2015: quem leu o quê na Capitolina
EDIÇÃO #21.LIVROS QUE AMAMOS.KIKI

Para fechar o ano, nossas colaboradoras escreveram sobre suas leituras preferidas em 2015! E você? Qual foi o livro mais delícia do ano? Conta pra gente!

Carol leu O albergue das mulheres tristes, de Marcela Serrano

Em 2014, incentivada pela hashtag #readwomen/#leiamulheres, comecei a ler mais títulos escritos por mulheres e carreguei esse bom hábito para 2015. Porém, foi só agora, ao parar para pensar qual foi a minha leitura preferida do ano, que me dei conta que li mulheres nos últimos doze meses! Entre tantas escritoras maravilhosas, o livro que ganhou meu coração foi O albergue das mulheres tristes, da chilena Marcela Serrano.

Ele conta a história de uma historiadora que decide passar uns meses em um albergue só para mulheres, em uma espécie de retiro emocional e espiritual depois de viver uma desilusão amorosa. É um romance que fala sobre o amor, as mulheres contemporâneas e como as relações heteronormativas estão passando por um momento revolucionário e inédito na história da humanidade – até aí nenhuma novidade, clichezão, certo? Errado. O que cativa em O albergue, é a forma como a autora joga no ventilador tudo aquilo que nós, mulheres feministas, pensamos/nos digladiamos sobre o que é se relacionar com homens. Segue um trechinho do livro para vocês se convencer que precisam ler esse livro pra ontem:

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Esse livro me encontrou em um momento parecido com aquele da protagonista, em que eu precisava conversar e externalizar meus medos, dúvidas e questionamentos; e, às vezes, as páginas de um livro são o ouvido mais acolhedor que podemos ter. Ler O albergue me transformou, me ajudou a entender o que eu quero e, o mais importante, o que eu não quero de jeito nenhum em uma relação. É o tipo de livro que fala, ou melhor, grita por você, e te deixa mais forte a cada página lida. Recomendo um milhão de vezes (e um pouquinho mais)!

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Taís leu Luzes de emergência se acenderão automaticamente, de Luisa Geisler

Com o tempo, os anos se transformam em uma sucessão de casas. À princípio as portas estão todas abertas, então, progressivamente, sobra cada vez menos: janelas, frestas, olhos mágicos… Às vezes parece que mudar é definitivamente perder uma parte de si. Sou acumuladora de coisas e memórias, não gosto dessa ideia. Quero estar sempre mudando, mas também sempre poder voltar à minha própria história.

Meu livro preferido de 2015 é um portal que derrubou por algumas páginas todas as divisões, conciliou essa linha imaginária dos anos e me fez habitar de uma só vez todo meu tempo. Ganhei Luzes de emergência se acenderão automaticamente em meu aniversário de 25 anos. Já vinha flertando com ele bem antes disso. Aos domingos de tédio no trabalho, ficava na ponta do pé para o alcançar na estante, abrir em uma página aleatória e me perder. Sentia que era um livro preciso. A sensação de entrar nessa história é parecida com a primeira vez em que aos 17 anos ouvi o Favourite Worst Nightmare do Arctic Monkeys. Algo um tanto imobilizante em que você não sabe se está caindo ou mergulhando, mas está, enfim, em um lugar possível.

Luisa Geisler escreve sobre uma solidão específica dos vinte e poucos anos. É um livro sobre esperar o último ônibus e crescer até encostar nos limites de nossas cidades. É sobre empregos ruins, amores confusos, faculdades frustrantes e o tempo que perdemos pensando no que realmente deveríamos estar fazendo o que nos leva inevitavelmente a não fazer nada. Suas 292 páginas foram, para mim, a certeza de que é possível retornar, mesmo já estando longe. Dizem que a história nunca está pronta, porque o presente está sempre a alterar o passado e que é desse movimento que se pode supor o futuro, mas jamais prever. Luzes de emergência se acenderão automaticamente é para mim um mirante.

Natasha leu A Garota da Banda, de Kim Gordon

“No clipe de ‘100%’ eu usei uma camiseta dos Rolling Stones que dizia “Me coma.’ Dai, a MTV, que mostrava diversos clipes de mulheres peladas, estava relutante de exibir nosso vídeo. Eles acharam que a minha camiseta mandava uma mensagem ruim para os telespectadores”.

A Kim Gordon, ex baixista do falecido Sonic Youth, tem sido uma das minhas ídolas por uns bons anos. É como se ela exercesse uma força girl power sob mim. Então, quando tive meu exemplar da autobiografia dela, A Garota da Banda, sabia que ia ser uma leitura e tanto. Não apenas pelo fato de Kim ter tido uma vida fascinante (morado na Ásia na adolescência, a infância hippie na Califórnia, escolas de arte, a música e a vida em Nova Iorque), mas também o jeito com qual ela escreveu o livro. Ela não apenas narra fatos de sua vida, mas discorre sobre eles e sobre sua influência. Sobre como a relação com seu irmão mais velho refletiu em seus relacionamentos amorosos e inevitavelmente sua relação com o ex-companheiro de banda e ex-marido Thurston Moore. Sobre não apenas ser uma garota no rock, mas a garota da banda. A parte mais comentada do livro foi o final da banda e do casamento de quase 30 anos, como se de repente o Sonic Youth e Kim e Thurston tivessem tido a mídia – não necessariamente boa -, que nunca tiveram em todos os anos de banda, mas essa é apenas uma parte na vida e no livro de Kim Gordon. Se eu já era fã dela antes, minha admiração por ela cresceu um pouco. Eu só quero ser a Kim Gordon quando eu crescer.

