25 de agosto de 2014 | Ano 1, Edição #5 | Texto: | Ilustração:
50 tons (coloridos) de amor
Ilustração: Bárbara Fernandes.

Ilustração: Bárbara Fernandes.

Desde que eu me entendo por gente, o amor tem sido minha principal prioridade na vida. De maneiras diferentes, ele tem sido, desde o começo, até agora – e tenho certeza que até o final da minha vida também —, meu único objetivo. A parte interessante é que todo mundo que eu consigo pensar tem esse mesmo objetivo: o amor.

Apesar de estarmos acostumadas com a associação do amor ao amor romântico e/ou sexual, não é disso que eu estou falando. Bom, não apenas disso. Minha primeira paixão na vida, como eu acredito que de muitas pessoas, foi minha família. Eu pensava só neles, amava-os com uma intensidade que parecia capaz de fazer meu corpo inteiro explodir. Depois, por volta dos 9 anos, veio a descoberta da leitura e da escrita juntas. Meu amor maior mudou: não que eu tivesse abandado meu primeiro amor, só passei a viver com os dois, e aquele amor pelas palavras se sobressaía a qualquer outro. Não foi antes dos 11 anos que eu descobri de verdade o amor por amizades. O amor pelo trabalho e o senso de independência vindo dele veio aos 15 ou 16. O que eu estou tentando dizer é: o amor se apresenta de maneiras muito diferentes, todas igualmente válidas.

Me incomoda um pouco o foco quase que exclusivo em um tipo de amor, desmerecendo o valor dos outros, que vemos tanto em filmes, seriados, livros. A mulher que é frígida porque ama demais a carreira, a mulher que deveria amar menos os filhos e mais o marido, as meninas que são alienadas porque são fãs. Esses estereótipos me preocupam porque ninguém os segue de verdade. Não existe isso de o amor estereotipar, porque amor é… amor. E amar já é a coisa mais bonita que nos foi oferecido.

E não sou só eu quem está dizendo isso.

1. “Profissão, eu te amo”

Eu conheci a Shaiane Lima (22) no colégio. Uma das coisas que mais nos aproximou, quando tínhamos nossos 10 ou 11 anos, foi que ela era tão cabeça-dura quanto eu. Ela tinha o sonho de entrar para a escola de sargentos e servir. Muitos dos nossos amigos não achavam que esse amor era uma coisa válida. “[Eu tive o] apoio da família e amigos, mas também preconceito de alguns amigos. Achavam que não era pra mim, que eu não conseguiria. Lidei da melhor forma, realizando meu sonho e provando que eu era sim capaz.” Ela argumenta, também, dizendo que se lutar pelo sonho contra as expectativas negativas alheias é difícil, também é difícil conseguir o que se quer. “[Houve] adversidades, como a distância (até hoje), e meu namoro. Não lutei contra elas, apenas as aceitei.”

Nesse amor pela profissão, ela enfatiza a importância de persistir, dizendo que a vida inteira dela mudou. “Me trouxe independência e estabilidade financeira. Hoje vejo que valeu muito a pena.”

Josiane Aguiar (31) também se apaixonou pela profissão desde antes de tê-la. “[Foi] desde criança. A primeira recordação que eu tenho, quando eu tinha uns 9, 8 anos, eu já brincava gravando programas de rádio […] também produzia programas de auditório com todos os meus ursinhos de pelúcia.” A jornalista culpa o rádio pelo enraizamento do amor pela profissão no coração. “Não que eu não goste das outras [áreas], mas […] é isso que me fez ficar e vai me fazer permanecer, eu acredito.”

Trabalhando em uma rádio que recentemente se tornou FM, mas que até então era exclusivamente AM, Josiane argumenta que boa parte dos ouvintes são pessoas acima de 50 anos, com preconceitos derivados de falta de informação, e acompanhar mudanças positivas nessas pessoas através da informação que o rádio traz é um dos mais positivos aspectos do trabalho. Trabalhar na comunicação, segundo ela, traz uma oportunidade de apoiar projetos e promover mudanças, o que ela considera incrível.

“Eu me sinto muito feliz [como radialista], porque isso faz parte de mim. Eu não vejo como um trabalho. Faz parte do meu eu.”

