28 de abril de 2017 | Saúde | Texto: and | Ilustração: Natália Schiavon
Febre Amarela: e agora?

Ultimamente, a gente tem ouvido falar muito sobre o surto de febre amarela no país e as filas nos postos de vacinação, não é? Mas o que realmente é verdade? Todos devem tomar a vacina? E quais os riscos?

A febre amarela é uma doença causada por um vírus. No Brasil, existem locais chamados de áreas de risco, onde o vírus, seus vetores (mosquitos) e hospedeiros existem naturalmente, como áreas de Minas Gerais e das regiões Norte e Centro-Oeste. Nesses locais, a vacinação é indicada para os moradores e visitantes de forma permanente e está disponível nas unidades de saúde durante todo o ano.

Em outubro de 2016, quatro micos e um macaco-prego foram encontrados mortos no município do Rio de Janeiro. Logo em seguida se espalhou a notícia de que a febre amarela tinha causado a morte dos animais, o que gerou muito medo na população local. Mas análises da Fiocruz demonstraram que os macacos não estavam infectados pela doença.

Febre amarela urbana ou rural?

É importante lembrar que quando falamos em febre amarela, precisamos distinguir entre urbana e rural. Mas qual a diferença entre elas? A doença é a mesma, o que muda é o vetor. Nas áreas silvestres, a febre amarela é transmitida principalmente pelo mosquito Haemagogus, enquanto que, nas cidades, o vírus seria carregado pelo Aedes aegypti, aquele já velho conhecido por espalhar dengue, zika e chikungunya por aí.

O Aedes está presente em 3600 municípios brasileiros, então existe a possibilidade de transmissão urbana da doença. Entretanto, não há registro de casos urbanos no país desde 1942 e os especialistas consideram muito pequena a chance de que a doença se espalhe para os grandes centros urbanos nesse momento. O que normalmente acontece é a febre amarela ser diagnosticada em uma zona urbana, mas ter sido adquirida em uma área de transmissão silvestre.

A vacina é eficaz?

A vacina contra a febre amarela foi criada há mais de 60 anos e é considerada bastante eficaz e segura. No Brasil, a grande maioria das doses que tomamos nos postos de saúde é produzida aqui mesmo (desde 1937!), no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos, uma unidade da Fundação Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro.

Atualmente, 3.529 municípios do país são considerados áreas de vacinação permanente, ou seja, toda a população desses lugares deve ser vacinada. Em algumas áreas, como no Rio de Janeiro e outros municípios, a vacinação está sendo feita como uma medida preventiva e não há razão para pânico como muitas vezes vemos na TV.

Às vezes a vacina causa alguns efeitos colaterais, mas eles costumam ser leves. Isso quer dizer que dificilmente alguém vai ficar muito doente depois de tomá-la. Podem surgir febre e mal-estar, mas esses sintomas passam rápido e não levam a consequências mais graves.

Colocando na balança, o risco compensa a proteção que a vacina oferece. Mas caso surjam sintomas como pele e olhos amarelados, urina escura ou febre mantida depois da vacina, deve-se procurar um médico o quanto antes! Lembrando que menores de 9 meses de idade, pessoas com mais de 60 anos, gestantes, mulheres amamentando e pessoas com doenças que diminuem a imunidade não devem ser vacinadas sem uma avaliação médica antes.

Como prevenir a febre amarela?

Além da vacinação, não podemos esquecer de outras medidas importantes para evitar a transmissão não só da febre amarela como também de outras doenças, como a zika e a chikungunya que falamos ali em cima. Uma das principais é impedir a proliferação dos mosquitos que podem transmiti-las. Para isso, devemos evitar qualquer tipo de água limpa e parada, como a que fica em latas e pneus depois de chuvas, onde as fêmeas põem ovos.

Em muitas cidades, o fumacê também ajuda a eliminar os ovos. E mesmo que você não more em área de risco permanente para febre amarela, é super importante usar repelente todos os dias! Afinal, hoje em dia o que não faltam são doenças transmitidas por mosquitos, não é?

A vacina é um passo fundamental para a erradicação da febre amarela, junto com todas as outras medidas que a gente citou. As vantagens da vacinação superam em muito os riscos, desde que orientada sempre por um médico. Em alguns locais, os casos relatados levaram à recomendação de vacinação preventiva, que está sendo feita nos postos de saúde. Mas não precisa ficar apavorada: tem vacina para todo mundo e as informações sobre possíveis casos novos estão sendo coletadas e analisadas pelos órgãos de saúde.

Na dúvida, não tenha vergonha de sempre conversar com um profissional!

ATUALIZAÇÃO (19/01/18)

É muito importante a gente dizer que quem tomou a vacina no ano passado (ou em qualquer momento anterior da vida) NÃO PRECISA TOMAR NOVAMENTE. Os estudos mais recentes mostraram que essa imunidade oferecida pela dose única da vacina é definitiva, sendo desnecessária a dose de reforço.

A partir de fevereiro também começaram a ser oferecidas vacinas em doses fracionadas: ela tem só 1/5 do volume da vacina integral. A vantagem da fracionada é que ela oferece menos riscos de efeitos adversos e por isso seria mais indicada para as populações que não devem tomar a integral (como crianças pequenas e idosos). A princípio quem tomar a fracionada necessitará repetir a vacina depois de 8 anos – isso porque os estudos até agora garantiram imunidade por esse período, mas como ainda estão em andamento, pode ser que a orientação mude e se descubra que a dose fracionada oferece imunidade permanente!

Mas e a história do macaco? O macaco é o hospedeiro do vírus da febre amarela silvestre habitualmente. Por isso eles são bons indicadores de quando a doença está próxima. Mas eles não transmitem a doença e nem têm culpa nenhuma no atual surto! Inclusive muitas notícias sensacionalistas que estão circulando sobre macacos mortos por febre amarela são na verdade de macacos envenenados por pessoas ignorantes. Então deixem os macacos em paz.

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

Ana Carolina Souza
  • Colaboradora de Ciências e Tecnomania
  • Colaboradora de Saúde

Ana Carolina tem 25 anos e é médica formada pela UFRJ. Atualmente faz doutorado na mesma universidade na área de Cardiologia. Ama tudo (tudo mesmo!) relacionado à ciência e sonha em se dedicar e incentivar a pesquisa no país.

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