13 de abril de 2016 | Ano 3, Edição #25 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
O que deixamos de compartilhar
Oversharing-IsadoraM

A gente já falou por aqui sobre oversharing – esse conceito de compartilhar demais as coisas, especialmente na internet – e sobre todo mundo que fica de saco cheio com trinta selfies do mesmo ângulo da mesma cara com a mesma maquiagem postadas no intervalo de uma hora. Nesse texto, a Laura fez um excelente recorte de gênero nas críticas a quem posta demais e deu umas boas dicas de bom senso em relação a saber o que postar ou não se você está em dúvida.

No meu texto de agora, no entanto, eu vou fazer menos o papel da descolada da internet e mais o papel da tia velha, e lembrar bem da máxima com que a Laura terminou o texto anterior: “pense um pouco antes de postar.”

A questão é a seguinte: o perfil do Facebook, do Instagram, do Twitter, do Tumblr é seu, posta o que você quiser. Sim. Claro. Ninguém é obrigado a ser seu amigo nas redes sociais, ninguém é obrigado a te seguir, você pode reclamar da vida e postar um milhão de selfies e fazer vídeos do seu cachorro pulando o dia inteiro. Vai lá, fica à vontade. No entanto, você também não é obrigada a postar tudo o tempo todo se não quiser.

Eu tenho minha vida toda escancarada na internet, de selfies estranhas a reclamações sobre família a comentários definitivamente inapropriados sobre minha vida sexual. Tá tudo por aí em algum canto, porque cresci na internet sem tanta dimensão do seu tamanho (e porque minha personalidade é dessas mesmo). Recentemente, no entanto, a velhice-de-internet tá batendo e com ela a sensação de que talvez eu não precise compartilhar tanto; não é nem por causa dessas coisas de “e se futuros empregadores virem?” (porque, afinal, meu trabalho é em parte ser essa pessoa oversharer da internet) ou porque quero apagar traços da minha juventude (porque, afinal, eu falo sem parar da minha adolescência), é mais porque eu tenho sentido vontade de deixar algumas coisas mais particulares.

E, nesse processo, eu tenho reparado essa pressão bizarra para todo mundo compartilhar tudo (mas não demais), de um jeito curioso que desprotege inteiramente as pessoas em questão. É como se o resguardo simplesmente não fosse uma opção e a escolha por não falar sobre um assunto ou postar sobre um determinado lado da sua vida gerasse uma certa dívida. Isso é muito visível na relação com pessoas famosas-na-internet (cuja vida precisa ser inteiramente documentada para que os fãs sintam que é uma pessoa de verdade), mas também acontece nas relações mais pessoais: as cobranças para compartilhar o projeto de fulano, para comentar sobre o acontecimento político do momento, para postar todas as fotos daquela festa, para fornecer um certo tipo de conteúdo sobre sua própria vida, como se a obrigação de todos os seres humanos em redes sociais fosse gerar entretenimento para os outros.

Minha resolução para 2016 foi fazer tudo de forma mais ativa e consciente – evitar tomar decisões ou falar coisas ou gastar dinheiro ou seguir a rotina sem pensar antes – e, quanto mais aplico isso ao meu comportamento virtual, mais me dou conta de que não quero ou preciso compartilhar algumas coisas naquele momento. Claro que há valor e beleza na espontaneidade, que o uso orgânico e vivo e instantâneo da internet é incrível e interessante – snapchat tá aí pra provar isso –, mas há valor também na escolha, em pensar se você quer mesmo falar sobre aquilo no calor do momento ou se prefere esperar, se você quer compartilhar vários textos sobre determinado assunto ou se só o faz porque sente que precisa.

Não argumento que uma das práticas é melhor do que a outra – não sou tão tia velha da internet assim –, mas descobri em mim um certo nível de liberdade e serenidade ao me permitir refletir por um segundo antes de comentar ou postar. Não opinar quando não tenho opinião formada, não comentar só pra discordar de alguém, não postar demais sobre coisas que ainda estão incertas, não postar textão que pode gerar confusão sem dar uma lida e uma respirada antes – todos esses pequenos limites que consegui impor a mim mesma (nenhum deles fixo, nenhum deles uma regra determinada, nenhum deles aplicado a outras pessoas) me possibilitaram uma relação com as redes sociais mais saudável e protegida. Para quem tem se sentido esgotado pelas pressões invisíveis da internet, recomendo: é só respirar fundo uma vez antes de dar enter.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos