20 de agosto de 2017 | Se Liga | Texto: | Ilustração: Crédito: Montagem Capitolina
Nada de muito novo com as mulheres em ‘Homem-Aranha: De volta ao lar’

Mais um recomeço para o Homem-Aranha. Em menos de 15 anos, vimos o Amigo da Vizinhança ser interpretado por três atores: Tobey Maguire (na trilogia de Sam Raimi, com filmes lançados em 2002, 2004 e 2007), Andrew Garfield (em “O espetacular Homem-Aranha”, de 2012, e “O espetacular Homem-Aranha: A ameaça de Electro, de 2014) e, finalmente, Tom Holland (responsável por vestir o uniforme azul e vermelho em “Homem-Aranha: De volta ao lar”, lançado este ano). Se a maneira como conhecemos o Aranha em cada um dos filmes é diferente, há uma coisa que não muda nas histórias: a representação das mulheres.

 

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Sim, é 2017 e continuamos nesta tendência de que personagens femininas em filmes de super-heróis estão ali apenas para gravitar em torno do protagonista, sem precisar de uma história para chamar de sua. Não que isso seja novidade (é só lembrar aí como Natalie Portman foi pouco aproveitada em “Thor” como Jane Frost, para citar só um exemplo). Mas é um pouco pior ver isso na telona ao lembrar que foi justamente este o ano do lançamento de “Mulher-Maravilha”, quando caiu por terra (de vez, esperamos!) que mulher não rende como protagonista de filme de ação.
Vem com a gente, porque vamos falar sobre as três mulheres da vida do novo Peter Parker para mostrar por A + B do que estamos falando.

Tia May

Marisa Tomei poderia ter tido mais destaque como Tia May, em “Homem-Aranha: De volta ao lar” (Crédito: Divulgação)

Marisa Tomei poderia ter tido mais destaque como Tia May, em “Homem-Aranha: De volta ao lar” (Crédito: Divulgação)

A primeira vez que Marisa Tomei apareceu na telona como a tia de Peter foi numa breve participação em “Capitão América: Guerra Civil”, e Tony Stark (Robert Downey Jr.) falando sobre a beleza dela foi o prenúncio do que assistiríamos em “Homem-Aranha: De volta ao lar”. May desperta o interesse do dono da lanchonete preferida do sobrinho, do amigo dele, Ned (Jacob Batalon), e de um garçom, que até dá a ela e a Peter uma sobremesa por ter ficado encantado. Mas o que ela faz quando não está em casa? Qual é a profissão dela? O que ela faz além de se preocupar por Peter chegar em casa tarde? É, não temos respostas para essas perguntas porque o roteiro se limitou a mostrá-la como a tia preocupada do Homem-Aranha. E só isso.

May Parker pode e deve ser mais do que a tia de Peter, galera do roteiro (Crédito: Divulgação)

May Parker pode e deve ser mais do que a tia de Peter, galera do roteiro (Crédito: Divulgação)

Olha que poderíamos ter visto algo diferente. A própria Marisa Tomei disse que ficou desapontada por uma cena de ação de sua personagem ter sido cortada. “Havia algo acontecendo no bairro e uma menina estava em apuros. Eu a salvo e Peter me vê fazer isso. Nessa cena, você meio que pode ver que parte da ética dele veio da tia. Então May volta para casa e nenhum dos dois conta para o outro o que aconteceu. […] Era uma cena muito interessante porque eles estão juntos compartilhando um segredo sem saber que estão”, contou a vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Meu primo Vinny” em entrevista ao “Huffington Post”. Verdade seja dita? A gente te entende, Marisa, e queríamos ver mais da tia May mesmo, sobre a história dela. Fica a dica para o próximo filme, galera da Sony e da Marvel!

Liz Allan

Laura Harrier como Liz Allan em “Homem-Aranha: De volta ao lar” (Crédito: Divulgação)

Laura Harrier como Liz Allan em “Homem-Aranha: De volta ao lar” (Crédito: Divulgação)

 

A escalação de Laura Harrier foi muito bem-vinda, mostrando que a nova empreitada do Homem-Aranha terá mais representatividade (a Liz Allan dos quadrinhos é descrita como uma “Marilyn Monroe adolescente). Duas das três personagens femininas que mais aparecem no longa são interpretadas por atrizes negras: Laura e Zendaya, de quem falaremos em seguida. Acerto na hora da escolha do elenco, erro rude na hora de escrever a história da personagem. Mais uma vez, a menina dos sonhos é retratada de uma maneira rasa. A função narrativa da personagem parece ser criar conflitos na vida do nosso protagonista, que, sim, é o cara dos sonhos dela, mas ela não sabe. Afinal, Liz suspira pelo cara da máscara. Sabemos que Liz está no clube de matemática da escola. Ah, e que tem uma família: mas isso só é mostrado num momento em que serve também para a história do protagonista. Ficou a sensação de que dava para ser mais do que a namorada do cara.

