1 de maio de 2017 | Ano 4, Se Liga | Texto: | Ilustração:
13 Reasons Why: a naturalização de diferentes tipos de violência na vida escolar

13 Reasons Why (Os 13 Porquês) foi lançada na Netflix no final do mês de março e, desde então, muitas opiniões já foram colocadas sobre a série nas redes sociais. Trata-se da história de Hannah Bakker, uma garota que se suicidou e deixou 7 fitas, com gravações do lado A e lado B, direcionadas a treze diferentes pessoas que teriam alguma relação com a sua decisão de se matar.

Problematizações à parte no que diz respeito a assistir ou não à série, aos gatilhos possibilitados a quem possa ter problemas com o tema do suicídio, ou mesmo com cenas de estupro, eu gostaria de falar mesmo sobre a forma com que lidamos no decorrer da vida escolar com certos tipos de comportamentos.

Bom, seja qual for a idade, muita gente diz que a escola é o pior momento da nossa vida. Que quem sobrevive à vida escolar está pronto para a vida adulta, que o ensino médio é um terror. E quer saber? Há um milhão de motivos diferentes para que as pessoas digam esse tipo de coisa.

Na série, todos os tipos de violência possíveis sofridos por adolescentes são colocados em um guarda-chuva chamando bullying. E eu fiquei perguntando o que é que há por trás dessa categoria?

Se pensarmos no caso da protagonista da série, o que ela sofreu e a pergunta se ela havia sofrido bullying na escola, repetidas vezes colocada por sua mãe, diz respeito a tipos de violência que merecem ser individualizados:

1) Divulgação indevida de fotos tiradas em contextos privados: ainda que a foto divulgada por Justin não contivesse nudez, mas apenas a calcinha de Hannah à mostra em um escorregador, tirada de contexto, tal foto foi o suficiente para que ela começasse a ser pensada na escola como uma “garota fácil”. A divisão entre mulheres santas e putas, para namorar ou para “usar”, é uma das divisões elementares do machismo que continua operando em nossa sociedade;

2) Top 10 das escolas: Hannah também vai parar em uma lista na qual tem a sua bunda colocada como a mais bonita da escola. A partir desse momento, seu corpo começa a ser observado e objetificado por vários meninos da escola. É importante relembrar aqui da repercussão de Tops 10 que ocorriam nas escolas no Brasil. Eram listas em que se dizia as meninas mais bonitas ou mais feias, as meninas que haviam transado mais ou menos. Tais listas figuraram como um problema muito sério, com o qual os adultos e responsáveis não tiveram muita habilidade para lidar, chegando a haver dois casos de suicídios em São Paulo de garotas que foram colocadas em listas como essa, além de vários abandonos e mudanças de escola;

3) Violência sexual: a série traz também dois casos de estupro. Novamente, o que está em jogo, nesse caso, é a violação do corpo de duas garotas. A série trata da forma com que garotas bêbadas ou que estão em festas são vistas por alguns homens/garotos como “disponíveis”, e cujo corpo eles têm o direito de usufruir, mesmo sem consentimento, mesmo estando desacordadas;

4) Lesbofobia: outro dos casos foi a divulgação de uma foto de duas garotas se beijando. E o quanto a imagem virou algo fetichizado pelos garotos. Usada por um deles inclusive para se masturbar. Além disso, começou uma caça para descobrir quem seriam as duas garotas por trás da imagem.

Até aqui pensamos apenas quatro dos exemplos ou motivos trazidos pela série. Todos eles foram trabalhados como bullying. Não estou dizendo que essa categoria não faça sentido para pensar algo dentro da vida escolar, de como há nesse estágio da vida comportamentos bastante típicos de crianças e/ou adolescentes. No entanto, muitos dos acontecimentos colocados na série estão relacionados com preconceitos estruturais que não nos abandonam quando saímos da escola. Quando tratamos todos os tipos de violência por trás de uma só categoria, podemos acabar ignorando que adolescentes e crianças comportam-se na escola também de acordo com mentalidades e preconceitos que lhes são ensinados em casa, ou inclusive na própria escola.

Acredito que um dos grandes impeditivos para pensarmos essas violências está atrelado ao fato de se naturalizar, colocando como normal que a vida escolar seja uma desgraça. E, cá entre nós, não é uma desgraça para todos, mas principalmente para aquelas/es que não se encaixam em padrões.

Portanto, muitas vezes quando falamos de bullying, estamos na verdade falando de homo-lesbo-bi-tranfobia, racismo, xenofobia, preconceito de classe e misoginia. E a escola, assim como os responsáveis por crianças e adolescentes, devem ser responsabilizados por esse tipo de comportamento que é visto como normal.

Mesmo que eu não tenha gostado da associação direta entre suicídio e ser vítima de preconceitos, ou ainda de uma responsabilização imediata entre ser preconceituoso e causar suicídios, acredito que já é passada a hora de levarmos a sério que jovens e crianças sofrem diferentes tipos de violência no ambiente escolar. E que isso não deve ser permitido. É por isso que 13 Reasons Why traz bons pontos para pensarmos o cotidiano escolar e um bom apelo para que adolescentes não façam com seus colegas aquilo que machuca e corrói a autoestima. Afinal, nunca sabemos o que se passa na vida de alguém. E é preciso sermos cuidadosos/as com as pessoas ao nosso redor. Ademais, o recado principal eu diria que é para os adultos: não é porque você sobreviveu e achou a escola um bom local para se formar enquanto pessoa, que seus filhas/os, alunas/os passarão por isso da mesma forma. Atentemo-nos aos sinais. Ensinemos crianças e adolescentes a se relacionarem de forma saudável. E que podem pedir ajuda!

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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