2 de agosto de 2016 | Colunas, Educação, Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
ORIENTAÇÃO VOCACIONAL CAPITOLÍNICA: Jornalismo
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Quem conhece um pouquinho sobre o mundo de um vestibulando (por ser, ter sido ou ser próximo de algum) sabe que essa é uma época tensa do ano: maio foi época de inscrições no ENEM, o maior sistema de seleção pro ensino superior no país, e o período de agosto a outubro é cheio de aberturas de processos seletivos de diversas instituições públicas e privadas. Com isso em mente (e talvez um pouco de atraso), a seção de EVP decidiu iniciar uma série de textos sobre profissões, na esperança de ajudar um pouco nessa escolha que, apesar de não precisar ser definitiva, é um passo importante que geralmente envolve muita confusão e estresse.

Para falar sobre a primeira dessas profissões – jornalismo – fizemos um perfil básico do que é curso e a carreira e entramos em contato com algumas jornalistas em formação para ter uma visão melhor da realidade do curso e do mercado de trabalho: Mariana Gonçalves e Jéssica Bernardo, alunas da USP; Victória Régia, que estuda na UFRJ e também faz parte da Capitolina; e Maria Freire, que faz Cásper Líbero.

O que uma jornalista faz?

Falando em linhas gerais, uma jornalista é a responsável por transmitir informação, podendo fazê-lo tanto por meio do texto escrito – em jornais físicos, revistas e sites de notícia – como por meio de produções audiovisuais para rádio e televisão. Via de regra, a vida de uma jornalista envolve absorver os acontecimentos ao seu redor e fazer sentido deles para passá-los à população.

Quais habilidades são importantes numa jornalista?

Curiosidade por vários temas, facilidade com escrita, capacidade de lidar com prazos e trabalhar sob pressão, empatia e vontade de entender o outro.

O que se estuda no curso?

A grade de jornalismo envolve disciplinas particulares à profissão – de produção (como radiojornalismo e jornalismo na TV) e teóricas (ética e história do jornalismo, teoria da comunicação) – e das ciências humanas em geral, como ciência política, antropologia, filosofia e história. Muitos cursos também contam com disciplinas laboratoriais, de produção de periódicos.

Dadas as informações gerais, falamos com algumas meninas que cursam ou cursaram jornalismo e pedimos que elas nos contassem um pouco sobre sua experiência com a graduação e a profissão, além do que as motivou a escolher o curso.

Por que jornalismo?

Mariana Gonçalves: Eu sempre gostei de ler e escrever, e, de início, o que me chamou ao jornalismo foi a oportunidade de entrevistar pessoas de quem eu gosto. Passei anos pensando em cursar letras e escrever crônicas para algum jornal, mas no terceiro ano do colégio percebi que não queria escrever apenas textos literários. Logo pensei no jornalismo como uma forma de trabalhar escrevendo sobre vários assuntos. Também me dei conta do enorme poder de mobilização do jornalismo, principalmente devido a uma matéria maravilhosa da Época sobre assédio nas ruas, e foi isso que me fez me apaixonar e querer seguir essa profissão.

Jéssica Bernardo: Escolhi jornalismo porque gostava de ouvir e contar histórias mais do que qualquer outra coisa. Na verdade percebi que precisava trabalhar com gente antes de perceber que o jornalismo poderia ser um meio para isso.

Victória Régia: Jornalismo é uma profissão incrível e ao mesmo tempo muito cruel, principalmente com a mídia hegemônica que a gente tem no Brasil. O jornalismo tem uma preocupação social muito importante, tem o papel de denúncia, investigação, apuração, retratar uma realidade e mostrar como o mundo realmente é. Este é o cerne do jornalismo: é você, através da comunicação, trazer informação a outras pessoas para que elas tenham acesso a ela e com ela, possam agir sob a sociedade. É como se fôssemos o intermediário entre a mudança social e as pessoas. Levando a informação a elas, o jornalismo pode habilitar essas pessoas a conhecerem, explorarem e investigarem mais sua realidade.

O que você acha do curso?

Mariana: Na ECA, as matérias teóricas estão mais concentradas nos primeiros anos e as práticas, nos últimos – como aluna do segundo ano, falo baseado no que tive até agora. O mais legal do curso é, pra mim, poder participar de experiências práticas laboratoriais e produzir conteúdo para uma demográfica fora da universidade (no primeiro ano, existe o Notícias do Jardim São Remo e no segundo, a Agência Universitária de Notícias). Também gosto do curso ser bem aberto e permitir que a gente exerça nossa criatividade – os temas dos programas de rádio que fazemos ao longo da graduação são abertos, por exemplo, e dá pra falar sobre um assunto que você goste muito – e construa nossa grade, já que temos bastante espaço para optativas e podemos pegar matérias de qualquer faculdade. A parte negativa é que justamente por podermos trabalhar muitas coisas, acabamos não trabalhando nada com muita profundidade. Eu também sinto que o curso da USP é muito antiquado em alguns pontos, e falha em situar o aluno nos conflitos e produção atuais do jornalismo.

