22 de março de 2016 | Colunas, Música, Se Liga | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
“Você não precisa parecer uma vítima para ser uma”

A frase do título pode ter feito você torcer o nariz, porque ela pode mesmo ter uma aparência meio torta daquela palavrinha que os machistas e racistas adoram jogar nas discussões: vitimização. Mas não é sobre isso que esse texto aqui trata. Ela foi tirada e traduzida (e adaptada pra ficar boa como título) de um relato que a cantora Kate Nash publicou em seu Facebook. É uma denúncia séria e recente, de um abuso sexual que ela sofreu dentro de sua própria casa, apenas dois dias antes da publicação do post. Segue tradução livre:

“Dois dias atrás, fui apalpada dentro da minha própria casa, por um homem desconhecido. Estava sozinha, fui encurralada no banheiro e extremamente ameaçada. Estou compartilhando essa informação com vocês porque mulheres são encorajadas a ficarem quietas, não ocupar espaço e se esconder quando são violadas. Temos medo de falar sobre o que ocorreu porque não queremos causar problemas ou fazer um escândalo. Não queremos falar sobre assuntos pesados e deixar as pessoas desconfortáveis. Mulheres e meninas normalmente são acusadas de terem pedido para aquilo acontecer ou de ter inventado a história. Então às vezes pensamos duas vezes antes de denunciar, ou simplesmente não denunciamos. Estou cansada de me sentir assim. Falar sobre essas questões pode a) ajudar a prevenir que elas voltem a ocorrer e b) nos fazer sentir mais fortes, mais apoiadas e mais seguras. Estou ainda aliando essa declaração com uma foto minha em que estou totalmente ridícula, tirada por @abaxley porque eu não gosto das imagens que em geral são associadas com abuso sexual, não temos que nos parecer com vítimas para sermos vítimas. Eu mesma sou uma mina lacradora dos infernos, essa m**** pode acontecer com qualquer um. Fale e não se sinta desencorajada. (…)”

Você ficaria surpresa se soubesse quantas mulheres no mundo da música sofreram violência sexual e/ou doméstica, e na mesma época estavam subindo em palcos, fazendo shows absurdamente incríveis e gravando discos maravilhosos.
A cantora Kesha, por exemplo, recentemente esteve em tudo que é site de notícias devido à sua denúncia de abuso sexual pelo produtor Dr. Luke. Ela entrou com um processo para acabar com o contrato dos dois artistas, baseando-se principalmente no fato de que o artista abusou dela física, psíquica e sexualmente. A questão é que Kesha assinou o contrato com Luke em 2008 e entrou com o processo em 2014. Nesse período de 6 anos entre a assinatura e o processo ela gravava músicas, fazia shows e dava entrevistas – ninguém diria que ela estava sendo vítima de violência.

Da mesma forma, teve o caso de violência doméstica de Chris Brown contra Rihanna. A cantora é uma das artistas mais poderosas e maravilhosas em que eu consigo pensar, e já era enquanto namorava com Chris Brown, antes da denúncia. Porém, é claro que o relacionamento abusivo já se mantinha desde antes da agressão física e, mais uma vez, o mundo via Rihanna como um ícone pop, e não a imaginava como alguém que estava sofrendo com a misoginia dentro de casa.

Muitas outras cantoras e artistas, como Lady Gaga, Tina Turner, Madonna, Queen Latifah, Pitty, Sinead O’Connor, Elza Soares, Oprah Winfrey e tantas outras estrelas, poderosas e fortes que não imaginaríamos em situação tão vulnerável, foram vítimas de violência, mas acho que seria desnecessário e expositivo ficar aqui relatando e repetindo cada caso, já que a mídia já falou sobre eles o bastante.

O fato é que: só porque essas mulheres continuaram – e continuam – brilhando em suas carreiras, não significa que não sejam vítimas. Quantas mais sofreram e não puderam se abrir sobre o assunto, tiveram que permanecer caladas, sem ninguém jamais suspeitar de seu sofrimento? Já tratamos aqui na Capitolina sobre como nós, mulheres, aprendemos a manter a voz baixa sobre a violência que sofremos dia após dia. A cada três mulheres que você conhece, uma provavelmente já sofreu violência sexual. E quantas delas falaram sobre isso para você, ou abertamente em suas redes sociais, por exemplo? Quantas mulheres você conhece que realmente seguem o perfil de vítima, e quantas continuam trabalhando, na luta, para sustento próprio, para sustentar os filhos, para chegar onde querem na carreira, e aí por diante?

A denúncia da Kate Nash quer justamente que nós paremos de procurar por mulheres chorando nos cantos, porque na maioria das vezes as mulheres que foram vítimas de assédio sexual não vão parecer ter sido vítimas, e serão forçadas a simplesmente tocar a vida.

Nós precisamos nos solidarizar umas com as outras e falar sobre a violência decorrente do machismo e da misoginia. Simplesmente não dá mais para assumir que qualquer mulher que esteja com um sorriso estampado no rosto, que tenha uma aparência de mulher forte, que siga vivendo e batalhando na vida ou que seja bem-sucedida na carreira (como é o caso das artistas aqui mencionadas), não tenha sido uma vítima. Muitas mulheres, inclusive, sentem que precisam se manter em silêncio por, por exemplo, não terem para onde ir se deixarem a casa, por medo de perder o emprego, por medo, inclusive, de sofrerem mais violência. Aqui, é claro, o foco foram as mulheres vítimas de abuso sexual no mundo da música, mas quantas Marias da Penha e Rosenildas não estão bem aqui ao nosso lado? Nem sempre as mulheres ao nosso redor deixam de falar sobre a violência por opção. Precisamos parar de tratar o estupro, os abusos e violência doméstica como um tabu, porque, quanto menos falarmos disso, mais mulheres irão sofrer.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

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