29 de março de 2016 | Ano 2, Edição #24 | Texto: | Ilustração: Luciana Rodrigues
Nomes de ruas: uma faceta do racismo
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“Andamos pelas ruas das cidades e, quase sempre, ignoramos a história de seus nomes. No entanto, os seus apelidos, as suas denominações refletem o espírito criativo dinâmico dos habitantes do lugar. Expressam os seus cuidados, seus caprichos e seus desejos manifestados em determinadas circunstâncias e momentos.” (Francisco Nunes)

Nomear algo é uma prática corriqueira. Quando nascemos ganhamos uma identificação, e a forma como você será registrado pode trazer inúmeros significados. É pelo seu sobrenome que sabemos nossas origens, e isso pode representar até status social dependendo da época ou da sociedade analisada.

Os logradouros nos primórdios das cidades brasileiras, em geral, eram nomeados pelos primeiros moradores e eram simples relacionados as principais características daquela religião, a rua de “Cima” era conhecida assim por consequência da topografia que se elevava, a rua “São João” tinha esse nome pois João Felipe Xavier costumava dar ruidosas festas anualmente em homenagem a São João Batista naquele lugar, e a rua do “Teatro” era denominada assim pois existiu o Teatro de São Carlos.

Essas denominações citadas acima remetem a algumas ruas da cidade de Campinas, em meados do século XIX. Nessa época as ruas da cidades ganhavam suas identificações em placas feitas de forma artesanal pintadas com pincéis e tinta; esses nomes precisavam ser constantemente refeitos, só em 1894 que as placas de ferro ou bronze surgiram, em virtude da Lei nº 25 de 1893, promulgada pelo intendente José Maximiniano Pereira Bueno. E por sinal nessa época muitas delas ganharam novos nomes, “(…) com o decorrer do tempo, os nomes das ruas e praças vão se alterando, acompanhando a dinâmica urbana, no sentido de acompanhar uma nova época, um novo tempo, um novo fato ou um novo mito. Essas mudanças nem sempre são simples ou aceitas tão facilmente”.

Por isso são inocentes os que acreditam que logradouros são apenas identificações e que a mudança desses nomes feitas por vereadores são um ato sem importância. Estamos falando de poder e reafirmação histórica. Trata-se de uma recorrente forma de reprodução e perpetuação da chamada história oficial, baseada no culto à genealogia da nação e edificação do Estado nacional, assim como aos fatos e personagens correspondentes.

A manutenção da hegemonia do poder de determinado grupo também está portando relacionado com a denominação os logradouros públicos (nomes dos espaços como ruas, praças, largos), sendo assim, grupos nacionalmente silenciados na história nacional, são também esquecidos no que diz respeito a essa forma de homenagem e perpetuação histórica, fato esse que evidência determinadas práticas de exclusão, como já disse Jacques Le Goff:

“tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva.”

O Brasil foi o país que mais importou escravos, um total de 20% de todas as pessoas raptadas da África para serem vendidas, dando um número estimado de cinco milhões de pessoas. Eles eram essenciais para o desenvolvimento da economia – as plantações de açúcar, as fazendas de café, as minas de ouro. Em 1888, quando a abolição finalmente tornou-se uma realidade, havia mais negros do que brancos no Brasil.

Contudo, o afloramento da sociedade não era paralelo aos desenvolvimentos sociais, sendo assim características da sociedade escravocrata eram mantidas mesmo com os significativos avanços. Por exemplo, em 1872, escravos ainda era proíbidos de transitar pela cidade à noite sem bilhetes com a permissão ou ordens de seus senhores. Nesse mesmo período o país começa a incentivar as migrações de europeus para trabalharem nas lavouras brasileiras, mesmo com a mão de obra negra sendo abundante.

A política de mestiçagem pós-abolição visava o embranquecimento da população majoritariamente negra, essa que promovida pelos antigos donos de escravos, que se empenhavam em diluir a negritude do país, ao mesmo tempo que esses também se empenhavam em definir dessa forma qual história iriam promover como a verdade única. A escritora nigeriana Chimamanda elucida:

“Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder e habilidade não só de contar a história de uma pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pesssoa.”

Esse processo que visava o embranquecimento da população também tinha como intuito impedir a ascensão social negra por meio do trabalho. Portanto, não é a toa que a construção da identidade nacional, por mais que traga o personagem do negro presente, é sempre de forma secundária e associada apenas a visão do trabalho escravo. Sobre o mito da democracia racial o país acabou criando uma história onde os homenageados ao serem nomeados com algumas ruas são também os mesmos que eram responsáveis pela exploração e escravidão dos africanos traficados e seus descendentes, em contrapartida poucos são os negros que acabam ganhando o mesmo destaque. Quantas ruas com nomes de negros conhecemos? No país são poucos os locais onde as ruas referenciam o motivo da homenagem. Se isso acontecesse com mais frequência, seria perceptível que é mais fácil um tirano dar nome a uma rua do que qualquer outra pessoa com histórico humano e social, pois no fim estamos falando de PODER. E no nosso país a escolha dos nomes sempre passava pelos “homens bons” da Câmara, e esses sempre foram os senhores, burgueses, empresários, etc., consequentemente o poder sempre foi algo de poucos.

