31 de março de 2016 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração:
Minha miga pina

No começo do ano, uma velha conhecida desse mundinho das artes brasileiras resolveu dar uma repaginada no visual. A Pinacoteca do Estado de São Paulo, que em 2015 completou 110 anos, trocou de logo, de identidade visual e até oficializou o apelido como nome artístico – agora atende por Pina_ – para tentar dar uma arejada naquela alma centenária.

Só que nem todo mundo gostou muito da mudança. Na página oficial do museu no Facebook, a postagem que anunciava a nova cara foi bombardeada de comentários pouco impressionados, muitos ressaltando a suspeita semelhança entre o logo e a identidade visual da cidade de Porto – os mais maldosos falaram em plágio mesmo -, outros ofendidos com a forçação de barra na intimidade, num negócio meio “que mané Pina, estamos falando de uma senhora, mais respeito, é Pi-na-co-te-ca”.

O episódio deixou bem claro esse lugar deslocado em que os museus se encontram atualmente. Estamos falando de instituições que surgiram em um contexto de alguns séculos atrás e que muitas vezes abrigam coleções de muitos outros séculos mais de idade, num formato, quando falamos da coisa mais tradicional, que deixa muito claro quem é que está lá pra ver, e o que é que está lá pra ser visto, e que conta com uma proposta de interação bem restrita, baseada justamente nisso aí: só ver mesmo.

Mas – eu juro que odeio ser a tiazona que usa a internet, os celulares e o Facebook pra fazer uma análise sociológica rasa, mas vou ter que ser – em tempos dessa coisa toda de conexão, interatividade, social media engraçadinho e reprodutibilidade ilimitada de praticamente qualquer coisa, como é que esse modelo de instituição consegue se manter vivo? Melhor ainda, como esse lugar que, pela descrição, parece cheirar a naftalina e internet discada, consegue se manter relevante? Será que o museu consegue ocupar um espaço de importância na discussão não só do que a arte já foi, mas também do que ela é em sua produção contemporânea, pra que a gente possa parar de tratá-lo como sendo só aquele lugar onde se entulha velharia?

São muitas as perguntas, e parece que ninguém tem uma resposta muito clara. Mas dá pra apontar alguns fatores que tornam a situação toda tão esquisita. A arte em si se baseia, muito frequentemente, nessa ideia de que algumas poucas pessoas iluminadas podem produzi-la, e ao resto da humanidade, tadinha, que nasceu sem talentos, só sobra a possibilidade de observar. Nosso ensino de artes é moldado nisso – com quantos anos você, por exemplo, parou de desenhar? Provavelmente com uns 9 ou 10, quando alguma professora te disse que pessoas não são azuis ou que aquele cachorro estava desproporcional, né? -, então é natural que a nossa relação com a produção artística seja um reflexo desse endeusamento e distanciamento.  

Ai a gente chega nesse contexto 2016 em que a crítica – a que conversa e pensa realmente o que é produzido – aparentemente virou lenda, e a relevância de uma obra ou artista é medida por seu valor no tristíssimo mercado de arte ou pela indicação do fulaninho dono de galeria hype, e o resultado é essa produção artística mainstream que só fica fechadinha em si mesma. Ao mesmo tempo, o grosso da população passa a curtir bastante essa ideia de interação e conectividade, e não vê lá muita graça em só parar e olhar alguma coisa. E o que sobra disso? Um enorme buraco entre o que tá em exposição e os espectadores em potencial.

Os museus resolvem então entrar na era do Social Media Engraçadinho, e seus curadores ficam quebrando a cabeça – tá, talvez não os curadores, mas as equipes de marketing, certamente – pra pensar exposições que “atraiam o público”. As instituições criam quase uma batalha entre quem consegue trazer o nome mais bombado – o CCBB trouxe Picasso? Ah, o Tomie Ohtake não deixa barato e tira uma Frida da manga – e pensam em inúmeras formas de fazer com que o público possa brincar com as obras. Funciona? Olha, em termos de público, qualquer um que viu as filas que encaracolavam os quarteirões ao redor da Pinacoteca durante o período em que Ron Mueck passou por aqui pode dizer que sim. Mas será que esse público se torna frequentador de fato desses espaços? Não quer dizer alguma coisa que, passada alguma das tais mega exposições, os corredores voltem a ficar às moscas?

O que rola é que os museus tentam se reiventar sem de fato fazê-lo. Os espaços vão se transformando em parquinhos de diversão, mas ainda deixam o público em seu lugar original, o de espectador passivo – com a diferença de que agora dá pra tirar uma selfie ou tocar uma coisa ou outra -, e fica essa coisa meio tosca de tiozão tentando ficar por dentro dos memes da juventude, tipo uma Fátima Bernardes dançando Tá Tranquilo, Tá Favorável.

É lógico que ninguém aqui tá desprezando as tentativas – é legal que alguma coisinha já esteja sendo feita pra repensar esses espaços, e existem inúmeras pessoas, principalmente as queridas e queridos dos setores de arte-educação, que fazem esforços enormes pra deixar esses lugares tão gelados mais acolhedores. Mas o caminho é muito mais longo que um joguinho de Wii na entrada da exposição, e passa por repensar acervos, curadorias, atendimento e, acima de tudo, o que essas instituições realmente querem da vida. Enquanto isso não acontecer de forma mais sincera, o público vai continuar achando forçação de barra te chamar de Pina, querida Pinacoteca.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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