2 de setembro de 2017 | Ano 4, Saúde | Texto: | Ilustração: Juliana Adlyn
O que faz um Médico de Família?
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Desde criança eu sempre tive gostos muito diversos. Adorava biologia, mas também era apaixonada pelas artes e pela literatura. Sempre tive um pezinho nas ciências humanas, mas na hora de escolher a carreira, acabei me voltando para a saúde e escolhendo medicina.

No início tinha uma ideia bem romântica da profissão. Dizia que queria ser cirurgiã e me imaginava atendendo várias emergências e salvando vidas todos os dias, como os médicos de “Grey’s Anatomy” e “ER – Plantão Médico”.

Logo que entrei na faculdade todos avisaram que seria difícil, que as matérias básicas eram insuportáveis e tinham muito pouco a ver com a profissão em si. Diziam que quando começasse a frequentar o hospital as coisas melhorariam.

Só que não melhoraram. Eu detestava o ambiente das enfermarias. Odiava o centro cirúrgico. Ficava morta de tédio nas discussões de casos raros em que muitos médicos pareciam mais interessados em “fazer ciência”, pedindo exames caros e mostrando para os colegas quantos artigos e rodapés de livros tinham lido (vocês não têm ideia do que é a batalha de egos dentro de um hospital universitário), do que em pensar no que seria melhor de fato para o bem-estar do doente.

 

Pode ser que nem todas as faculdades sejam assim – aqui só posso falar da minha experiência. Minha faculdade é uma das mais antigas e tradicionais do país e a formação sempre foi muito voltada para o modelo hospitalocêntrico, ou seja, aquele em que se acredita que o melhor tratamento para o paciente é ir para um grande hospital, fazer muitos exames e se tratar com vários remédios.

Então, obviamente, tive várias crises ao longo do curso. Pensei diversas vezes que aquilo não tinha nada a ver comigo, que eu devia largar e fazer algo mais “humano”. Durante uma das piores crises, logo que comecei o internato (os últimos semestres da faculdade, em que a gente roda por todas as grandes áreas da medicina), acabei me encontrando acidentalmente.

A primeira rodada do meu internato foi na Saúde da Família. Admito que fui com alguma má vontade, achando que seria tudo um saco. Puro preconceito meu. Depois de umas duas semanas rodando numa Unidade Básica de Saúde (UBS) e acompanhando o trabalho de uma médica de família, eu me apaixonei.

Fiquei encantada com aquela forma de praticar a medicina, que mantinha sempre o foco na pessoa e não na doença. E me impressionei com o quanto a gente podia fazer pela população sem gastar muitos recursos. Adorei ver uma equipe de saúde em ação: médica, enfermeira, técnica e Agentes Comunitários de Saúde, todos trabalhando juntos e se complementando. Aprendi que cuidar bem do paciente não é só passar um bocado de exames e medicamentos, mas, sim, ouvir o que a pessoa tem a dizer, conhecer a sua realidade. Entendi que o conceito de saúde não é simplesmente a ausência de doença, mas sim um estado de equilíbrio em todos os âmbitos da vida.

Quando a gente termina os seis anos da faculdade de medicina, em geral, escolhe uma área para se especializar, e fazemos a chamada prova de residência. Neurologia, Cardiologia, Cirurgia Plástica… são todas especialidades médicas, assim como a Medicina de Família e Comunidade (MFC). E foi essa a especialidade que no fim eu escolhi.

Estou no meu primeiro ano de residência em MFC e não me arrependo um segundo sequer da escolha. A MFC resgatou o encantamento que eu tinha lá atrás com a medicina e me tirou da crise existencial.

“Tá, mas o que que faz afinal um médico de família?”, você deve estar se perguntando. Pois essa é uma dúvida muito comum. A maioria das pessoas – mesmo no meio médico – sabe muito pouco sobre a especialidade, ou tem uma visão bem preconceituosa em relação a ela.

O médico de família faz exatamente o que o nome sugere: cuida das pessoas e das suas famílias, dentro do seu contexto e das suas complexidades. Isso significa saber onde o paciente mora; conhecer a casa, a família e os vizinhos; entender os problemas locais e como eles afetam a saúde dos que lá vivem. Para isso, o médico faz visitas domiciliares e conta muito com a ajuda dos agentes comunitários de saúde, que são profissionais que fazem uma ponte entre a equipe de saúde e a comunidade.

O médico de família trata pacientes com doenças crônicas como pressão alta e diabetes, faz o pré-natal das gestantes, acompanha o desenvolvimento das crianças desde que nascem, cuida dos idosos, colhe preventivos, faz pequenos procedimentos como retirada de unhas encravadas e inserção de DIU, etc. Quando o paciente tem algo mais específico, como uma doença neurológica por exemplo, o médico de família encaminha para o especialista (neste caso que citei, o neurologista). Às vezes, uma mesma pessoa tem vários problemas de saúde e se trata com vários médicos especialistas – mas quem conhece todos os problemas e faz a coordenação desse cuidado é o médico de família.

Cada UBS tem várias equipes de saúde que trabalham em um território específico, contando com uma população que permanece mais ou menos a mesma, o que permite que os profissionais conheçam bem seus pacientes e sua área de atuação. Em média, são cerca de 4 mil pessoas cadastradas por equipe, mas isso varia de acordo com a área.

As UBS e Clínicas da Família compõem o que a gente chama de “Atenção Básica” ou “Atenção Primária”, que seria a linha de frente da saúde e a porta de entrada dos usuários no nosso sistema de saúde, o SUS (diferentemente de hospitais de grande complexidade, por exemplo, pra onde vão apenas os pacientes encaminhados).

Nos países em desenvolvimento como o Brasil, é essencial o fortalecimento da Atenção Básica para que a população tenha um melhor atendimento em saúde. Por isso, a MFC é uma especialidade não apenas linda, mas MUITO importante.

Obs 1: Espero que esse textinho tenha ajudado você a entender melhor o trabalho de um médico de família. Mas se ficou alguma dúvida, pode mandar pra gente por email, nas redes sociais ou nos comentários aí embaixo mesmo que vou adorar responder!

Obs 2: Foi aprovada esta semana uma revisão da Política Nacional de Atenção Básica que prevê uma série de medidas absurdas que ameaçam os avanços que tivemos nos últimos anos na atenção primária no país. Uma das principais delas coloca em risco diretamente a presença na atenção básica dos Agentes Comunitários de Saúde, profissionais ESSENCIAIS para o funcionamento da Estratégia de Saúde da Família. Por isso, não basta reivindicarmos mais direitos, precisamos constantemente lutar para manter aqueles já conquistados!

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

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