13 de abril de 2017 | Se Liga | Texto: e | Ilustração: Isadora Marília
Revendo Skins – Aniversário de 10 anos da série
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[Contém Spoilers]

O dia 25 de janeiro deste ano marcou os dez anos desde a primeira exibição da série britânica Skins. Foram sete temporadas ao longo de seis anos, em que acompanhávamos um grupo de amigos britânicos nos últimos dois anos do Ensino Médio. A série explora temáticas como abuso de drogas, distúrbios alimentares, sexualidade e famílias problemáticas.

Skins foi criada pelos escritores Bryan Elsley e Jamie Brittain (pai e filho, respectivamente) para a Company Pictures], e estreou na rede de TV britânica E4 em 25 de janeiro de 2007.

A série tinha um formato muito específico: a cada duas temporadas, os personagens mudavam, cada episódio era dedicado a um personagem específico e o episódio que fechava o ano era sobre todos eles. Esse grupo de personagens ficou conhecido Geração 1, 2 e 3. Por muito tempo se falou em um filme, mas o fim de Skins se deu com os episódios especiais que viraram a sétima temporada.

A série funciona porque não é moralista. Ela não finge que sexo, drogas e álcool não é parte da vida de muito adolescente, assim como a escola, o futuro e a morte. Skins também não tenta apresentar os personagens apenas como “bons” ou “maus”. Nós acompanhamos personagens reais que erram e acertam a todo momento. Porque, sim, adolescentes vivem sob os cuidados de adultos e da escola, mas a série nunca negligenciou a liberdade que temos para tomar decisões.

Skins funciona também porque é fácil se sentir e se identificar, ainda que não estejamos na Inglaterra de 2007. Porque as décadas vão passar e eu duvido que as agonias adolescentes vão mudar. Eles ainda vão continuar se sentindo inseguros sobre o jeito com que se projetam no mundo e com um futuro onde as coisas não são tão simples. O medo de não amar e serem amados. E não ter a segurança de planejar a vida segundo os semestres escolares.

Muitas séries esquecem que seus personagens têm famílias ou as usam para justificar suas atitudes. Skins sempre lembrou que os pais e os adultos podem ou são mais confusos que os adolescentes. Cada episódio dá ao espectador um pouco do que se passa na vida longe da vida pública, dos amigos e do ambiente escolar.

Descobrimos que Cassie tem uma irmã bebê e pais bem autocentrados e que parece difícil para ela se encaixar na família. Já Maxxie imagina um futuro bem diferente daquela vida classe operária que seu pai vive. Mesmo tendo pais amorosos e estabilidade, Tony e Effy passam longe de serem filhos exemplares – pelo menos aos olhos dos outros.

Não que a série tente justificar os erros cometidos pelos pais, mas lembra que eles têm seus próprios problemas e que nem todas as pessoas veem os filhos como prioridade. Os adultos passam longe de ser o foco da série, só que adolescentes normalmente têm suas vidas bem afetadas pelas decisões de seus pais ou guardiões, mesmo que parte delas sejam um completo mistério e fora de seus alcances.

Pela comemoração dos 10 anos da estreia de Skins, a Natasha e a Vicky resolveram rever a série − agora adultas e não mais adolescentes – para ver se a impressão sobre a série mudou. Vamos comentar nossa impressão de cada episódio.

Impressões de Natasha: Na primeira vez que eu vi a série, me tocou num ponto bem frágil: eu tava deixando a escola pra ir pra faculdade, onde o sistema é bem diferente da escola, e a série acaba com os personagens na mesma situação. Por mais que muita coisa não me tocasse num nível pessoal, a ideia de sair de uma situação onde tu viveu a maior parte da vida e ingressar na “vida adulta” é muito assustadora. Vendo hoje, eu ainda acho a série divertida, os personagens bem construídos, e não é uma coisa moralista.

Impressões de Vicky: Skins é uma das séries que marcou minha adolescência e que revejo sempre.  Na primeira vez que vi, eu fiquei muito atraída pelo “realismo” dos personagens. Eles falam palavrão, fazem sexo, bebem, fumam e matam aula. Esta era uma série que tratava de tudo que eu não era, pois cresci numa família religiosa que prezava pelo moralismo.

