10 de maio de 2016 | Colunas, Educação, Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Afroempreendedoras: entrevista com Vanessa Pereira
Senegâmbia

A independência financeira é um ponto importante quando tratamos do empoderamento feminino e a possibilidade de gestão da própria vida, além de evitar a manutenção de relacionamentos abusivos e ciclos de violência doméstica que se baseiem nesse tipo de controle.
Em Um defeito de cor, a escritora Ana Maria Gonçalves conta a história de Kehinde, uma mulher do Daomé (Benin), arrancada de sua terra para ser escravizada no Brasil. Embora passe por situações desumanas, a personagem usa seus talentos gastronômicos para produzir cookies e vendê-los para comprar sua liberdade. Essa atitude de resistência foi bastante comum durante todo o vergonhoso período da escravidão nesse país. Mulheres negras têm sido historicamente empreendedoras tanto na África, antes das tentativas de dominação europeia, quanto em diáspora.
Mesmo diante de tudo isso, digitar “empresário” ou “empreendedor” no Google é se deparar com fotos bem fake de homens brancos em seus ternos bem-cortados entre ilustrações de cifrões e lâmpadas. Nem precisamos dizer o quanto essa generalização reforça estereótipos e elimina a representatividade para adolescentes negras que querem seguir essa carreira. Mas as afroempreendedoras também resistem e crescem cada dia mais!
Para saber um pouco mais desse cenário (e inspirar todas nós!!!) entrevistamos a poderosa Vanessa Pereira, sócia da marca de camisetas carioca Senegâmbia. Confira agora essa conversa deliciosa sobre política, cultura, empreendedorismo e como podemos ligar tudo isso (e revolucionar nossas vidas!).

Capitolina: Quando você percebeu que abrir seu próprio negócio era a melhor alternativa?

Foram dois fatos que nos levaram a elaborar e lançar a marca. O crescente posicionamento de negras e negros sobre as questões raciais, posicionamento esse através de debates, cursos, feiras, e principalmente da afirmação tanto da cultura como da beleza natural do corpo negro, em suas formas, cores, cabelos e traços. Outro fator fundamental foi a nossa vontade de contribuir para esse processo da linguagem que melhor nos expressamos, artes gráficas e poesia.

Foi seu primeiro empreendimento?
Sim!

Como foi o acolhimento do público à marca?
Não temos do que reclamar. Na verdade superou nossas expectativas. Nosso veículo principal de divulgação é o Facebook. Com as encomendas e “likes” podemos ir acompanhando o quanto o público se reconhece com a marca. Mas o mais legal foi quando pessoas que não pertencem ao nosso círculo de amizade começaram a desejar a marca. Foi uma quebra de fronteiras.

Como é lidar com os fatores: elitismo, racismo e intolerância religiosa?
É difícil. Mas, ao mesmo tempo, é uma experiência libertadora. Se ver como negra e negro. Entender todo o processo histórico, passando pela escravidão, a abolição, a luta por direitos, é ingrediente para tirar nos nossos próprios ombros o peso que os racistas tentam lançar sobre nossas vidas. A sociedade brasileira é fundamentalmente racista. Se tirarmos da nossa história a “pilastra”: negros escravizados. Todo o resto da história vai ruir. Porém, ao mesmo tempo isso não quer dizer que possamos perdoar os racistas alegando que eles apenas reproduzem uma forma de pensamento. O racismo é ativo, e ser racista é uma opção. O que, com o perdão da ambição, pretendemos com as nossas estampas é deixar à vista de todos — e é aí que entra o poder das camisetas — que a cultura negra, através de seus mitos, personagens, personalidades e símbolos, tem papel fundamental para as transformações da sociedade brasileira. Yemanjá, Zumbi, Nina Simone, Dona Ivone Lara, Abdias do Nascimento, Rainha Ginga e Xango não são só figuras, não são só ícones. Mas são todas entidades carregadas com o ideal de justiça e liberdade, além de, claro, muita, mas muita beleza e poesia. Pois o mais legal da contribuição de tudo o que é negro para a sociedade é que vem repleto de cores, ritmos, sabores, corpo, toque, dança, suor e luta.

Como vocês pensam as coleções?
Por enquanto não pensamos muito. Vamos apenas deixando as ideias fluírem.

Fazer um produto acessível é uma preocupação da marca? Como vocês estimulam o consumo consciente? Como equilibrar tudo isso?
Sim, claro. Um valor honesto é fundamental. Uma das nossas preocupações é estabelecer relações saudáveis com nossos parceiros ao longo do processo produtivo, que vai da compra de matéria-prima, passando pela modelagem, corte, costura e impressão. Estabelecemos relações comerciais saudáveis, em relação a prazos e preços.

Quais são suas recomendações para adolescentes negras que querem começar o próprio negócio (formação, contatos, redes, lugares para procurar…)? Qualquer dica é bem-vinda!
A primeira coisa é perguntar-se sobre o porquê estar fazendo aquilo. O que te moveu até ali? Mesmo que não saiba bem onde vai dar, sabendo de onde se veio já é meio caminho andado. No mais, é aproveitar as capacitações que rolam por aí, levantar a cabeça e assumir-se, posicionando-se SEMPRE como mulher negra. Sim, ser mulher e negra é enfrentar um duplo desafio diário. Seja apaixonada por si mesma e persista. Até onde der 😉

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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