22 de fevereiro de 2016 | Sem categoria | Texto: | Ilustração: Laura Athayde
A ciência dos idiomas

Sabe aquelas pessoas que são fluentes num montão de idiomas? Como é possível um ser humano reter tanta informação no cérebro deles, né? Qual a diferença entre pessoas que conseguem aprender tantas línguas e aquelas que não conseguem aprender muito, quando consideramos pessoas com as mesmas oportunidades e mesmos recursos para aprendizagem? Vem comigo que eu te conto!

Como funciona o aprendizado da linguagem?

Um estudo feito na Suécia mostrou que nossos cérebros literalmente crescem quando aprendemos uma nova língua! Para isso, eles analisaram o cérebro de centenas de voluntários usando a técnica de ressonância magnética. Isso quer dizer que há mudanças estruturais na nossa rede de neurônios quando aprendemos um novo idioma, incluindo a formação de novas sinapses (ligações eletroquímicas entre dois neurônios).
O que então determina nossa facilidade ou dificuldade nesse aprendizado? Como podemos relacionar esse desenvolvimento do cérebro à performance no novo idioma? Nesse estudo, foi visto que diferentes áreas do cérebro eram estimuladas e sofriam modificações em cada grupo de voluntários (os que tinham facilidade em aprender e os que tinham dificuldade).  Por exemplo, pessoas que tinham maior facilidade em aprender, e que tinham melhores resultados ao final do experimento, sofriam modificações estruturais nos neurônios do hipocampo e de áreas do córtex central. Já pessoas que tinham maior dificuldade e aprendiam menos o novo idioma tiveram modificações localizadas no córtex motor. Quer dizer que algumas pessoas então têm realmente mais facilidade para se tornar fluentes num novo idioma? Sim! Porém, isso não torna impossível para que ninguém aprenda uma nova língua. Isso apenas mostra que pode haver alguma variável genética que pode influenciar a facilidade em aprender uma nova língua, mas que não é necessariamente uma determinante se você vai ou não conseguir aprendê-la.

Existem idiomas mais difíceis de aprender do que outros?

Na realidade, o que existe é a capacidade de reconhecermos sons. Por exemplo, para um nativo da língua japonesa, os fonemas /r/ e /l/ são idênticos em sua língua materna. Porém, na língua portuguesa existe uma diferença entre esses dois fonemas, como nas palavras frango e flauta. Os nativos japoneses simplesmente não conseguem diferenciar esses dois fonemas quando ouvem um brasileiro falando!  Parece loucura, mas o que falta é uma “conexão” entre neurônios para que eles possam ouvir e, portanto, diferenciar os sons Nos estudos de ressonância magnética, foi verificado que ao ouvir os sons /r/ e /l/, a exata mesma região do cérebro é ativada nos japoneses, enquanto num brasileiro são ativadas duas áreas diferentes do cérebro!. É exatamente dessa dificuldade que surgiu aquela piada péssima (e que não deve ser repetida, a meu ver!) do pastel de “flango”. Afinal, ninguém está isento da dificuldade de pronunciar novos sons num idioma diferente.
Portanto, um dos principais motivos da dificuldade de aprender um novo idioma é quando ele possui sons que não existem na nossa língua materna e/ou nas línguas que já dominamos de forma fluente.

Não entre em pânico, isso tem solução!

Você acredita que hoje em dia já existe um software que dá uma “ajudinha” e consegue ensinar o cérebro de um nativo japonês a identificar e diferenciar os sons /r/ e /l/? Esse programa ajusta levemente os sons e extende sua duração, tornando possível que o aluno aprenda a diferenciá-los. Num experimento conduzido ainda por aquele grupo de suecos, usando falantes nativos de japonês, foi possível que os voluntários japoneses aprendessem a identificar os sons até num discurso normal, após sessões de apenas 20 minutos de treinamento.

Aprender um idioma facilita aprender outros idiomas depois?

Sim! Já foi mostrado em alguns estudos que nosso cérebro pode ser “exercitado” e que quanto mais novas conexões fazemos, mais fácil será continuar modificando a estrutura da nossa rede de neurônios.

Como a ciência pode te ajudar a aprender uma nova língua?

Acredite, a ciência pode sim te dar algumas dicas e estratégias na hora de melhorar o inglês ou aprender mais uma língua estrangeira!
Além das técnicas tradicionais de memorização, a estratégia mais eficiente para aprender a se comunicar num novo idioma vem da observação de como crianças aprendem a falar. Você já notou como uma criança começa a aprender a língua materna dela? Ouvindo! Durante muitos e muitos meses, os bebês apenas ouvem dezenas de pessoas fazendo sons estranhos ao seu redor. Esse período é necessário para que ela desenvolva as conexões que permitem identificar os sons. Depois, elas começam a arriscar as primeiras palavras. Com o passar do tempo, elas aprendem os sons de forma correta e vão aprendendo o vocabulário. É possível então que a gente esteja estudando as coisas na ordem errada, né? Uma boa estratégia é ouvir muito na língua estrangeira que você quer aprender: vídeos, músicas, filmes, diálogos… Tudo está valendo! Daí, você pode começar a diferenciar a diferença de pronúncia de cada som e depois pode ser mais fácil pronunciá-los da forma correta.

O que você achou dessa estratégia de aprendizado? E qual região do seu cérebro você acha que pode estar sendo ativada ao aprender? Eu aqui fiquei curiosa!

Carolina Sapienza
  • Colaboradora de Relacionamentos e Sexo
  • Revisora

Carol nasceu em 1991 e mora em São Paulo. Bióloga que queria ser de humanas, gosta de escrever sobre ciência mas mantém o caderninho de poemas sempre na bolsa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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