7 de fevereiro de 2019 | Ano 5, Edição #46 | Texto: | Ilustração: Kethlenn Oliveira
Amor romântico, cuidado e seus limites

Será que o existe um limite para o cuidado dentro de uma relação romântica? E como a gente pode definir se há cuidado em um relacionamento ou não? Essas perguntas são muito subjetivas, como a maioria das questões que tratam de relacionamentos interpessoais. Porém pensar sobre elas e refletir em conjunto pode ser bastante útil.

Primeiro, entender o conceito de cuidado é interessante. Genericamente, o substantivo cuidado significa, segundo o dicionário:  “(…) Forma de agir com preocupação. Atenção que se dedica a alguém. Atividade que requer zelo.” Cuidado, então pode ser entendido como dedicação e preocupação com algo ou alguém.  É essa a definição que vamos usar aqui.

Dentro de uma relação romântica, cuidado, dedicação e preocupação podem aparecer de diversas formas. Uma ligação pra saber se o outro está bem, cinco minutinhos de espera no ponto de ônibus para que o outro não pegue um caminho perigoso sozinho, um chocolate de presente quando a gente sabe que a outra pessoa está triste ou mesmo a atenção na hora de expressar uma ideia para ninguém ficar magoado com o que vamos dizer.

O problema é que na nossa cultura (brasileira, latina, ocidental) a gente também coloca na conta do cuidado algumas atitudes não tão legais como o ciúme e a infantilização dos nossos parceiros e parceiras.  Isso se reflete, por exemplo, em músicas que estamos tão acostumados a ouvir, que nem paramos para analisar. Quer ver?

 

Cuidado como ciúme

“Quando a gente ama, claro que a gente cuida.

Diz que me ama só que é da boca pra fora,

Ou você me engana ou não está madura,

Onde está você agora?”

(Sozinho – Caetano Veloso)

“Sozinho” é uma das minhas músicas favoritas. Gosto da sonoridade e do fato de quase todo mundo saber cantá-la.  Mas se eu pudesse dar um conselho para o Caetano (quem sou né, mas vai que um dia…) seria: “Calma, cara!”. O fato é que nessa música a gente entende o amor como um cuidado presente e constante a todo momento. Se forçarmos a interpretação há um pedido implícito de que o outro sinta medo de uma possível perda para o provar o seu amor.

Nesse caso, a gente está mexendo com um sentimento bastante perigoso, o ciúme. O ciúme provêm da insegurança e objetificação alguém. Traz em si o sentimento de posse. Precisamos cuidar do outro, pois sentimos que podemos ser trocados a qualquer momento e uma vez que essa pessoa aceitou relacionar-se romanticamente conosco ela é nossa propriedade, não deveria ter nenhuma outra vontade além da de ficar ao nosso lado. Triste pensar assim né?

Se a gente tem ciúme, começa a ficar ansiosa(o) por qualquer coisa, criando cenários malucos na nossa cabeça. Se o nosso parceiro ou parceira tem ciúme de nós, a gente tem que tomar cuidado com tudo o que faz e fala. Se não existe esse sentimento, alguma coisa está errada porque afinal de contas “quando a gente ama é claro que a gente cuida… onde está você agora?”

Desconstruir essa ideia de cuidado como ciúme/medo da perda tem ligação com deixar de acreditar que amor é posse ou sentimento exclusivo. É entender que nossos companheiros e companheiras possuem desejos e a chance de fazer escolhas. Logo, sua palavra sobre o pacto de fidelidade que vocês estabeleceram entre si no início da relação deveria bastar e a segurança de que essa pessoa está nesse relacionamento por vontade própria deveria existir.

 

Cuidado como forma de infantilizar outra pessoa

“O que você precisa

É de um retoque total

Vou transformar o seu rascunho

Em arte final

(…)

Longe do meu domínio

Cê vai de mal a pior

Vem que eu te ensino

Como ser bem melhor”

(Como eu quero – Kid Abelha)

Ok, essa talvez eu tenha ido um pouco longe demais para buscar, mas ela já foi trilha sonora de novelas e provavelmente você já ouviu no carro ou no karaokê de alguém. O fato é que nessa música, interpretada pela banda Kid Abelha (alô, mãe?), a gente consegue enxergar o ápice do tratar alguém como incapaz de cuidar de si próprio. Uma vez que essa pessoa não consegue fazer isso, a gente faz por ela, certo? A resposta é: NÃO!

Isso é bastante injusto com quem a gente se relaciona. Nenhum de nós sabe toda a “verdade” sobre todos os assuntos da vida de outra pessoa. Não somos guias iluminados de ninguém. O que consideramos melhor para nós mesmos pode não ser o melhor para o outro e vice e versa.

Mais uma vez nos vemos em uma situação de “soma zero”, ou seja, um cenário em que ninguém está ganhando. Quem está sendo infantilizado se sente incapaz constantemente, podendo criar um sentimento profundo de dependência emocional e inferioridade. Quem está cuidando de todos os aspectos da vida do parceiro ou parceira precisa carregar um peso muito grande da responsabilidade de não deixar o outro cair e se manter sabendo toda a verdade sobre todos os assuntos sempre.

E aí, será que tem limite?

O caso é que cuidado é algo bastante íntimo e existe um linha tênue entre o que é cuidar de um parceiro e o que é assumir responsabilidades que não são nossas. Ter atenção aos sentimentos e demonstrar disposição para ajudar um companheiro ou companheira são responsabilidades nossas, porém não permitir que eles façam escolhas que nós julgamos erradas ou que eles quebrem algum dos pactos estabelecidos dentro do relacionamento não.

Além disso, por mais que às vezes a gente use a desculpa de “nossaaa, mas eu só estou fazendo o que eu gostaria que fizessem por mim”, é importante termos em mente que querer cuidar de alguém da maneira como você gostaria de ser cuidado pode não ser, de fato, efetivo. Uma vez que a pessoa pode não ter as mesmas necessidades que você. Comunicação sobre isso é fundamental para acertar o compasso dos cuidados em qualquer relacionamento.

Então, vamos combinar de ficar só com parte do cuidado que faz todo mundo dentro da relação se sentir respeitado e admirado? Que a gente não se sente pesado em fazer? Aquela que tem chocolate as vezes e ligação de “chegou bem em casa?”. Pode ser?

(Sobre esse mesmo tema, você pode ler esse texto da Laura aqui e esse outro da Bia também)

Ester Borges
  • Colaboradora de Educação

Desde 1997, Ester anda pelo mundo e o experimenta de forma curiosa. Talvez seja por isso que estuda relações internacionais na USP e tenta se convencer que é uma pesquisadora. Frequentemente considerada otimista, ainda não tem grandes conquistas, porém acredita que descobrirá entre o amor ao próximo e a militância política algo que fará a humanidade se relacionar melhor. Provável que já tenha lido ficção demais.

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