Dez anos depois da sua estreia, Skins continua sendo uma série divertida, com personagens e histórias que me tocam. Porém, acho que hoje estes personagens estão muito mais perto da minha realidade.

 

GENERATION ONE (Séries 1 e 2)

 

S01E01 – Tony

Vicky: No piloto da série, somos apresentados a um grupo de amigos e personagens principais: Cassie, Tony, Sid, Chris, Jal, Michelle, Anwar e Maxxie. Neste episódio, o foco maior é Tony, uma espécie de garoto perfeito, já que é bonito, padrão, namora a garota dos sonhos e é um excelente aluno. Ele é o líder do grupo de amigos no começo da temporada e seria o elo em comum que une os personagens. Além disso, ele quer fazer seu melhor amigo – o Sid – perder a virgindade e lucrar com a venda de drogas, mas claro que nada sai como planejado. Tony é uma mistura de garoto de ouro com babaca e, a cada episódio, minhas reações sobre ele mudam. Assistindo dessa vez, eu achei ele muito mais babaca.

Natasha: Vendo o primeiro episódio e ainda lembrando de quase toda a série eu achei demais como ele sabe sintetizar todos os personagens. Mesmo a série tentando se focar em todos os personagens sempre teve um personagem guia e nessa geração foi o Tony. E como o Tony é boy lixo.

 

S01E02 – Cassie

Vicky: Cassie é minha personagem preferida da primeira geração. Ela traz à tona a discussão sobre distúrbios alimentares e saúde mental, temas essenciais de serem discutidos na adolescência. Neste episódio, Cassie tenta fazer com que todos acreditem que está superando o distúrbio alimentar e ela se aproxima de Sid, que gosta de outra pessoa. Assim, tem início o triângulo romântico da série.

Natasha: Todo mundo ama a Cassie, mas até metade da temporada achei ela péssima. Achei a personagem irritante e forçada e demorou pra que eu conseguisse ver uma naturalidade nela. Não sei se era uma questão de se acostumar com ela ou com o passar dos episódios tanto a atriz como a personagem começam a ter uma forma melhor.

S01E03 – Jal

 

Vicky: Jal é a única personagem negra na série, por isso não tive como não me identificar com a personagem. Ela é inteligente, estudiosa e musicista. Neste episódio, Jal consegue chegar às finais do concurso de jovem música do ano e tem que lidar com a nova namorada do pai. A personagem perdeu a mãe muito nova e seu pai é um artista conceituado, dono de uma gravadora que adora trazer namoradas mais novas e brancas para casa. A relação dela com o pai é bem tumultuada.

Natasha: Apesar da Jal não ser uma personagem secundária, ela acaba sempre sendo usada em prol da Michelle ao mesmo tempo em que ela é o oposto dela. Achava ela mal aproveitada, mas na segunda temporada ela ganha mais destaque. Enquanto a Michelle é aquela guria gostosa, a Jal – menos feminina, é vista pelos garotos como aquela guria que é parte dos garotos e quando ela apresenta algum trejeito mais feminino eles ficam quase que deslumbrados em ser lembrados que ela também é uma guria.

S01E04 – Chris

 

Vicky: Chris é o meu personagem queridinho de Skins. Ele é um garoto visto pela sociedade como todo quebrado, não tem responsabilidade, usa muita droga, faz muito sexo, não liga para a escola. Mas, desde o início, Chris se mostra como um dos personagens mais amorosos e fofos da série. Ele teve que lidar sozinho com muita coisa na vida e amadurecer rápido.

É muito interessante acompanhar a jornada do personagem. Neste episódio, sua mãe desaparece e deixa uma pequena quantia em dinheiro para Chris, que tem que lidar com a possibilidade de que ela nunca retorne.

Natasha: O Chris tomando o copo de água com o peixe dentro é uma das coisas mais memoráveis da série pra mim. Ele é completamente sem noção, mas sem dúvida é um dos personagens mais amorosos da série.

 

S01E05 – Sid

 

Vicky: Sid é um dos personagens que mais demorou para crescer em mim. Eu não sou muito fã da maneira como ele é submisso ao Tony e à vida. Para mim, ele era simplesmente aqueles personagens secundários. O Sid é um personagem bem importante, porque vai formar um triângulo (que as vezes chega a ser um quadrado) amoroso na série, e vai trazer inúmeras confusões para o grupo. Neste episódio, Sid corre o risco de ser reprovado na escola e tem que lidar com sua frustração sexual.