“Quando o Sonic Youth excursou pela Inglaterra, os jornalistas ficaram me fazendo uma única pergunta o tempo todo: ‘Como é ser a garota da banda?’ Eu nunca de fato pensei sobre isso, para ser honesta.”

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Marcela leu Pequenas grandes mentiras, de Liane Moriarty

Esse ano li muitos livros bons, mas o que mais me marcou foi o Pequenas Grandes Mentiras, da Liane Moriarty.  É um chick lit de suspense sobre um crime que aconteceu num evento beneficente de um colégio de classe média alta. Em meio à investigação, conhecemos a história de três mulheres cujos filhos estudam no jardim de infância dessa escola.

A princípio, é só um livro divertido e instigante sobre um mistério, mas conforme avançamos a leitura, conhecemos melhor a vida dessas famílias, dessas mulheres, e descobrimos um abismo de mentiras e segredos por baixo do jardim de flores que a vida das pessoas parece ser para quem está de fora. Se em algumas horas esse livro faz a gente rir de cenas corriqueiras com uma leveza e um toque divertido que todo bom chick lit tem, de repente nos pegamos tentando conter as lágrimas de tão envolvidas com a história dessas pessoas. Quando percebemos, estamos lendo sobre temas como violência doméstica, abuso, dependência emocional, bullying, que, conforme vamos percebendo, também são situações corriqueiras na vida de todos. E o ponto forte desse livro é o tom popular e carismático, que faz a gente entender que a violência não está presente só em histórias trágicas e pesadas.

Eu li esse livro no começo do ano, e logo ele me fez pensar em como tendemos a esconder e mascarar situações difíceis para não comprometer uma vida que precisa ser sempre linda e perfeita, e em como tendemos a diminuir os acontecimentos para nós mesmas para nos convencer disso também. Mais tarde, eu vi muitas e muitas pessoas falando na internet sobre o primeiro assédio que sofreram e foi então que enfim tive essa infeliz constatação: a violência emocional ou física é uma realidade na vida de qualquer uma de nós. Esse livro se destacou em 2015, que, entre tantas coisas ruins, foi o ano em que aprendemos que é importante falar, denunciar e não carregar sozinha um peso que não é nosso.

Helena leu A redoma de vidro, de Sylvia Plath

Foi por entender a relação com a literatura como algo mais parecido com um organismo vivo do que com o objeto estático que li, este ano, A redoma de vidro. Explico. Em 2015, li pouca literatura, em partes porque fiz muitas coisas, em partes porque estava mais concentrada na leitura teórica de artigos e livros da pesquisa que faço na graduação. Por isso, os livros que li eram indicações de outras amigas, que conversavam sobre as vibes das leituras comigo e deixavam o processo todo mais interessante. A redoma de vidro aconteceu assim.

O livro conta, em primeira pessoa, a história da jovem estadunidense Esther na busca por si mesma, pelo que sente, pelo que aspira pros futuros e presentes. Isso se escancara quando essa trajetória se transforma em uma crise depressiva sobre a qual nem eu nem ela mesma sabemos falar objetivamente – mas entendemos, nos entendemos e desmistificamos. Senti um pouco de agonia durante o romance, de diversas formas: pela superficialidade da vida que Esther levava em Nova Iorque, que angustiava a ela e também a mim; pelos cortes narrativos, com certeza propositais, no tempo da história, como se a quebra dos capítulos me dissesse “isso que você quer saber não é o que importa para a história”. Não é um livro leve, mas é um livro sobre perspectivas, e por isso me mexeu tanto, e por isso tão singular.

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Bárbara leu Formas de voltar para casa, de Alejandro Zambra

Formas de voltar para casa, de Alejandro Zambra, foi ótima companhia no trajeto de metrô. A fórmula é perfeita: poucas páginas, história alucinante; uma semana e doze estações por dia foram o necessário para a leitura. O livro se passa em dois tempos: no Chile de hoje e no Chile de Pinochet. Mas não é a história de luta e enfrentamento político. É a história dos que eram crianças e não sabiam o que se passava. Viviam a história sem entender bem o que acontecia. Há aqueles cujos lares permaneram intocados, silenciosos, em que Pinochet aparecia na televisão para atrapalhar o desenho animado. Mas ruas abaixo há aqueles em que o pai já não está mais. Tem amores feitos e desfeitos, mas o livro mesmo é um balanço do passado. Não mais da História do país, mas das histórias que formam essa História aí. Como escreve o autor em algum momento, “agora entendemos tudo. Mas sabemos pouco”.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

Marcela de Oliveira
  • Revisora
  • Colaboradora de Literatura

Tenho 25 anos, sou carioca e formada em Produção Editorial. Trabalho com livros e essa é minha grande paixão na vida. Amo literatura, séries de TV, filmes, quadrinhos... Na verdade, amo todos os tipos de histórias. Também adoro cachorros, cabelos, cantoras pops e dar risadas.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

  • Gerda.

    Oi,
    Amo ler .Tenho uma biblioteca em casa com 2.280 livros.
    Sou a Gerda.
    Já li muitos livros bons.O Medicos da almas e dos Homens lindos.Operação Cavalo de Troia volume 1.O Pilares da Terra.Etc.
    Bjs.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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