Liz Allen podia ter mais história em “Homem-Aranha: De volta ao lar” do que só ser o interesse amoroso de Peter Parker (Crédito: Divulgação)

Liz Allen podia ter mais história em “Homem-Aranha: De volta ao lar” do que só ser o interesse amoroso de Peter Parker (Crédito: Divulgação)

 

Michelle (ou pode chamar de MJ)

Zendaya em cena de “Homem-Aranha: De volta ao lar” como Michelle (Crédito: Divulgação)

Zendaya em cena de “Homem-Aranha: De volta ao lar” como Michelle (Crédito: Divulgação)

A escalação de Zendaya gerou polêmica. Assumindo que ela seria Mary Jane Watson, alguns fãs se revoltaram porque, nos quadrinhos, a personagem é branca e isso não deveria ser mudado. Barulho à toa por dois motivos: 1) seria ótimo ver uma mulher negra como uma das personagens mais famosas dos arcos de Homem-Aranha e 2) esse não é o caso de mudar a personagem porque essa MJ NÃO É Mary Jane. Como já dissemos, queríamos mais é que Zendaya fosse mesmo a Mary Jane.

 

Agora, voltando à história… Só sabemos o nome dela no final. Até lá, ela só é a amiga diferente de Peter e Ned (mais uma manic pixie dream girl?). Na aparência, é o contraponto de Liz: cabelo desarrumado, com um ar que oscila entre o nervoso e o “tô nem aí pra tudo isso aqui”, e roupas escuras – o estereótipo da menina nerd da escola, mas que sabemos que vai ter um salto no enredo (como nos é indicado no final). Enquanto o segundo filme não vem, ficamos só desapontadas mesmo com o pouco que vimos da personagem de Zendaya até aqui. Outra coisa: Liz e MJ não interagem no filme. “Ah, mas elas nem se cruzam, né!?”, você pode pensar. Então, não, gente. Elas estudam na mesma escola. Elas participam do mesmo clube de matemática. Ou seja, têm interesses em comum, mas não pareceu interessante mostrar que as duas tinham qualquer tipo de relação. Isso, para a gente, empobrece o roteiro, além de nos dar a certeza de que dava para ser diferente. Se formos olhar por outro lado, parece que duas minas não podem coexistir na vida de Peter, já que MJ só nos conta seu nome e ganha mais peso ali quando Liz já está fora de cena. Uma pena! Dá aquela impressão (talvez possamos usar certeza aqui) de que as garotas estão ali só para serem o interesse romântico do protagonista

Michelle e Homem-Aranha: personagem só cresceu quando Liz Allan saiu de cena (Crédito: Reprodução)

Michelle e Homem-Aranha: personagem só cresceu quando Liz Allan saiu de cena (Crédito: Reprodução)

 

Roteiristas: nós, mulheres, somos muito mais do que namoradas, ou crush, ou tias dos protagonistas da história. Temos nossas próprias histórias e podemos ser mais do que escada para um herói. Podemos existir no mesmo enredo, interagir entre nós. Difícil de acreditar que num filme tão longo (são duas horas e 13 minutos, minha gente) não tivesse como mostrar mais e dar mais peso às mulheres que ali estavam! A nova empreitada do Homem-Aranha tem muitos pontos altos, com um herói carismático (Tom Holland não decepciona) e um ótimo vilão (o Abutre, vivido por Michael Keaton), dois personagens muito bem construídos. Que tal dar mais atenção também às personagens femininas?

Aline Bonatto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Oie! Eu nasci há alguns anos atrás (num dia de abril, em 1988), morei até os 19 anos em Colatina, um lugar quente no Norte do Espírito Santo, e vim para Niterói estudar Jornalismo. Saí da faculdade, mas não de Niterói e trabalho no Rio como repórter de TV. Gosto de escrever, ler, cozinhar, especialmente se eu não for comer sozinha, adoro ficar largada no sofá assistindo a séries/filmes/novelas acompanhada do namorado ou de amigos ou com todo mundo junto. Ah, e com um brigadeiro na colher!

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