28 de setembro de 2017 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
3 livros incríveis sobre questões raciais que todos deveriam ler
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Quando a gente cresce sendo uma jovem negra, a gente olha para a mídia e para as artes e não conseguimos nos ver, já que sempre foi um espaço negado para nós. Com tempo e muita luta, as coisas têm melhorado um pouco, vemos muito mais gente negra fazendo artes, escrevendo e sendo bem sucedida, mas isso está longe de ser o ideal. Por isso, esse ano eu decidi que uma das minhas prioridades seria ler, conhecer e celebrar artistas e escritores negros. Afinal, tem muita gente fazendo coisas incríveis por aí e eu queria conhecer essas pessoas.

Recentemente, eu li três livros escritos por autores negros que falam muito da questão racial, e principalmente do racismo, no Brasil e no mundo, e acho que são leituras essenciais para todo mundo, sejam brancos ou negros, para entender um pouco mais da realidade das pessoas negras nesse universo.  Se vocês já leram algum desses livros não esqueçam de contar para a gente o que acharam e se não leram, mas ficaram interessados, contem para a gente também. E vamos continuar conhecendo e celebrando as iniciativas, livros e pesquisas de pessoas negras, já que como diz a filosofia africana, “Eu sou porque nós somos” e  assim juntos somos mais fortes <3

O ódio que você semeia de Angie Thomas

O ódio que você semeia é um romance sobre Starr, moradora de um gueto nos Estados Unidos, que, ainda na adolescência, testemunha a morte por arma de fogo de dois de seus melhores amigos. Um deles, Khalil, foi assassinado por um policial, numa blitz. Nos Estados Unidos e no Brasil é comum sabermos da morte de jovens negros pela polícia. Aliás, foi depois da morte do jovem norte-americano Oscar Grant que a autora do livro, Angie Thomas, começou a pensar em escrever esse livro. É um livro importante porque fala como Vidas Negras Importam (#BlackLivesMatter) e como o Estado, junto com a polícia, tem conseguido exterminar essa população que sempre esteve à margem. Além disso, o livro retrata como para nós, pessoas negras, é sempre ensinado desde pequenos a não reagir, porque se reagirmos podemos morrer, e até quando não fazemos isso esse risco está sempre presente. O livro também trata das dificuldades de ser uma jovem negra em um ambiente majoritariamente branco, já que Starr vai a uma escola que só tem brancos e suas duas melhores amigas são brancas. Mesmo se passando nos Estados Unidos, o livro se relaciona muito bem com a realidade brasileira e não nos deixa esquecer dos jovens negros que foram tirados de nós pelo Estado racista.

Se quiserem entender mais sobre isso, acessem a campanha: https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/

Heroínas Negras de Jarrid Alves

Quando se é uma menina jovem ou mulher negra, a gente sabe que cresce sem muitos referenciais e representatividade na mídia. As histórias das nossas antepassadas são completamente apagadas e o acesso a elas é sempre muito restrito. Por isso, toda iniciativa de trazer a tona mulheres negras é muito importantes, e é isso que Jarrid Alves faz no seu novo livro Heroínas Negras. São 15 biografias em cordéis de mulheres negras que foram fundamentais para a construção do nosso país e da nossa história, mas o nosso conhecimento de suas histórias sempre nos foi negado. São histórias como a de Tereza de Benguela, a rainha de um quilombo no Mato Grosso; Maria Firmina dos Reis, responsável pelo primeiro romance abolicionista do Brasil, e Aqualtune, uma princesa africana que se tornou escrava no Brasil no período escravocrata. Como as biografias são escritas em cordéis – gênero literário que amo e que é do Nordeste – a linguagem é divertida e acessível  para pessoas de todas as idades. Os cordéis de Jarrid são usados em escolas do país todo  como uma forma de conhecimento da nossa história e para tentar minimizar esse lapso que temos na nossa formação escolar sobre a história das pessoas negras no país. Por isso, acho uma leitura fundamental. E já falamos anteriormente aqui na Capitolina do trabalho da Jarid com cordéis e de seu outro livro A Lenda de Dandara, que também é uma leitura importante.

Na Sua Pele de Lázaro Ramos

Eu cresci vendo Lázaro Ramos e Taís Araújo a televisão. Eles eram um dos poucos atores negros que víamos na telinha e pelos quais eu me sentia representada. Recentemente, eles foram os primeiros atores a representarem pessoas negras na televisão fora dos estereótipos de marginalidade, já que sempre era designado para atores e atrizes negras papéis de escravos, empregadas domésticas ou personagens hipersexualizados, Na série Mister Brau eles representam pessoas negras bem sucedidas na indústria da música com um elenco majoritariamente negro. Por isso, o lançamento do livro dele, que é uma espécie de autobiografia com várias reflexões sobre o que é ser uma pessoa negra no Brasil e nas artes, me deixou muito animada. No livro temos reflexões sobre identidade, gênero, raça, família, discriminação e afetividade. Vemos como mesmo tendo um status social elevado e ser conhecido como celebridade, uma pessoa negra sempre sofrerá com o racismo e como tomamos consciência da nossa identidade e do que nos cerca. Na sua pele é um daqueles livros que nos inspiram a refletir sobre vários temas da nossa vida e da sociedade, e tem uma narrativa que flui muito bem, tem uma linguagem acessível e uma história que nos move.

 

Vicky Régia
  • Conselho Editorial
  • Coordenadora de Se Liga
  • Coordenadora de Esportes
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Sociedade
  • Colaboradora de Educação

Vitória Régia tem 21 anos, estuda jornalismo e acredita no poder da comunicação para mudança social. É nordestina de nascimento, paulista de criação e carioca por opção. Adora conhecer diferentes culturas e é apaixonada pela arte de contar histórias. Dedica a vida a militância nos movimentos feminista, negro e LGBT e acorda todos os dias pensando em como mudar o mundo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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