15 de março de 2016 | Ano 2, Edição #24 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Lugar também é história

Todo caminho tem uma história, todo lugar tem uma memória. Por menor que seja um percurso que fazemos na cidade, ele com certeza terá algo pra nos contar. A arquitetura e o desenho das nossas cidades sempre têm um contexto político, histórico e social, um cenário em que foi construído. Quer dizer, se parte da sua cidade é constituída por grandes edifícios, ruas largas e distantes e dando preferência aos carros e outra parte é cheia de sobrados, casas coladas umas às outras, ruas menores e mais próximas entre si, bem, isso não é por acaso. Mas além do desenho, do que é construído, os lugares têm também a história do que acontece neles. A relação das pessoas com o espaço é essencial para a construção do que ele é, sua história e memória.

Todas nós temos um lugar em que nos sentimos bem, que nos remete à boas lembranças, momentos de felicidade vividos. Ou o contrário, aquele lugar que não se quer voltar para não se lembrar de uma memória ruim. Essas marcas do que vivemos nos espaços se dão individualmente, pelas nossas experiências, mas também se dão de forma coletiva, pelo que é construído e vivido socialmente em cada tempo.

A História que nos é contada ao longo da vida e, principalmente nas escolas, tem lado, não há como ter imparcialidade ao contá-la. Isso não é diferente quando pensamos nos lugares, na cidade. A memória é construída e se transforma de acordo com os interesses de quem tem poder de transformá-la. Assim, se dá importância a certos lugares e se apaga a história de outros. Aqui no Rio de Janeiro, consigo enxergar atualmente um grande exemplo de transformação da memória de um lugar. As grandes obras do projeto Porto Maravilha nos fizeram inaugurar um museu na Praça Mauá. Lá dentro, o objetivo é entender um certo passado e pensar e construir um certo futuro, o lugar é chamado de “Museu do Amanhã”. Em uma arquitetura totalmente alheia ao que é produzido por nós aqui, Calatrava (arquiteto responsável pelo projeto) pousa sua obra em um território que precisa, muito mais do que pensar o amanhã, relembrar o seu passado. A área portuária do Rio de Janeiro recebia os milhares de negros e negras que foram escravizados no Brasil e, até hoje, é um lugar marcado pela cultura negra e por espaços que lembram esse passado e a luta e resistência destas pessoas. Agora fico pensando, como será que os meus filhos e os filhos dos meus filhos conhecerão o Porto e a Praça Mauá? Pelo passado da população negra ou pelo amanhã do Museu?

E assim, a gente permanece achando que conhece os lugares quando há ainda muita história a ser ouvida. Quando você que não é do Rio, visita o Centro da Cidade e vê o Theatro Municipal ou a Biblioteca Nacional, por exemplo, vê edifícios históricos e de muita beleza arquitetônica. De fato, mas como somos ensinados sobre a Reforma de Pereira Passos? O que havia antes ali? Nesse mesmo Centro, há ainda a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, menos visitada que as outras tantas igrejas desta região. Mas ela foi local de organização e resistência de negros à escravidão e, tempos depois, à Ditadura Militar. Indo para “o outro lado da poça”, visitamos sempre o MAC, Museu de Arte Contemporânea em Niterói. Projetado pelo grande arquiteto Oscar Niemeyer, esse museu é o símbolo da cidade, uma cidade de origem indígena que tem essa história apagada pela grandiosidade de uma arquitetura.

Estes exemplos do Rio, com certeza se assemelham a casos de outras tantas cidades do Brasil. Podemos ver aqui e provavelmente também aí de onde você me lê, que os lugares e como vemos e lembramos deles, de uma forma geral, invisibilizam (assim como no dia a dia atual) as populações colocadas à margem, as pessoas já oprimidas e segregadas na sociedade e na cidade.
Afinal, de quem é a história que nos contam e que contamos? O que será que realmente aconteceu aqui ou ali? Será que a gente realmente conhece os lugares da nossa cidade? Eles podem nos dizer muito sobre o que se passou e sobre o que estamos construindo, mas qual lado estamos vendo e ouvindo? Pensa no maior ponto turístico da sua cidade. O que ele tem a te contar?

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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