24 de fevereiro de 2016 | Ano 2, Edição #23 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Prazer na cozinha
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Quando dedicamos tempo e realizamos algo com prazer e afeto, aquilo tudo pode e deve ser considerado uma forma de revolução, e o ato de cozinhar não fica para trás. Ao escolher encontrar amigos ou familiares e fazer nosso próprio arroz, usar nosso próprio tempero de ervas frescas em vez de ir a uma lanchonete fast food, mudamos a forma como nos relacionamos com nosso alimento e também com o nosso corpo.

Há quem diga, quando vê uma cozinheira ou uma boleira, que o que ela faz “dá muito trabalho!”, ou questione “pra que tudo isso?! Só para as pessoas comerem?!”. Bom, quem faz comentários como estes não está errado. Afinal, quem cozinha geralmente o faz em um local quente, úmido, com ruídos e, dependendo da quantidade de pessoas que esse mestre das facas e temperos vai atender, essa atividade pode, sim, ser muito estressante. Então, onde está o prazer na cozinha?

Da mesma forma que sentimos um aroma e lembramos de uma pessoa querida do passado ou de uma ocasião específica, na cozinha não é muito diferente. Quando usamos aquele tempero que nossa avó, durante nossa infância, costumava usar para temperar o frango no almoço de domingo, nosso cérebro “solicita” aquela memória afetiva, e aquela ação passa a nos oferecer prazer. Podemos classificar esse tipo de memória como a memória afetiva culinária, que envolve basicamente as memórias que o ato de cozinhar nos proporciona.

Pesquisadores de diversas áreas vêm estudando a relação entre os sentidos (olfato e paladar), os alimentos e nossas memórias e sensações de prazer. O escritor francês Marcel Proust disse que o paladar e o olfato possuem um grande poder de convocar nossas memórias. Ele chegou a essa conclusão após um experimento com bolo de limão e uma xícara de chá, que o fizeram recordar de um período de sua infância. Já no campo da neurociência, a psicóloga Rachel Herz, da Universidade de Brown (EUA), comprovou que esses dois sentidos são os únicos considerados exclusivamente sentimentais, porque apenas eles estão conectados com o hipocampo, a parte do nosso cérebro que armazena as memórias de longo prazo.

A tradição, prazer e afetividade na cozinha são tão importantes que o novo Guia Alimentar da População Brasileira, lançado em 2015, além de destacar a importância em diminuir alimentos industrializados, também incentiva o resgate do hábito do preparo das nossas próprias refeições em casa como uma alternativa saudável e consciente para os padrões atuais de consumo de alimentos, que são nocivos à saúde e só nos oferecerem um prazer “superficial”.

No Brasil, encontramos referências sobre memória culinária na literatura, como em Cozinheiro do rei, de Zé Rodix, romance que narra a história de um menino índio que bate a cabeça em uma rocha e permanece desacordado até o momento em que “renasce” ao provar de um mingau de tapioca com farinha de peixe preparado pela sua mãe. Quando jovem, ele reconhece a importância da memória ligada ao alimento que o ressuscitou, e diz “Eu já sabia que ia se formando em mim um repertório de sabores que me auxiliava a reconhecer os melhores e os piores, mas todos eles se equilibravam em volta do meu primeiro alimento verdadeiro, o mingau que minha mãe me havia feito provar e que por isso se tornará inesquecível”.

O afeto ligado à cozinha é inegável, e a cada dia que passa precisamos nadar contra a corrente dos processos rápidos, nos agarrando aos hábitos que são bons para a saúde do nosso corpo e da nossa mente. Precisamos resgatar e preservar nossa memória afetiva na cozinha, revisitar tradições e criar outras novas. Só assim teremos certeza de estar construindo uma cozinha e memória tão boas quanto as que um dia nos foram deixadas.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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