Jéssica: Da graduação eu esperava uma visão humana da profissão. Nada idealizado — já entendia que o mundo não era tão cor de rosa assim — mas queria de fato o conteúdo de cunho mais social possível. Talvez essa tenha sido uma das decepções: nem todos pensavam como eu, ou escolheram a carreira pelos mesmos motivos. Cheguei à conclusão de que a faculdade não te torna um bom profissional nos quesitos de técnica. Ela torna você um questionador. É na faculdade que você aprende a questionar a falta de ética das redações, o egoísmo assustador dos colegas à sua volta, a falta de empatia daqueles que se acostumaram a noticiar a dor alheia.

Victória: A graduação da UFRJ funciona num esquema um pouco diferente, que foi uma das razões dela ter sido minha escolha: todos os alunos que pretendem estudar comunicação social entram juntos (existem 120 vagas), e temos um núcleo comum de matérias durante os primeiros 3 semestres, que são os com a maior carga teórica. Você acaba com uma noção mais ampla do que significa comunicação, e eu acho essa a maior força do curso. As matérias mais específicas – como técnicas de redação e jornalismo cultural – ficam pros outros cinco semestres, depois da escolha da habilitação. A gente tem bastante liberdade pra montar a nossa grade também, por optativas eletivas e de toda a universidade.

Maria: O curso na Cásper costuma ser mais teórico no primeiro ano mas também com algumas matérias práticas que eu não vou saber falar dos nomes porque a grade mudou de anual para semestral (no entanto, o vestibular ainda é anual). No segundo ano, temos muitas aulas sobre “jornalismo na prática”, inclusive no laboratório de rádio e também em uma matéria de “reportagens especiais” onde temos contato com livro-reportagem em todo bimestre e fazemos entrevistas e perfis que contam pra nota. No segundo ano também devemos escrever artigo científico pra matéria de metodologia de pesquisa e que seja voltado para um acontecimento midiático ou minimamente um estudo sobre um assunto da mídia (o meu foi sobre o apagamento da palavra “lésbica” estudando o caso de uma reportagem específica de uma atleta específica,  Larissa França, jogadora de vôlei de praia e sendo narrada no Estadão). Também temos muitas palestras com jornalistas conhecidos, mulheres da comunicação e, como sempre, na Cásper, somos fortemente inseridos no mercado de trabalho e normalmente no segundo ano 90% dos alunos já estagiam e conseguem lidar bem com isso e com o curso junto.

E do trabalho?

Jéssica: O dia a dia ensina a técnica. Você só aprende mesmo a apurar, a ser mais rápido e a informar claramente no seu texto com a prática e os erros que dela vêm. E quando você tiver entendido qual a melhor forma de passar uma notícia pro leitor/espectador, boom! Explode em você o sentimento questionador de outrora. Os dois lados se completam.

Victória: o mercado de trabalho pro jornalista tem se ampliado muito: agências, assessoria, comunicação de maneira geral, produção, divulgação… É uma exigência do mercado que o jornalista seja cada vez mais multidisciplinar. A parte triste da situação brasileira é a existência de um monopólio de mídia muito grande, o que dificulta a batalha por uma comunicação humanizada e verdadeiramente democrática.

Maria: Tem sido um pouco complicado ter que entender que a realidade da profissão destoa bastante do que eu imaginava. E isso tudo se manifesta ainda mais quando eu enxergo que na faculdade eu aprendo muito sobre teorias e técnicas, mas, na prática, eu preciso lidar com malícia e isso só o trabalho me proporciona. Eu acredito que uma faculdade que dê ferramentas para os alunos aprenderem é essencial, mas eu vejo que se o desejo é não trabalhar na área acadêmica do jornalismo, é muito importante encontrar um estágio. Trabalhar com comunicação complementa o que é visto na faculdade e, claro, abre a possibilidade de testarmos em qual jornalismo queremos ficar.

O que você diria a alguém que quer prestar jornalismo?

Mariana: Eu falaria para não se intimidar pela crise no jornalismo e pela desobrigatoriedade do diploma. Ainda existe muita coisa legal acontecendo no jornalismo, principalmente fora dos veículos tradicionais; e o momento de crise também é um ótimo momento de reinvenção.

Jéssica: Trabalhar com jornalismo dá muito trabalho e, como disse um famoso âncora em uma palestra na minha faculdade, é preciso ter tesão por tudo isso. É preciso amar traduzir os fatos e colocar autoridades na parede mais do que se deseja ter uma conta bancária farta. É preciso sentir vontade até de abandonar um final de semana de descanso pra viver a experiência de uma grande cobertura. Mas antes de tudo, é preciso se encantar por histórias e descobrir em si a necessidade de humanizar o mundo. Jornalismo é trabalhar para o outro e eu me apaixono todos os dias por isso.

Victória: O que eu acho mais importante pra quem pensa em seguir a profissão é ter uma insatisfação com a realidade dada e vontade de mudar isso. Jornalismo é mais do que uma profissão. Ele consome seu tempo, sua vida e te faz olhar pro mundo de outra forma. Não importa o que você faça depois, você nunca vai deixar de ser jornalista/repórter.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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