23 de dezembro de 2017 | Colunas, Saúde | Texto: e | Ilustração: Kethlenn Oliveira
O Racismo e a Saúde Mental
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A gente vê muito na internet sendo falado sobre sermos a geração mais ansiosa e como devemos cuidar da nossa saúde mental, mas o que será que significa isso, e como as nossas identidades se relacionam com nossa saúde mental?

O que é saúde mental?

Não há um conceito oficial, cada cultura e território a define de um jeito que melhor lhe cabe. Vamos trazer aqui um tipo de definição que entendemos como didática, a de saúde mental enquanto resultado de uma equação, onde estão presentes a qualidade de vida e o desenvolvimento emocional. Não se define apenas pela falta, mas também por aquilo que temos de capacidades.

Ela vai bem além do que a simples ausência de transtornos mentais. É como um balanço. Sabemos que a vida nos apresenta todos os dias diversas dificuldades e exige muito, e saúde mental seria a nossa capacidade de lidar, da melhor maneira possível para cada um de nós e mantendo de uma maneira geral uma atitude positiva em relação a si e ao mundo, com todas essas questões.

Escolhemos iniciar o texto com essas definições para que fique mais simples de entender quando formos falar do tema principal: a saúde mental da população negra. Com tudo que já falamos aqui: como vocês imaginam que esteja a saúde mental dessa população?

Sabemos que a realidade do Brasil (e do mundo) é altamente racista e invade todas as esferas: culturais, econômicas e sociais. Um dos resultados disso são os estereótipos e rótulos fixados sobre o que é ser negro. Ainda hoje, profissionais da saúde acreditam, por exemplo, que mulheres negras devem receber menos anestesia, pois, em teoria (!!) conseguem suportar mais as dores do que mulheres brancas. Há também uma concepção geral de que negros e negras suportam com maior facilidade também realizar trabalhos mais pesados, mais braçais. E isso não é por acaso.

Há séculos são reproduzidas, de diversas maneiras, as percepções de animalização de pessoas negras. Algo que é herança da escravidão, que se valia da despersonalização, da objetificação e da transformação desses corpos em ‘’não seres’’, em objetos. O racismo tira toda a humanidade das pessoas negras e nós lutamos até hoje para sermos reconhecidos como humanos.

E quais as consequências de todas essas questões para a auto percepção e saúde mental?

O adoecimento mental da população negra. Pessoas negras sofrem tanto com o estigma e estereótipos, como o da angry black woman (negra raivosa) e do negro bandido, que não nos permitimos sentir nada que se aproxima de ser considerado “fraco”, porque precisamos ser sempre fortes. Achamos que precisamos aguentar todos os obstáculos sozinhos e que devemos guardar só para a gente o que passamos – e isso não é verdade. O racismo afeta nossa saúde mental, e não podemos ignorar isso.

Autocuidado e preocupação com nossa saúde mental não têm nada a ver com fraqueza. Não há nada de errado em pedir ajuda.  Temos o direito de não sermos fortes o tempo todo, e não temos que aguentar sozinhas as consequências do racismo. Precisamos respeitar o que nosso corpo e nossa mente nos dizem, e cuidar da nossa saúde.
É preciso que a gente reconheça e legitime essas questões, e que a sociedade como um todo perceba a importância do cuidado dessa subjetividade humana. Para além das problemáticas também sentidas por todos, negras e negros precisam ainda lidar e enfrentar com as nuances e frutos do racismo.  

Dica MUITO importante:
A Rede Dandaras, com o intuito de articular, fortalecer e promover saúde entre as Mulheres Negras, criou um mapeamento de Psicólogas Negras no Brasil. A lista com os resultados dessa pesquisa ainda não foi divulgada na íntegra, mas é possível enviar mensagem e solicitar o contato de profissionais de sua região. Ainda está disponível também o formulário geral a ser preenchido por psicólogas que queiram fazer parte desta rede.

 

Vicky Régia
  • Conselho Editorial
  • Coordenadora de Se Liga
  • Coordenadora de Esportes
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Sociedade
  • Colaboradora de Educação

Vitória Régia tem 21 anos, estuda jornalismo e acredita no poder da comunicação para mudança social. É nordestina de nascimento, paulista de criação e carioca por opção. Adora conhecer diferentes culturas e é apaixonada pela arte de contar histórias. Dedica a vida a militância nos movimentos feminista, negro e LGBT e acorda todos os dias pensando em como mudar o mundo.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

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