5 de março de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Beatriz H. M. Leite
Os tempos dos livros, os livros dos tempos

“Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores.”

Virginia Woolf escreveu Mrs. Dalloway em 1925. Depois deste trecho, que inicia o romance, mais de 200 páginas se passam. O que parecia inexplicável, na época, é como essas +200 páginas poderiam tratar, todas elas, de um espaço de tempo menor de 24h. Como seria possível que tantas e tantas palavras pudessem abarcar apenas o curto período de um dia, desde a saída da protagonista para comprar flores e preparar sua festa até o encerramento do dia? Um romance não precisa ser mais do que isso?

Acontece que o tempo na literatura pode acontecer de diversas maneiras diferentes, de acordo com o que o/a autor/a pretende construir ali. Pode passar rápido ou devagar, voltar para anos passados, adentrar-se no futuro, nas hipóteses, nas possibilidades e mesmo no impossível. Mas nem sempre foi assim.

O que muda a literatura?

A literatura foi e continua sendo formada pelos contextos, compreensões e necessidades do mundo, mesmo que interpretadas de forma subjetiva pelos seus autores. Ela é formada, portanto, por uma série de transformações e rupturas, que explicam coisas que vão muito mais além do que o modelo das linhas do tempo históricas que aprendemos na escola.

Esta nova noção de temporalidade, trabalhada por Virginia Woolf, James Joyce, William Faulkner e vários outros autores em maioria europeus, faz parte da estruturação do Romance Moderno, que acontece no final do século XIX e se estende pela primeira metade do século XX. O público, na época, estranhou as mudanças e demorou a aceitar e entender aquela proposta. Isso não é novidade, né? Quando o público está acostumado a um tipo de arte, é difícil sacar as mudanças, mesmo que elas a princípio não pareçam muito evidentes. A rejeição é grande e as críticas são muitas. Acho que faz parte do processo. Em seus diários, a própria Virginia Woolf disse que “talvez a plena beleza de escrever nunca se revele aos contemporâneos”.

Mas o que diabos mudou?

O teórico Anatol Rosenfeld, em um de seus textos, afirmou sobre o romance moderno: os relógios foram destruídos. A metáfora já diz muito!

As noções de tempo e também de espaço passam, nesse período, por uma mudança. Essa mudança vem não só de novos artifícios literários, mas também do que se entendia e questionava no mundo. Uma coisa sempre tem traços da outra, pois quem escreve a literatura está no mundo: observa, participa, se posiciona.

Essas duas grandezas / unidades de medida, que tanto se interseccionam na arte e na vida, deixam de ser compreendidas como formas absolutas e objetivas, e passam a ser mais um elemento para a construção do mundo literário ali posto. São finalmente encaradas como as formas relativas e subjetivas que podem potencialmente se tornar, tanto na literatura quanto na vida. Dá-se lugar para uma nova forma de compreender o sujeito que é personagem, mas que é também indício das mudanças da compreensão humana no mundo real.

Os dias podem se passar em horas, as horas podem se passar em dias, e assim o tempo da literatura se aproxima muito também da filosofia. As cronologias podem se inverter e retorcer. Também os autores recorrem e aprofundam técnicas como a do fluxo de consciência, que traz à tona os pensamentos e sentimentos dos personagens. Sem máscaras. Se formos parar pra pensar (ops), nossos pensamentos e sentimentos não se organizam sempre de forma linear e concisa. Pensamos uma coisa, que se associa à outra, que nos lembra de tais e tais preocupações, anseios, reflexões vão e voltam, fazem curvas e loopings porque, afinal de contas, pensar não é tão fácil e direto assim. Coisa parecida acontece no romance moderno e pode se estender inclusive sobre quem achávamos que, a princípio, seria um poço de lógica e linearidade: o narrador. O narrador é participante ativo de tudo isso – mas esse assunto a gente continua outro dia.

E os tantos outros livros que não são desse jeito?

Entender os processos que alteram a forma de contar histórias nos ajuda a entender os mecanismos da construção do texto. Isso tudo não significa que um jeito de expressar o tempo (ou qualquer outra parte da narrativa) seja melhor do que outro. Todos são possíveis e cumprem aquilo que se propõem. O importante é entender os contextos que levaram cada um deles a nascer e se estruturar dessas formas. A história da literatura diz muito sobre a história da humanidade, e não precisa ser tão quadradinha quanto a forma que vemos na escola!

E como o tempo é estruturado nos livros de hoje em dia?

Essa pergunta eu deixo para vocês. Vamos investigar?

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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