Natasha: Eu sempre gostei muito do Sid. Nunca gostei muito de personagens populares e Sid era tudo menos isso. Mesmo que ele seja o oposto do Tony ele também não deixa de ter condutas questionáveis em alguns momentos.

 

S01E06 – Maxxine and Anwar

 

Vicky: Maxxine é o único personagem LGBT da série e Anwar é um personagem muçulmano. O que eu gosto nesses dois personagens é que por meio deles vemos o que é intolerância, dificuldade de aceitação da família e como lidar sendo um jovem pertencente a um grupo minoritário. Os dois são melhores amigos um do outro e muito engraçados.

Neste episódio, os personagens vão para a Rússia. Nele, temos uma cena de sexo entre dois homens, traição, questionamento de diferenças, amizades e muita confusão. Esse episódio é bem diferente dos outros.
Natasha: É uma pena que eles tiveram que dividir os episódios, porque eles são personagens ótimos. Existem bastante árabes na Inglaterra, então faz todo sentido ter um personagem muçulmano na série e o Anwar em alguns momentos lida com a religião em conflito com as vontades adolescentes. A série aborda a sexualidade do Maxxie de uma maneira super legal. O fato dele ser gay é um ponto do personagem e não todo o personagem.

 

S01E07 – Michelle

 

Vicky: Michelle é uma garota que se importa muito com a aparência. Ela faz tudo pelo seu namorado Tony, até que, no último episódio, descobre como ele realmente é e tem que decidir se continua ou não com o garoto. Neste episódio, ela conhece uma outra pessoa e tenta um outro relacionamento. Porém Tony é um namorado possessivo e que faz de tudo para estragar esse novo envolvimento de Michelle e voltar com ela. A partir deste episódio, comecei a pegar birra do Tony e entender melhor a Michelle.

Natasha: A Michelle é aquele caso de mulher que infelizmente precisa de um cara pra se sentir completa e ter aprovação. Ela é super autocentrada e isso às vezes me incomodava. Ou ela deixava os amigos pelo Tony ou porque ela não sabia olhar além do próprio umbigo.

 

S01E08 – Effy

 

Vicky: Effy é uma das personagens mais marcantes de Skins. Geralmente, você gosta ou odeia essa personagem e tenho que confessar que ainda não sei o que achar dela. A Effy é uma personagem muito quieta e calada e, aos poucos, vamos descobrindo os motivos para isso. Porém, ao mesmo tempo, ela é muito festeira e inconsequente. Neste episódio, Effy foge de casa e, desesperado, Tony tenta encontrá-la.

 

Natasha: Eu odeio a Effy.

 

S01E09 – Everyone

 

Vicky: O último episódio da primeira temporada é muito pesado. Eu revi ele poucas vezes (e olha que já vi Skins umas seis vezes). Nele, aparece todos os personagens e temos o desfecho para algumas tramas, enquanto outras vão deixar abertas para continuar na segunda temporada.

Não quero contar muito para não estragar para ninguém, mas teremos muito confronto, romance e partes tristes neste episódio. Aliás, o final dele me deixa até hoje angustiada e, ao mesmo tempo, ansiosa para ver a segunda temporada.

Natasha: Eu tava muito ansiosa pra rever esse episódio e quando eu descobri que a temporada tinha mais episódios que eu me lembrava eu fiquei chateada que nunca chegava esse. A última sequência é icônica e o episódio cheio de altos e baixos para os personagen
Se você se interessou e quer assistir a série, todas as temporadas estão disponíveis na Netflix.

Vicky Régia
  • Conselho Editorial
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Vitória Régia tem 21 anos, estuda jornalismo e acredita no poder da comunicação para mudança social. É nordestina de nascimento, paulista de criação e carioca por opção. Adora conhecer diferentes culturas e é apaixonada pela arte de contar histórias. Dedica a vida a militância nos movimentos feminista, negro e LGBT e acorda todos os dias pensando em como mudar o mundo.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
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  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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