22 de agosto de 2016 | Cinema & TV | Texto: e | Ilustração:
O Emmy e a representatividade
BLACK-ISH - Pilot Gallery  (ABC/Craig Sjodin)
MARCUS SCRIBNER, TRACEE ELLIS ROSS, MARSAI MARTIN, ANTHONY ANDERSON, MILES BROWN, LAURENCE FISHBURNE, YARA SHAHIDI

Acho que representatividade é uma pauta recorrente por aqui, não é? Gostamos muito de frisar a importância dela, e amamos mais ainda quando a vemos acontecer de fato. Nessa mesma época, no ano passado, estávamos do lado de cá torcendo pela possibilidade histórica de uma mulher negra vencer na categoria de melhor atriz em série de drama no Emmy (que, pra quem não está familiarizada, é de grande visibilidade e impacto — é como um Oscar da televisão, ou até mesmo um Grammy para o mundo da música) e isso de fato aconteceu. Viola Davis, em 20 de setembro de 2015, tornou-se a primeira atriz negra a ganhar na categoria principal. Falamos um pouco mais sobre isso neste texto:

KBELA, Shondae a voz da mulher negra

Pois bem, cá estamos há um mês da realização de mais uma cerimônia, e, ao acompanharmos a divulgação da lista de indicados de 2016, uma grata surpresa. É que, após termos assistido a uma das premiações de Oscar mais excludentes da história (#oscarsowhite), vimos que houve diversidade em TODAS as categorias principais de melhor atriz e ator. É a primeira vez, em 68 anos de Emmy, que isso ocorre com estas seis posições. Há Rami Malek concorrendo por Mr. Robot, Viola Davis mais uma vez indicada por sua incrível atuação em How To Get Away With Murder, Idris Elba por seu papel em Luther, Aziz Ansari pela incrível Master Of None, entre outros.
Além desta categoria, é muito bom ver que em outros setores da indústria criativa também cresce a representatividade. Sam Esmail, o egípcio-americano criador de Mr. Robot, está indicado para Melhor Roteiro em Série Dramática. Ah, e JAMAIS deixaríamos passar o fato de que a obra-prima de umas das principais e mais completas artistas do milênio (também conhecida como Beyoncé) ganhou indicações por sua última obra, Lemonade que, para quem não conhece #amigaseatualiza, é uma linda e poderosa mensagem feita por e para as mulheres negras.
É importante também mencionar uma grata surpresa! Na categoria relativamente nova intitulada ‘’comedia, animação, não ficção ou drama em curto formato’’, Her Story é uma web série independente cuja história, além girar em torno da vida de mulheres trans e queer, tem atrizes trans, bem como sua cocriadora. Essa web série, escrita por Jen Richards, é a primeira da cena indie a ser nomeada para um Emmy. Para ser mais precisa, trata-se de um romance com pitadas de comédia e drama, sobre três mulheres vivendo em LA. A escritora é também uma das atrizes principais, Violet, uma mulher trans que lida com sua a atração por Allie, interpretada pela cocriadora Laura Zak. Todos os episódios estão disponíveis no Youtube com legendas em português.

Comparamos lá em cima essa lista de indicados ao Oscar, premiação do cinema que foi no extremo oposto, sendo absurdamente conservadora, masculina e branca. Mesmo tendo em vista que essas premiações são apenas um recorte do que está acontecendo e se a academia quisesse teria sim outras opções com mais diversidade para indicar (linkar o texto que fizemos escolhendo filmes com mais representatividade que deveriam estar no oscar), acho justo pegarmos isso como base para ver como a televisão americana está trilhando caminhos muito mais interessantes que o cinema.
Se observarmos as comédias familiares da ABC, um canal de TV aberta americano, que tenta seguir um caminho mais moderno, conseguirmos ver uma representatividade bem interessante. Eles começaram lá atrás com Modern Family, que ainda é uma série bem tradicional e branca, porém, já com dois personagens latinos bem interessantes, uma mãe e um filho que brincavam o tempo todo com estereótipos, ao mesmo tempo que tentavam quebrá-lo. Além de ter um casal gay, que logo no primeiro episódio adota uma filha e também brinca e tenta sair de estereótipos. Contudo, ainda há muitos traços de preconceitos espalhados, enquanto o casal hétero tinha várias demonstrações de afeto e beijos, o gay era bem diferente, quase não havia beijos, o afeto era bem tímido, mas foi um começo.
Um tempo depois, Blackish foi ao ar. Uma série sensacional sobre uma família negra que vive uma boa vida na classe média americana dominada por brancos. A série com um humor muito inteligente mostra constantemente os contrastes entre brancos e negros e como os tratamentos são diferenciados em diversas esferas da vida. Além de serem negros médicos e executivos de publicidade, foge bastante daquela antiga representação de negros pobres e sofredores, ainda que a série mencione um passado mais difícil de alguns personagens.
Fresh Off The Boat foi ao ar seguindo a linha de Blackish, mas tratando de uma família asiática. Também muito inteligente, a série faz piada com frequência justamente com a falta de representatividade na TV. Em um dos melhores episódios do seriado, *****SPOILER********o pai da família ganha uma promoção e dá uma entrevista na TV e essa entrevista é motivo de nervosismo para família toda, porque ele tem que ser perfeito, visto que não há outros asiáticos na televisão, ele vai passará a única referência. Ele vai uma, duas e nunca acerta. A conclusão, brilhantemente colocada no show, é que não é possível uma pessoa representar um povo inteiro e, por isso, temos que ter cada vez mais diferentes personagens para abranger mais esse povo e, de fato, representá-lo.
Essas séries são apenas alguns exemplos, se você olhar para o mundo da TV a cabo e do streaming como o Netflix, temos séries como Orange Is The New Black, Transparent, The Fosters, UnReal, Luther, Master Of None e muitas outras. Todas essas séries apresentam um elenco variado de etnias, gêneros e orientações sexuais. Vale comentar que essas representatividades não estão lá por estar, muitas vezes fazem parte da plot e dão diferentes camadas para os personagens. Ser negro, ser mulher, ser latino, ser indiano, ser trans e ser gay faz parte dos personagens, é motriz, mas não os definem. Eles não estão presos em caixinhas e estereótipos, assim como não estamos na vida real. Saber construir esses personagens e a relação deles com a sua opressão na sociedade, como eles lidam com isso tudo, gera histórias mais ricas e complexas e ai está a verdadeira representatividade.
O mundo do cinema também está cheio de personagens diversos e bem construídos e há filmes muito mais interessantes do que estão no Oscar, como já falamos. Porém, é inegável que na TV vemos uma onda mais forte chegando. A televisão tem corrido mais riscos e está sendo o carro-chefe de uma mudança importante no mundo entretenimento. Abrir espaço para esses diferentes artistas e diferentes histórias é fundamental e vem dando resultados, o Emmy carimbar essa mudança com essa lista é só mais um acerto do mundo televisivo. Agora, a indústria cinematográfica precisa correr atrás do tempo perdido, porque o público quer conforto e se a televisão está entregando um produto de qualidade, há maior conforto do que ficar em casa? Talvez essa seja a grande sacudida que os estúdios precisam para abrir os olhos e as portas para a diversidade.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.