Um claro exemplo de como esse poder na mão da elite alterou a vida de muitos é que parte das famílias negras no pós-abolição continuaram morando em áreas rurais, entretanto alguns deslocaram-se para os centros urbanos, em áreas hoje consideradas nobres, nesse momento alguns espaços nas regiões centrais, até então desvalorizadas. Começaram a passar por um processo de mudança, deslocamentos, valorização e ocultamentos. Essas mudanças urbanas que visavam sempre privilegiar os desejos da elite vigente estavam além da transferência de negros de determinados bairros e a marcação de áreas destinadas a equipamentos urbanos indesejados, elas se estendiam para os nomes de ruas, esses que estão intrinsecamente ligados com a manutenção de poder, tanto que nesse mesmo período houve um processo de alteração dos nomes principalmente nas áreas centrais.

Ou seja, no pós-abolição houve um processo de mudança grande, um redesenho do urbano.

É preciso fazer desaparecer tudo, ou quase tudo, que não devia ser visto. Em lugar da cidade de taipa, despudorada e malcheirosa, aspirava-se a cidade de tijolos, bem-comportada e higiênica. Não há hesitações entre simplesmente camuflar o artefato comprometedor e a sua gentemolambenta e até, se for o caso, demolir e expulsar do convívio urbano os que não se adaptarem àqueles novos tempos.

É portanto errôneo associar a presença negra no território urbano apenas a periferia, já que seria ignorar esse passado que inclui não só a existência negra nas áreas centrais, como também acreditar que a construção da modernidade e sua reconstrução urbana era apenas uma busca de uma cidade “ideal”, sendo que ela foi uma política racista e higienista, segundo a qual nesse contexto era necessário que negros fossem excluídos de determinados espaços.

As ruas ganharam novos nomes, mas por que ganharam outro significado em termo de relevância e manutenção de poder, o costume de nomear anterior que remetia à vida cotidiana como uma rua que chamava “Casinha” dava margem para destacar qualquer fato ou pessoa, por isso a “Casinha” citada como exemplo, tornou-se “General Osório”, isso na cidade de Campinas. É relevante que se destaque que estamos falando de um período de mudança de regime político, com a chegada e estabelecimento do Período Republicano, e com isso a reafirmação dessa elite republicana ao poder, entretanto também era um contexto de Pós-Abolição, em que a população negra era significativa e indesejada, e esse fato não é irrelevante para análise desse contexto, porém muito esquecido.

Num levantamento das ruas de áreas centrais (os bairros selecionados foram: Cambuí, Jardim Guanabara, Botafogo, Vila Industrial, Vila Lidia e Vila Itapura) de Campinas, de 271 nomes, apenas 6 remetiam a negros e datas importantes para a população negra:

Avenida 13 de maio.
Avenida Francisco Glicério.
Rua Antônio Cesarino.
Rua Luis Gama.
Rua Santana Gomes.
Rua Benedito Ótavio.

Fica evidente que, se tal levantamento fosse feito em outras regiões e contextos nacionais, não seria diferente. Os nomes que se destacaram e, por isso foram de alguma homenageandos, tinham contribuições academicas ou artisticas à comunidade, principalmente relacionadas à luta Abolicionista, que são inegaveis para história nacional. O ato de dar nomes a ruas não é realmente algo inocente, e continua sendo faceta de uma sociedade racista onde a história do negro não precisa ser contada ou reverenciada. Afinal quanto mais negamos a história negra, mais a população negra acredita que ela não tem uma identidade e poder.

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Quer saber mais? Confira as referências usadas no texto:
LAPA, A. Cidade: os cantos e os antros. São Paulo, EDUSP: 1996.
ADICHIE, Chimamanda, discurso da escritora nigeriana no evento Technology, Entertainment and Design (TED), no ano de 2009.
LE GOFF, J. História e Memória. Campinas: Editora Unicamp, 1996. p.426.
SOUZA, C F. O sentido das palavras nas ruas da cidade. Entre as práticas populares e o poder do Estado (ou público) IN: BRESCIANI, Maria S. (org.) Palavras da cidade. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2001. P.138.
NUNES, Francisco. Campinas Ruas da Época Imperial, Introdução. 1983.

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O artigo faz parte da pesquisa: Cada ponto tem um conto. Manifestações Urbanas de Matrizes Africanas nos Espaços Urbanos da Cidade de Campinas. Orientada por Wilson Caracol Ribeiro.

Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Contribui com textos e artigos para diversos meios, além de participar de palestras e eventos. Trabalha em seu livro a ser lançado pela Cia das Letras em breve.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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