6 de dezembro de 2017 | Sociedade | Texto: | Ilustração: Juliana Adlyn
Prisioneiras
prisioneiras

Menos afortunadas são as que não têm família por perto, condição que as obriga a ver as crianças espalhadas em casas alheias ou recolhidas em abrigos sob a responsabilidade do Conselho Tutelar. As que têm filhos mais velhos e a felicidade de morar em casa própria muitas vezes preferem que eles vivam sozinhos porém juntos, condição na qual adolescentes de treze, quinze anos se tornam chefes de família.

O que a sociedade ganha trancando essas mulheres por anos consecutivos? O que representa, no volume geral do tráfico, a quantidade de droga que cabe na vagina de uma mulher? Que futuro terão crianças criadas com mãe e pai na cadeia? Quantas terão o mesmo destino?

Prisioneiras, Companhia das Letras, Pag. 209

Sem dúvida, Drauzio Varella é um dos profissionais da saúde mais conhecidos no nosso país. São anos de profissão, de participações em programas de televisão e como médico voluntário de instituições penais, entre outras coisas. Só a página do Facebook dele tem quase três milhões e meios de curtidas.

 

Ele também é escritor de diversos livros, entre eles a trilogia sobre o sistema carcerário brasileiro. Estação Carandiru, o primeiro, foi lançado em 1999, seguido por Carcereiros de 2012 e o último volume lançado esse ano: Prisioneiras. O médico começou seu trabalho voluntário em 1989, no Carandiru – presídio localizado em São Paulo e conhecido pelo massacre de 111 detentos numa rebelião em 1992. Em 2006 começou a atender as prisioneiras da Penitenciária do Estado, e são dessas consultas as histórias que viraram parte do livro.

 

A obra é dividida em pequenos capítulos onde ele relata a história das mulheres que atendeu. Os capítulos curtos facilitam a leitura nem sempre leve dos relatos, e Drauzio Varella sabe criar uma narrativa onde nos ajuda a construir todo um imaginário da Penitenciária do Estado e daqueles que passam por lá. Entre as histórias, ele vai nos mostrando como funciona o sistema prisional, a rotina, as dinâmicas criadas pelas facções, o sistema judiciário e as diferenças de estar num presídio masculino e feminino. Varella não deixa de lado a oportunidade de criticar o sistema prisional no país, a descriminalização das drogas, ações que falham na melhoria da segurança pública e o descaso do governo com políticas públicas que poderiam tentar tirar os jovens do caminho do crime.

 

Muitas das histórias que ele relata tem pontos parecidos: pobreza, falta de estrutura familiar e falta de oportunidades. Há aquelas que influenciadas pelos maridos ou namorados entraram no mundo do crime e também mulheres que não viram outra maneira de sustentar família.

 

Alice sustentava o pai e as irmãs, tinha um bom trabalho e queria mudar a família para uma região melhor, mas depois que a irmã, que tinha trejeitos masculinizados, foi estuprada por um pedreiro, ela só foi ter sossego depois de vê-lo pagar pelo mal que havia causado. Foram um total de cinco estupradores que Alice matou até ser presa.

 

São comuns as histórias de abusos, como a de Maria José que aos dez anos foi morar com o avô. Toda noite ele lhe dava um comprimido, que dizia ser vitamina. Com o passar dos dias, o efeito era mais fraco e ela suspeitava que o avô “esfregava o sexo dele nela”. Até que um dia colocou o comprimido embaixo da língua e cuspiu fora. Quando sentiu o avô na cama, surpreendeu-o e depois desse dia ele nunca mais a tocou, até que poucos meses depois morreu de infarto. No meio do velório, fugiu com o dinheiro que havia roubado do avô e foi parar na casa de uma amiga. Ficava trancada dentro de casa fumando crack, vendo televisão e fazendo os afazeres domésticos. A amiga a convidou para ir visitar um traficante, na ingenuidade foi e descobriu que havia sido vendida a ele. Aos treze anos e grávida, com seis meses de gestação se tornou viúva. Voltou ao convívio familiar, mas depois do nascimento do filho voltou a usar crack. Saiu de casa novamente, mas o relacionamento com um homem dez anos mais velho só lhe rendeu dívidas com traficantes e então começou a agir junto com uma quadrilha. O dinheiro melhorou a vida da família, mas aos 23 anos já fazia parte do sistema prisional.

 

Uma das diferenças entre os presídios femininos e os masculinos que Drauzio Varella aponta no livro é a quantidade de visitas. Os homens ao serem presos tem o apoio das companheiras e dos familiares que fazem filas enormes nos dias das visitas. Pegamos de exemplo as histórias das companheiras que arriscaram a vida ao entrar nos presídios com itens proibidos. Celulares nos chinelos, drogas nas vaginas e recados em códigos. Já as mulheres não perdem apenas a liberdade ao serem presas, mas uma rede de apoio. Os relacionamentos terminam e as famílias parecem sentir muito mais vergonha de um mulher presa do que um homem preso.

 

Por conta disso, muitas mulheres que não são sexualmente atraídas por outras mulheres acabam tendo relacionamentos homossexuais com outras detentas: numa tentativa de criar laços e sobreviver ao abandono de quem vive do lado de fora. As que se relacionam com outras detentas são divididas em castas como, por exemplo, sapatões originais, mulheres que nunca haviam tido nenhum tipo de relacionamento com homens. Já as sapatões “sacola” são mulheres heteroxesuais que dentro da prisão tomam trejeitos masculinizados como um maneira de sobrevivência. Algumas chegam a descobrir sentir atração por mulheres dentro da cadeia, mas outras voltam a se relacionar apenas com homens como faziam antes de serem presas.

 

É praticamente impossível escrever sobre o dia a dia do sistema prisional sem falar nas facções que os controlam como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho. Proibidas de fazer justiça com as próprias mãos, algumas prisioneiras, conhecidas como irmãs, são responsáveis de manter a ordem umas com as outras e de acatar as decisões vindas dos superiores. Falamos o tempo todo em segurança pública e crimes.

 

Queremos um país mais seguro para todas as pessoas, mas isso parece cada vez mais uma utopia. Ou então nos agarramos a ideias superficiais, com alto poder midiático, mas que não resolvem nenhum pouco o problema e apenas tapam o sol com uma peneira. Prisioneiras e os outros dois livros da trilogia são ótimas leituras para levantar todas essas questões referentes às drogas e ao sistema carcerário.

 

Talvez o grande mérito da trilogia seja colocar uma luz na história de uma parte da população que cresce cada vez mais e se vê sendo desamparada pelo estado, e pela sociedade no geral, o tempo todo.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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