20 de agosto de 2018 | Ano 4, Artes | Texto: and | Ilustração: Kethlenn Oliveira
Empoderamento feminino e diversidade no ballet – Entrevista com Ingrid Silva

Nascida e criada no bairro de Benfica, no Rio de Janeiro, a bailarina Ingrid Silva hoje brilha nos palcos de Nova Iorque. Filha de uma empregada doméstica e um funcionário aposentado da FAB, seu primeiro contato com o ballet foi o projeto Dançando Para Não Dançar na favela da Mangueira. Hoje ela participa de diversos projetos que incentivam o empoderamento feminino e a formação de bailarinas negras nos EUA. Infelizmente artistas não-brancas e periféricas no ballet ainda são minoria, por isso exemplos como a Ingrid são tão importantes.

Você já era uma grande inspiração para garotas que sonham ocupar espaços onde há pouca representatividade negra/latina/periférica. Mas você começou a atuar mais diretamente no empoderamento dessas garotas com o Brown Girls Do Ballet. Pode nos falar um pouco sobre o projeto e a sua participação nele?

O Brown Girls Do Ballet é uma organização que ajuda meninas negras aqui nos Estados Unidos a terem uma bolsa de estudos e oportunidades em grandes companhias de dança.
Eu conheci a diretora deste projeto há 5 anos através de uma sessão de fotos que fizemos juntas. Ao longo desta jornada ela me convidou pra ser mentora de alguma das meninas e fico muito grata por poder guiá-las nesta jornada que é o ballet.

O EmpowHer New York foi uma iniciativa sua para o empoderamento feminino, mas hoje vocês já contam com patrocinadores. O que te motivou a começá-lo? Como você se sente vendo o crescimento desse projeto?

Eu criei o EmpowHer New York com a minha partner Helya Mohammadian. Nos conhecemos andando nossos cachorros na vizinhança e acabamos virando amigas. Um dia entre uma conversa e outra mencionei que queria fazer um projeto direcionado para mulheres pois creio que por muitos anos não tivemos nossas vozes ouvidas, seja por medo ou por nos preocuparmos com o que os outros vão pensar.O Empowher New York é uma plataforma colaborativa, criada para dar voz a mulheres reais que batalham para conquistar seus sonhos e objetivos. A ideia do projeto é criar um espaço seguro para que todas possam falar sobre suas experiências, dificuldades e conquistas, sem julgamentos, incentivando a sororidade e o diálogo.
No perfil @EmpowHer_NY, apresentamos a vida e a rotina de diferentes personagens todos os dias. No formato “Take Over”, elas tem liberdade total de criação e dividem um pouco de sua jornada e dia a dia.A cada dia que passa me sinto mais feliz de ver que hoje em dia temos mais de 6 mil mulheres conectadas por suas histórias e mais de 200 já fizeram seu TakeOver. Não é somente um movimento, é muito mais do que isso.
Foto: Aaron Pegg

Foto: Aaron Pegg

 

O Dançando Para Não Dançar foi o seu primeiro contato com o ballet. Você ainda participa do projeto de alguma forma? Qual a importância de projetos e campanhas que incentivem garotas não-brancas a participarem do ballet?

Comecei no Dançando Para Não Dançar aos 8 anos de idade e foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida, graças ao meu talento e as aulas de dança consegui chegar onde estou hoje. Atualmente não tenho nenhum envolvimento direto com o projeto.

A importância de projetos como esse é enorme, o projeto tem uma diversidade muito grande. Não foi criado só para negros, mas para todos que tem uma condição financeira humilde ou que vivam em regiões periféricas. O projeto não só te prepara para a vida no mundo da dança, mas te ensina a ser um melhor cidadão para o mundo.
Tenho uma enorme gratidão pela arte, e por pessoas que tomam essa iniciativa.
O que você sentiu sendo a primeira bailarina negra brasileira na capa da Pointe, uma das mais importantes publicações sobre ballet no mundo?
Orgulho! Este momento foi histórico pra mim e sempre será lembrado e celebrado, porque não é todo dia que na história de uma revista deste porte é possível ver uma bailarina negra na capa.
Creio que isso foi um grande passo para o mundo da dança e espero que mais revistas e publicações façam o mesmo.
Como você avalia o cenário atual do ballet no Brasil em relação ao início da sua carreira? Tem vontade de voltar a dançar aqui?
Já são quase 11 anos fora do Brasil e não sei ao certo como está o cenário atual, conheço muitos bailarinos que continuam lutando por um espaço e outros que também estão se arriscando fora do país já que as oportunidades no Brasil ainda são bem limitadas. Não sei se está no meu planos voltar a dançar ou morar no Brasil, mas adoraria dançar como convidada em uma Companhia ou fazer uma temporada por aí.
Foto: Aaron Pegg

Foto: Aaron Pegg

 

Depois de morar a mais de 10 anos nos Estados Unidos e ter crescido no Brasil, como você avalia a diferença da discussão racial e inclusão de pessoas negras nas artes nos dois países?

Acho que aqui nos Estados Unidos a oportunidade é muito maior, você tem mais chances e possibilidades. As vezes acho que no Brasil não é somente sobre seu talento, tem muito de conhecer alguém e ter boas conexões. Além do mais, nós só temos quatro grandes Companhias de dança por aí, o que faz a chance de conseguir uma vaga muito mais difícil. São muitos bailarinos para poucas oportunidades.

No Dance Theatre of Harlem os bailarinos pintavam as sapatilhas e meias com a cor da pele. Você ainda tem que fazer isso ou as empresas já começaram a incluir o mercado  das bailarinas não-brancas?

Isso é uma tradição e visão, é a assinatura principal do Dance Theatre of Harlem. Até hoje o mercado não está pronto para esta demanda. Eles precisam se colocar no lugar do bailarino e entender o quanto é difícil ter que fazer este processo da pintura das sapatilhas tantas vezes. Eu inclusive não tenho mais meia-calça no meu tom de pele, ainda espero que em breve a marca que utilizo se manifeste e mude sua visão do mercado.

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

Vicky Régia
  • Conselho Editorial
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Vitória Régia tem 21 anos, estuda jornalismo e acredita no poder da comunicação para mudança social. É nordestina de nascimento, paulista de criação e carioca por opção. Adora conhecer diferentes culturas e é apaixonada pela arte de contar histórias. Dedica a vida a militância nos movimentos feminista, negro e LGBT e acorda todos os dias pensando em como mudar o mundo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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