flexível, contar com a ajuda de uma amiga costuma ser super útil! Vocês normalmente conhecem muito bem o que cada uma gosta, e podem dar uma ampliada na zona de interesse uma da outra — eu mesma já quase deixei passar roupas que hoje estão na minha listinha de favoritas e fui salva por minha companheira de brechó, que teve aquele momento de clareza de “ai-meu-deus-isso-é-sua-cara”.

A parte do “ou não” só fica por conta do fato de que é meio chato quando você duas acabam apaixonadas pela mesma peça. Aí é hora de exercitar a gentileza, a flexibilidade e a empatia, ou a capacidade de debate.

 

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O lixo de um homem é o tesouro de outro — ou “sua amiga já limpou o guarda-roupa por esses dias?”

De vez em quando, você não precisa sequer ir ao brechó em si, e pode recorrer direto à fonte: as limpezas de guarda-roupa dos conhecidos. Durante muito, muito tempo, eu comprei quase nenhuma calça jeans. Foram, sem brincadeira, umas três ao longo de uns dez anos. Qual foi a benção que me fez não sair sem calças por aí? As arrumações ocasionais de guarda-roupa da minha tia, que costumavam me fornecer mais roupas do que eu realmente precisava, inclusive. Adquirir o hábito de manter essas troquinhas entre amigas é bastante saudável para o seu bolso, para a redução da mentalidade consumista e até mesmo pra manter seu quarto mais arrumado.

 

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E aí, gostou das dicas? Tem mais alguma coisa a acrescentar – uma palavra de sabedoria, um look bacana que você comprou a preço de pão francês, algum endereço legal que só algumas sociedades secretas conhecem? Joga na roda aqui nos comentários!

 

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Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Lucas

    Amei o post! Fora que brechó é a saída perfeita pra quem cansou do tipo de consumo que é fast fashion.

  • Vivian

    Adorei o post mas podia ter indicado uns brechós, por favor parte II.

  • Malu Araujo

    Não vai rolar nome e endereço dos brechós?

  • Evelyn

    Exército da salvação! ótimo esquema também!

  • Ivis

    Eu amei as dicas…estou me tornando hippie aos 22 anos de vida…rsrsrrsrsrsrrsrsrsrrsr

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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