17 de março de 2016 | Colunas, Música, Se Liga | Texto: | Ilustração: Acervo
Meninas do Brasil (#MdB)
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O cenário musical brasileiro é historicamente um espaço de luta e debate para (re)pensar a sociedade em que vivemos e suas relações. Cada vez mais mulheres estão se colocando à frente de projetos musicais, ocupando o espaço que lhes pertencem por direito. As Meninas do Brasil, projeto idealizado por Luiza Sales há um ano, traz várias compositoras brasileiras para o YouTube mais perto de você e, agora também para os palcos, em um sarau, na próxima quinta-feira (17/03), no SESC Tijuca (Rio de Janeiro).
Vamos conhecer o projeto e essas meninas de perto?

Capitolina: Luiza, explica para a gente de onde surgiu esse projeto?
Luiza Sales:
O projeto audiovisual Meninas do Brasil surgiu em 2015, quando decidi apostar na internet como principal ferramenta para me comunicar com o público. Desanimada com a pouca frequência do público nos shows, resolvi sair dos palcos e investir mais na criação de conteúdo para a internet. Fizemos 22 vídeos ao todo durante o ano com dez convidadas especiais, todas mulheres. O tema do projeto surgiu a partir de uma pesquisa que fiz para o meu mestrado no exterior. Fiz uma breve sondagem sobre as mulheres compositoras na música brasileira e vi que eram poucas as compositoras consagradas na MPB. Quando se fala em grandes compositores brasileiros, vêm sempre à mente nomes de homens. Tom Jobim, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Gil, Caetano, Chico. São pouquíssimas as mulheres na história da MPB que ganharam espaço na composição como os homens. Decidi então sair em busca das compositoras da minha geração, que estão no mercado da música independente lutando tanto quanto eu. Minha ideia foi unir forças, tocar juntas e, assim, dar destaque aos trabalhos delas e ao meu também, promovendo um intercâmbio entre nossos fãs e aumentando o nosso público.

C: Por que você sentiu a necessidade de criar algo assim?
Luiza Sales:
Senti necessidade de criar este projeto porque me sentia sozinha. Durante a faculdade sempre foi assim: os homens eram instrumentistas e compositores e as mulheres eram cantoras. Sempre deixei de lado minhas ideias de composição por achar que aquilo não era pra mim. Me custou coragem tirar da gaveta as primeiras ideias musicais e compartilhá-las com o mundo. E esta coragem veio porque eu vi que havia outras compositoras por aí fazendo trabalhos tão maravilhosos, competentes e sólidos quanto os dos homens compositores. Depois que conheci mais a fundo as obras de Joyce Moreno, Rosa Passos, D. Ivone Lara, fui criando coragem.
Como artista independente, batalhando muito para lançar minhas composições no mundo e buscando ouvintes para meu som, comecei a perceber também a qualidade dos trabalhos lançados pelas minhas colegas cantautoras. Poderia ter batido aquela competitividade… e isso só aumentaria a minha solidão.
Então, resolvi me juntar às compositoras que admiro e que são minhas colegas de luta para construir algo maior, que desse visibilidade e oportunidade a todas. Hoje já não me sinto sozinha no mercado da música e descobri mais compositoras espalhadas pelo Brasil do que eu poderia imaginar!

Agora que já sabemos o estímulo por trás dessa iniciativa maravilhosa, vamos conhecer melhor algumas dessas Meninas do Brasil?
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Ana Kucera
C: Como se fazer ouvir como compositora?
É um constante desafio. São muitas artistas talentosas! Acredito que a busca pessoal artística é algo importante. Quando eu coloco intenção no que faço, a criação ganha força. Então estou me aprofundando na minha busca interna… meu objetivo é tocar as pessoas, fazer com que entendam com clareza a minha mensagem que é constantemente construída.

C: Há espaço para a mulher na música? Como criá-lo?
Nós, mulheres, estamos conquistando igualdade e ganhando espaço aos poucos. Sinto que somos as protagonistas do nosso tempo. Tudo o que une, agrega e compartilha tem seu potencial multiplicado. E esse é o segredo para conquistar espaço, seja em que contexto for. E o Meninas do Brasil faz isso. Estou encantada com o Projeto!

C: Quais são suas grandes inspirações na música?
Rita Lee, Caetano Veloso, Marisa Monte, Beatles e Fiona Apple
C: Indica para a gente compositoras brasileiras que não estão no projeto, mas precisam ser ouvidas.
Cris Delanno, Clara Valente, Larissa Nalini e Mariana Volker.

Ana Clara Horta
C: Como se fazer ouvir como compositora?
Ter boas canções, estar perto de artistas e pessoas que se admira, ter boa circulação nas mídias sociais como facebook, instagram, twitter.

C: Há espaço para a mulher na música? Como criá-lo?
Sempre há espaço para o feminino. Somos um país de boas e talentosas cantoras.

C: Indica para a gente compositoras brasileiras que não estão no projeto, mas precisam ser ouvidas.
Beatriz Azevedo e Bruna Caram

Luiza Brina
C: Como se fazer ouvir como compositora? Há espaço para a mulher na música? Como criá-lo?
Acho que o mais difícil, como mulher, é ser vista como compositora, por uma questão cultural e histórica. A mulher cantora vem se afirmando há algum tempo, sendo até um ofício considerado feminino. Agora, a criação na música ainda é muito atribuída ao homem. Estamos vivendo um tempo de manifestações ideológicas e políticas. E acredito que, por isso, o movimento feminista esteja cada vez mais em evidência, fazendo com que, felizmente, as mulheres estejam se conscientizando e se empoderando do processo de criação. Então, com essa consciência as mulheres estão tomando coragem para mostrar seu trabalho, participar de shows, mostras e festivais antes dominados por homens. Acho que agora, o mais importante para que este espaço de criação entre as mulheres fique cada vez mais amplo seja a continuidade da resistência, da conscientização das mulheres a nossa volta e da sua autonomia musical.

