6 de fevereiro de 2019 | Ano 5, Edição #46 | Texto: | Ilustração: Juliana Adlyn
KonMari: Cuidando da nossa casa e das nossas coisas

A Netflix, que não é boba nem nada, aproveitou a virada do ano para lançar a série Ordem na Casa com Marie Kondo, pegando carona no desejo de renovação e mudança que sempre toma conta da gente nessa época do ano. A série foi um sucesso e se tornou um dos principais assuntos comentados nas redes em janeiro, dando origem a milhares de fotos de gavetas arrumadas e memes dos mais variados.

Na série, Kondo ajuda famílias a colocarem ordem na casa usando o seu método KonMari, que já tinha conquistado adeptos no mundo inteiro através de seus livros. O método se divide em duas partes: primeiro o descarte e depois a organização. Ela orienta que as coisas sejam arrumadas por categoria e não por localização, ou seja, ao invés de arrumar primeiro o seu armário, depois as gavetas e depois as prateleiras, você junta todas as roupas que tem em um único local e avalia peça por peça para decidir o que fica e o que vai  – o que te traz alegria e o que não traz. Isso permite que a gente tenha a real dimensão de tudo o que possui. Kondo sugere começar pelas roupas; depois os livros, seguidos pelas coisas de papelaria, komono (itens variados como coisas de cozinha e banheiro) e, por último, itens de valor sentimental.

Para algumas pessoas, o método pode soar extremo. Por exemplo, houve muitas críticas na internet com relação à parte dos livros porque segundo os memes ela teria definido que o ideal é ter menos de 30 livros em casa. Mas não é bem assim. Em nenhum momento Kondo determina o que deve ficar e o que deve ser descartado – pelo contrário, ela deixa as pessoas bem à vontade para decidir no seu tempo. Todo o método se baseia em avaliar individualmente o que é importante e o que não tem mais sentido para cada pessoa.

Também houve críticas sobre a quantidade de lixo que o método produz: no programa vemos pessoas enchendo dezenas de sacos só com tranqueiras para jogar fora. Mas não é como se o método gerasse mais lixo: o lixo já estava lá nas casas. Se ater à quantidade de coisas jogadas fora nos episódios do programa é uma visão limitada. Vivemos em uma sociedade capitalista que estimula o consumo desenfreado e assim acabamos com pilhas e pilhas de objetos que não significam nada e que nem sabemos às vezes explicar porque os compramos e guardamos. O KonMari vai justamente na contramão disso. Se incorporado realmente, a longo prazo ele faz com que a gente diminua a produção de lixo, justamente por trazer uma reflexão constante sobre o valor real das coisas. Se pensamos melhor sobre as coisas que temos, consequentemente consumimos menos e geramos menos lixo.

O KonMari na realidade é muito mais do que um método de organização, ele é uma verdadeira filosofia de vida. Marie Kondo não se limita a sugerir manter o que mais se usa à mão, guardar os itens de acordo com o tamanho ou evitar empilhar as coisas. Ela propõe toda uma nova forma de ver e pensar o que temos, onde moramos e como isso se integra ao que vivemos e queremos.

Para Kondo, a organização tem um aspecto quase espiritual, com poder de revolucionar as nossas vidas e deixar tudo mais leve. No início de cada processo, ela propõe um momento de reflexão e agradecimento à casa por fornecer abrigo e conforto. Ela também pede que as pessoas visualizem as coisas que querem na sua vida e porque querem essas coisas. Depois, cada membro da família arruma seus pertences sozinho, de forma que cada um se responsabiliza exclusivamente pelo que possui e pela bagunça que gera. Ainda na fase do descarte, ela orienta que se pegue cada peça e agradeça antes de jogar fora. Na parte da organização, ela ensina como dobrar as roupas e transforma isso num verdadeiro ritual diário carregado de afeto, que inclui todos os membros da família, até mesmo as crianças pequenas. De acordo com a autora Margaret Dilloway, o KonMari teria raízes no xintoísmo, a religião tradicional do Japão, que inspira o respeito a todas as coisas e suas histórias, incluindo objetos inanimados.

Mais do que ensinar a manter nossas coisas em ordem, o KonMari inspira uma conscientização sobre o ambiente em que vivemos e gratidão pelo que possuímos. A verdadeira magia do método está em desenvolver a responsabilidade pelo cuidado com o que é nosso e em levar à percepção de como isso se relaciona com a forma como vivemos e pensamos o mundo.

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

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