12 de novembro de 2015 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração: Heleni Andrade
Sobre isso de representar nossa própria realidade

A arte é considerada uma linguagem, né? E, generalizando um pouco, como toda outra linguagem às vezes ela comunica – ideias, sentimentos, entre tantas outras coisas. Sentimento, aliás, é algo muito atribuído à arte e aos artistas. Uns dias atrás eu estava estudando uma obra e, não e pergunte como, acabei caindo no Berlin Artparasites, uma página bem famosinha (principalmente entre hipsters) (desculpa, mas é verdade). Pra quem não conhece, essa página costuma postar algumas pinturas, ilustrações, fotografias, etc. acompanhadas de textos em suas legendas, que normalmente são bem profundos e íntimos, principalmente envolvendo questões amorosas – com alto índice de sofrência, não recomendo se estiver em um dia ruim. A obra que eu estava estudando era de um período da arte que ficou conhecido como Romantismo. Foi um movimento do século XIX que ocorreu em diversas linguagens artísticas. Falando em artes visuais, houve uma oposição ao ensino formal de arte. Por possuírem ideias opostas ao padrão da sociedade da época, os artistas deste período costumavam isolar-se do mundo e encará-lo de uma forma romantizada. Para se ter uma noção, em plena revolução industrial, estes artistas escolheram como principal tema de suas pinturas a natureza – e empenharam muito sentimento nisto.

Se você esta se perguntando: “o que um movimento que aconteceu lá no século XIX e uma página de Facebook tem a ver?”, te digo: muita coisa. O Berlin Artparasites é uma prova de que ainda hoje a arte e as/os artistas são encarados de uma forma romantizada (ou idealizada). Têm-se uma imagem de artistas como pessoas isoladas da sociedade, que utilizam a arte como uma forma de expressar seus sentimentos e vivências. E que sofrem bastante.

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Este meme, do programa de TV “Manual de Sobrevivência Escolar do Ned”, é um trocadilho que só funciona em inglês. A tradução literal é “Artistas devem sofrer pela arte. Por isso ela é chamada de pintura”. Mas em inglês painting significa pintura e PAIN significa dor, sofrimento.

Mas não é porque uma obra carrega algum tipo de sentimento ou vivência da/o artista que ela será ruim. Longe de mim desvalorizar a arte como uma forma de se expressar, mas isso normalmente acontece quando tenta-se criticar a romantização da arte e de artistas. Normalmente porque a arte tida como autobiográfica não é vista como um tipo de arte ligada ao restante do mundo e a questões politicas ou sociais. Mas, às vezes, a realidade de cada artista é um reflexo ou desperta questionamentos sobre o que acontece na sociedade. Não é fácil separar o que é pessoal do que é politico (ou, ainda, o que é individual do que é coletivo). Uma obra sobre o aborto, por exemplo, pode ser retratada como uma experiência pessoal, mas sabemos que o aborto foi e ainda é criminalizado na sociedade, sendo, assim, um tema de interesse coletivo. O mesmo se aplica para outras questões, como sexualidade, classe, raça e por ai vai. Portanto, falar sobre as próprias vivencias é importante sim! E alguns artistas já famosos as projetam em parte (ou grande parte) de seus trabalhos. A produção de alguns é tão pessoal que ao olharmos suas obras sentimos que estamos abrindo um diário e descobrindo alguns segredos bem íntimos. Tentei reunir aqui alguns nomes que destacam-se nisso de não ter vergonha de mostrar suas vidas para o mundo – acredite, é difícil:

Frida Kahlo

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Autorretrato com colar de espinhos e beija-flor, 1940 

Frida projetava suas vivências em grande parte de sua produção, como se sua arte fosse um tipo de diário. Ela mesma afirmava pintar sobre sua vida quando tentaram classificar suas pinturas como surrealistas: “Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade

Félix González Torres

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Untitled (Portrait of Ross in L.A.)

Félix González nasceu em Cuba e cresceu nos Estado Unidos. Ficou conhecido por instalações minimalistas como esta, em que reuniu 79 kg de balas enroladas em diversas cores, simbolizando o peso ideal de seu companheiro, Ross Laycock, que faleceu por complicações da AIDS em 1991. No mesmo ano, González também criou a obra “Blue Placebo”, um carpete de balas pesando 131kg, a soma de seu peso e de seu companheiro. Félix González faleceu em 1996, também por complicações da AIDS.

Francesca Woodman

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Polka dots, 1976

Escrevemos anteriormente sobre a Francesca, que foi uma fotógrafa que utilizava de sua própria imagem ou de modelos que assemelhavam-se a ela. Em suas fotografias, Francesca geralmente aparece nua, ou vestida com roupas vintages ou de seu dia a dia, sozinha em quartos – na maioria das vezes vazios e com paredes manchadas – que ela usava como estúdios. Francesca suicidou-se aos 22 anos e muitos tentam encontrar vestígios anunciando seu suicídio em sua obra.