C: Quais são suas grandes inspirações na música?
Suzana Baca, Rita Lee, a cena atual da canção contemporânea de Belo Horizonte, Thiago Amud.

C: Indica para a gente compositoras brasileiras que não estão no projeto, mas precisam ser ouvidas.
Sara não tem nome, Laura Lopes, Leonora Weissmann, Deh Mussulini, Luana Aires, Leopoldina, Irene Bertachinni, Michelle Andreazzi, Illa Benício, Ilessi, Pameli Marafon, Déa Trancoso, Tita Parra.

Natasha Llerena
C: Como se fazer ouvir como compositora?

É realmente uma pergunta interessante, pois vejo e acompanho tantas compositoras e cantoras maravilhosas, com talento pulsante (de fato não é isso que falta) buscando espaço nesse mercado musical. Ainda estamos nos adaptando a todas as mudanças que aconteceram no mercado nesses últimos tempos, encontrando novas maneiras de se inserir, de produzir, de se fazer ser ouvido e ganhar dinheiro. Mas acredito que ser criativo nas formas de comunicar, produzir materiais com bons conteúdos, estar antenado aos movimentos atuais, e, claro, sempre buscar se aprimorar em seus talentos, são formas de ganhar cada vez mais espaço.

C: Há espaço para a mulher na música? Como criá-lo?
Há uma tradição forte de cantoras muito aclamadas na história musical do Brasil, são muitos nomes femininos que temos como referência. Acredito que como intérprete há espaço para nós mulheres, há ouvidos. Vejo que o desafio está no espaço como compositoras. Existiram e existem grandes compositoras, mas os nomes que foram firmados como referencia da música brasileira nesse lugar foram sempre homens: Milton Nascimento Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, Gilberto Gil, Dorival Caymmi, Djavan, Ary Barroso, Ivan Lins, é só ver os songbooks por aí… Só tem homens. Na minha própria história, são eles as grandes referências, esses homens fazem muito parte do que eu ouvi, do que me influenciou como compositora. Mas observo que o número de mulheres compondo cresceu, então acredito também ser um caminho natural que cada vez haja mais espaço para sermos ouvidas nesse lugar. Criar esse espaço resulta também do quanto estamos fazendo e produzindo. O Meninas do Brasil só foi possível porque a mulherada está aí, compondo, criando, cantando, unido a sacada da Luiza de unir tudo num canal só. Isso cria muita força. A união é também uma forma de se ganhar espaço.

C: Quais são suas grandes inspirações na música?
Mayra Andrade, Tcheka, Chico Buarque, Regina Spektor, Elis Regina, Caetano Veloso

C: Indica para a gente compositoras brasileiras que não estão no projeto, mas precisam ser ouvidas.
Olha, esse projeto me apresentou muitas! Mas indico uma parceira: Gika!

Manuela Trindade
C: Como se fazer ouvir como compositora?
Com muito trabalho coletivo para se criarem espaços alternativos de algum alcance, como este importantíssimo “Meninas do Brasil”. Os espaços de grande repercussão têm muitas mediações e são feitos para apenas alguns serem contemplados. Além disso, cada vez mais as políticas culturais são elaboradas dentro dos departamentos de marketing ds grandes empresas, obrigando a música a um percurso mercadológico que exige sacrifícios estéticos e financeiros. Por tudo isso, seria muito importante que compositoras e cantoras consagradas se juntasse às novas artistas nessa construção.

C: Há espaço para a mulher na música? Como criá-lo?
Há espaços limitados, pré-determinados e que buscam confirmar esteriótipos vendáveis. O embate por novos espaços precisa se dar coletivamente no enfrentamento de uma sociedade machista e mercadológica que também assim se manifesta na cena artística.

C: Quais são suas grandes inspirações na música?
Aldir Blanc, Fátima Guedes, Emicida

C: Indica para a gente compositoras brasileiras que não estão no projeto, mas precisam ser ouvidas.
Nina Rosa, Nana Batista, Iara Ferreira

Antonia Adnet
C: Como se fazer ouvir como compositora?
Com a revolução tecnológica e tantas mudanças na maneira de se fazer, ouvir e vender/comprar música, penso que ainda estamos em um caminho nebuloso, descobrindo onde vai dar. O importante é continuar fazendo o que se acredita, como a Luiza com este projeto. Acho que ela fez uma escolha extremamente acertada unindo a internet e o coletivo, pontos que dão muita força a qualquer trabalho.

C: Há espaço para a mulher na música? Como criá-lo?
Há espaço para todos. Precisamos sair da zona de conforto e perceber que há muitas compositoras boas por aí. Como as meninas já disseram, temos que continuar fazendo nossa música para que seja cada vez mais natural ver a mulher como compositora

C: Quais são suas grandes inspirações na música?
Moacir Santos, Tom Jobim, João Donato, Lenine, Dominguinhos.

C: Indica para a gente compositoras brasileiras que não estão no projeto, mas precisam ser ouvidas.
Bruna Caram, Lia Sabugosa

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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