29 de outubro de 2017 | Ano 4, Colunas, Educação | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Enem: uma passagem para extrapolar fronteiras
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Seja por causa dos memes ou de algum professor, se você está no ensino médio, com certeza já deve ter ouvido falar sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Mesmo sendo uma ferramenta de ingresso no ensino superior amplamente divulgada, muitas pessoas não entendem todas as funções que a nota do exame tem. A prova é muito mais do que a chance de você conseguir o sonhado diploma: ela pode ser uma ponte para diversas oportunidades profissionais e pessoais, acredite!

Eu, particularmente, já realizei o exame duas vezes. Este ano irei para minha terceira tentativa. Depois de me graduar em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) utilizando o Enem, eu gostaria de usar a nota em alguma instituição fora do Brasil, seja pela graduação ou pela possibilidade de fazer um mestrado sanduíche (quando ele é cursado parte lá fora e a outra parte aqui no Brasil). Em Portugal, 22 instituições já usam a nota do Enem como forma de seleção. Estudar em uma universidade portuguesa pode ser a oportunidade necessária para alavancar uma carreira internacional, uma porta de entrada para outras universidades europeias e até americanas. Além disso, a pesquisa fora do Brasil é mais valorizada, sendo uma real possibilidade para se estabelecer na vida.

Atualmente, 1.434 instituições usam a nota do exame. Aqui no Brasil, algumas utilizam como a primeira fase de seleção ou uma composição da nota. Já a maioria das universidades federais adota apenas o resultado do exame como forma de processo seletivo, que é feito pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), onde todas as vagas e pontuação mínima para a entrada nos cursos ficam disponíveis.

Muitos estudantes que moram em alguma periferia do Brasil utilizam o Sisu, seja com o sistema de cotas ou não, para garantir uma vaga no ensino superior. E para se manter? As universidades públicas, mesmo sendo gratuitas, apresentam um alto custo para os alunos, seja com xerox, transporte, alimentação ou alguma atividade. Mesmo com o desmonte das instituições, algumas ainda apresentam programas de permanência para os alunos como uma forma de se manter.

Lembra que lá em cima falei que o Enem pode ser a ponte tanto para oportunidades profissionais quanto pessoais? Como o Sisu inclui vagas de universidades de todas as partes do país, ficou mais fácil aplicar para instituições longe de casa sem ter que pagar para fazer a prova em outro lugar. Foi assim com Jhonathan Cancissu de Sousa, de 21 anos. “Tentei passar para São Paulo, pois era difícil a ideia de deixar o lugar e o estado onde nasci. Na terceira tentativa consecutiva passei na Universidade Federal de Goiás (UFG). Foi uma mistura de sentimentos: alegria, alívio, realização e medo. Teria que deixar o conforto do lar, família e amigos. Nunca tinha ido a Goiás antes, não tinha parentes e nem conhecidos lá. Mas o apoio da família e, principalmente, minha determinação foram cruciais para encarar tudo”, afirma o estudante de Biomedicina.

Há também quem já planeje sair de casa para cursar a faculdade. Esse foi o caso o baiano João Victor Cardoso, de 25 anos. Morador de Ilhéus, ele queria mudar de ares para fazer faculdade. Com o Enem, viu a chance de colocar o plano em movimento: tentou uma vaga na unidade de Osasco da Unifesp, conseguiu e não pensou duas vezes na hora de ir. “Meus pais sempre foram muito protetores e gostam que os filhos sempre fiquem por perto. No entanto, bati o pé. Disse que ficaria de qualquer jeito [ele já estava passeando em São Paulo quando recebeu a notícia]. Depois de muito drama, eles foram se acostumando”, conta o jovem, que se formou em Relações Internacionais.

Fazer uma mudança grande como essa pode nos encher de boas expectativas. Quando pensamos em morar fora de casa, idealizamos que vamos ter uma vida sem regras, sem horários, livres para fazermos só o que quisermos… Mas a realidade é bem diferente, o que é maravilhoso. “A experiência de sair de casa foi incrível. Me sentia sufocado em casa, brigava muito com meu irmão e precisava de liberdade para me conhecer melhor. A saudade bate em datas especiais e a liberdade tem seu preço, pois não tem mamãe para fazer comida em casa, muito menos roupa lavada e passada. Adquirimos responsabilidade”, avalia João Victor.

 

Dá para fazer mais com a nota do Enem

O acesso às universidades federais é o uso mais comum para a nota do Enem. Mas não se enganem porque o resultado do exame também pode servir de outras maneiras.

Prouni: para concorrer a uma das bolsas do Programa Universidade para Todos (Prouni), é preciso ter passado pelo Enem (a partir da edição de 2010 e obtido, em uma mesma edição, média das notas nas provas igual ou superior a 450 pontos e nota superior a zero na redação). Há outras condições para concorrer às bolsas, como renda familiar, e você pode conferir tudo no site do Prouni.

Fies: o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) é o programa do Ministério da Educação que financia cursos superiores com avaliação positiva no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Para participar do programa, também é necessário ter prestado o Enem.

Estudar fora: alguns jovens (e adultos) decidem usar para sair do país. Como já disse, em Portugal, 22 universidades já utilizam o exame para inscrição de alunos brasileiros.

E já tem gente que faz o Enem já de olho em cruzar o Atlântico. Foi assim com a paulistana Júlia Miranda, de 19 anos, que estuda na Universidade de Coimbra: “Eu escolhi morar fora do Brasil, pois sempre foi meu sonho sair do país e explorar o mundo e novas culturas. Sem dizer que na minha área, cinema, o mercado internacional me interessa mais. Eu me inscrevi para o Enem sabendo que queria vir para Coimbra, e aqui estou cursando Estudos Artísticos, que é uma base teórica para teatro, música e cinema”.

E como faz para driblar a saudade que insiste em aparecer? A alternativa são aplicativos que permitem a chamada de vídeo pela internet. “Nem parece que eu estou tão longe assim”, conta Júlia, que achou fácil o processo de adaptação em outro país: “A língua é a mesma, salve algumas diferenças e o sotaque, a comida não difere muito. O que atrapalha é a falta de vontade dos estudantes portugueses de nos receber. Tirando isso, a adaptação foi bem tranquila, sem dizer que tem tanto brasileiro aqui que me sinto em casa”.

E aí, se inspirou? Então nos conte qual é o seu plano e para onde sua ponte irá te levar!

Naomi Faustino
  • Colaboradora de Relacionamento e Sexo
  • Colaboradora de Sociedade
  • Redes Sociais

Meu nome é Naomi Faustino, tenho 21 primaveras e sou (quase) formada em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de São Paulo. Meu foco de pesquisa é macroeconomia e desenvolvimento econômico, contudo, meu maior xodó é entender o desenvolvimento da África do Sul e tudo que tenha a ver com o mundo não-ocidental. Sou fundadora do coletivo negro da Unifesp Osasco, o Eppen Preta; fui Mulher Inspiradora de 2015 do Think Olga, e; Top Web Negra pelo Blogueiras Negras, quando participava do Preta e Acadêmica. Tive um blog chamado The Black Cupcake focado em comportamento e estética, mas hoje só fico no meu instablog postando comidas saudáveis e minha mudança de vida. Adoro ler, ver séries e filmes com protagonistas fora do padrão, pois é preciso ver um mundo além daquilo que nós é forçado a ver sempre.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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