Glenn Ligon

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Eu sou um homem, 1988

Glenn Ligon é um artista conceitual americano que explora em seus trabalhos temas como raça, sexualidade e identidade. Utiliza diversas linguagens, como pintura, vídeo, fotografia e até mesmo meios digitais. Seu trabalho é influenciado pela sua experiencia de ser um homem negro e homossexual vivendo na sociedade norte-americana. Em “I am a man”, Ligon usa a tipografia de um cartaz de 1968, utilizado por trabalhadores em greve que pediam por melhores condições de trabalho e igualdade racial. Sua recriação, 20 anos depois, foi uma forma de apropriar-se da mensagem para si mesmo, como um homem negro que ainda enfrentava a sociedade da América do Norte.

Hannah Wilke

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Intra-Venus, 1992-93

Conhecida pela série “S.O.S. Starification Object”,  Hannah Wilke foi o assunto de grande parte de suas obras. Seu último trabalho, Intra-Venus, é um registro fotográfico publicado após sua morte por um linfoma, em 1993. A série mostra sua transformação física causada pela quimioterapia e por um transplante de medula óssea. O trabalho foi publicado pois, para Wilke, procedimentos clínicos escondem os pacientes como se morrer fosse uma “vergonha pessoal”.

Leonilson

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Sob o Peso dos Meus Amores, 1990

Leonilson foi um pintor, desenhista e escultor brasileiro que produziu grande parte de seu trabalho durante os anos 80. Morreu jovem, em 1993, por complicações da AIDS. Sua obra, com destaque para a produção de desenhos, é autobiográfica e fala de suas vivências, principalmente como um homossexual portador do vírus HIV durante a década de 1990, muitas vezes mesclando palavras e ilustrações, como nos quadrinhos.

Tracey Emin

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Minha Cama, 1998

Em suas obras Tracey Emin fala abertamente sobre sua sexualidade, frustrações e sentimentos. Em algumas delas utiliza somente palavras e em outras, assim como Leonilson, mescla palavras e ilustrações. Também faz instalações, como “Everyone i have ever slept with” (Todos com quem eu já dormi), que a lançou no mundo da arte – já falamos disso aqui – e “Minha Cama”, realizada em 1998. Esta obra parece simples – afinal, é só uma cama – mas carrega um peso muito grande. Esta é a cama usada por Tracey durante um período muito difícil de sua vida. Nela estão restos de remédios e vestígios de sangue de uma possível tentativa de suicídio. Ao nos mostrar sua cama, Tracey mostra seu lado mais pessoal, revelando-se tão insegura e imperfeita como todo o resto do mundo.

Marina Abramovic

Confissão, 2010

Confissão, 2010

Um dos grandes nomes da performance – talvez a mais popular – Marina esteve recentemente no Brasil, com a exposição Terra Comunal. Nela havia uma retrospectiva de suas performances que, se analisadas, mostram-se muito pessoais. Entre elas está esta a performance “Confissão” em que Marina conta a um burro histórias sobre sua relação familiar e sua infância e adolescência conturbada. Quando casada com Ulay, outro artista performático, eram frequentes as suas parcerias. Algumas delas expondo a vida do casal, como a performance “Os Amantes: A Caminhada da Grande Muralha” em que, caminhando de lados opostos, terminam seu relacionamento em um encontro de adeus na muralha da China.

Yayoi Kusama

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I’m here, but nothing: Kusama’s Environments, 2000 (Estou aqui, mas não há nada: ambientes de Kusama

Yayoi é uma artista japonesa conhecida por sua obsessão por pontos e bolinhas – “Obsessão Infinita”, aliás, foi o nome de sua exposição que veio ao Brasil, ano passado. As bolinhas presentes em suas obras – e roupas! – relacionam-se com a esquizofrenia de Yayoi. É através delas que a artista expões sua condição e representa para o mundo o que sua mente enxerga.

  • Outros artistas e projetos interessantes

Nan Goldin – Nan One Month After Beeing Bathered (Nan um mês após ser espancada)

On Kawara – I Got Up  (Eu acordei)

Sophie Calle – Cuide de você 

Vivian Fu – Auto-retratos

Além de artistas já conhecidos pelo mundo da arte, há também muitos artistas independentes por aí que fazem de sua produção artística uma espécie de diário. Aliás, não é preciso ser artista para isso. Você pode, se quiser, fazer seu próprio diário visual. Já pensou? A Clara já falou sobre isso aqui há um tempo atrás. Espero que todos estes artistas te inspirem – e se faltou algo ou alguém que você acha que entraria nesta lista, como uma página de quadrinhos, por exemplo, comenta aí!

Recomendações são sempre boas :))

Heleni Andrade
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Minhas amigas me chamam de Leni. Estudo Artes Visuais mas tenho um pézinho no design. Gosto de navegar na internet, fotografar o mundão, cozinhar, descobrir músicas legais e fazer playlists.

  • Daiane Cardoso

    Nossa, que texto maravilhoso!! <3 <3 <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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