2. “Dança, eu te amo”

“Me sinto mais completa porque eu danço”, diz Joana Santos Follmann (25). Ela começou o interesse pela dança quando tinha apenas 5 anos, vendo uma bailarina dançar na ponta dos pés na TV. Pediu para a mãe para fazer ballet e desde então nunca mais parou de dançar. “[Quando danço] é como se não tivesse mais limites [para o que eu sou capaz de fazer].”

“A partir do momento no qual você não se emociona mais [para fazer alguma coisa], é porque está na hora de largar”, Franciele Velasques (17) argumenta, sobre o porquê de trocar a ginástica pela dança, na quinta série. “A dança me deixa mais feliz, mas não só quando eu estou dançando. Quando algo que me deixa pra baixo acontece, eu respiro fundo e relembro alguma coreografia, de alguma apresentação antiga, e isso realmente ajuda.”

Joana parece concordar: “[Apesar de] comprometer muito do meu tempo livre pra dançar, sacrificando o tempo com minha família, [dançando] eu sinto confiança em mim mesma, e isso reflete em outras áreas da minha vida. […] Me sinto bem, mais bonita, mais poderosa.”

“Eu pretendo ser aquelas velhinhas dançando valsa, tango, street, hip hop, dança do ventre e pole dance, porque uma vida sem dança não me parece uma vida feliz.” (Fran)

3. “Banda, eu te amo”

Se por um lado eu me identifico até hoje com a persona fã, o momento onde isso mais fez parte da minha vida foi na adolescência. Meu quarto, cheio de pôsteres de banda, e a porta do meu quarto, com letras de músicas riscadas com caneta de quadro branco, era meu amor mais avassalador, que eu acreditava que nunca seria superado por nenhum outro. Como aconteceu quando meu amor pela família ficou em segundo plano pelo recém-descoberto amor pelas letras, a mesma coisa aconteceu.

Amor de fã não morre. Fases passam, e minha porta hoje em dia não tem nenhum risco nem nenhuma canção nela, mas se eu ouço uma música de uma das bandas que me fazia vibrar no passado, é como se nenhum tempo tivesse passado. Corro pros braços do meu amor mais intenso, que é o amor de fã.

“É uma conexão muito louca”, Bianca Moreira (15) conta, explicando se sentir ansiosa pela banda preferida, One Direction, antes das apresentações dos meninos. “Eu achava que era coisa de louca, [mas depois de começar a ouvir a banda] me tornei uma dessas loucas”, ela brinca. “Eu não consigo imaginar minha vida sem ser fã. Parece que nasci pra isso.”

“Fã eu sempre fui, por gostar muito de desenhos, mas [houve uma revolução de fã em mim] depois de High School Musical. Comecei a procurar mais a fundo deles, não cansar de ouvir e ver, e ter o primeiro amor platônico: Zac Efron”, Kamille Perfeito (15), também se considera ‘Directioner’ (fã de One Direction), além de fã de Little Mix e Demi Lovato. “[Eles] têm um grande impacto na minha vida. Eu dedico 65% de mim aos meus ídolos todos os dias, na intenção de sempre fazer eles crescerem cada vez mais.” (E eu vou ter que admitir que a teoria da Kamille funciona: desde que ela começou a falar de Little Mix pra mim, eu acabei virando fã também.) “Posso dizer que [eles] sempre me dão algum motivo para sorrir e me sentir melhor, sendo ouvindo uma música ou alguma entrevista nova. Eu sinto muita coisa ao ver uma foto nova, não consigo nem descrever direito.”

Kamille fecha com: “Eles deixam meu mundo melhor.”

4. “Filho, eu te amo”

Eu tive a sorte de ter muitos amores com muitas interpretações diferentes da palavra amor, como também tive a sorte de ter muitas professoras maravilhosas. Uma delas, Tatiane Carvalho (34), está grávida do primeiro filho. Antes de ela engravidar, nós já conversávamos bastante, inclusive sobre a relação bastante aberta que eu tenho com minha própria mãe. Acho que por essa conexão de ter falado tanto da minha mãe para ela, quando fiquei sabendo da gravidez da Tati, enchi os olhos d’água.

Eu tenho 21 anos, e ainda não decidi se quero ter filhos no futuro, mas reconheço o milagre da vida como algo bonito e emocionante. Saber que alguém que nós já amamos está para dar a vida para mais amor que está por vir é um pensamento tão cheio de amor que parece uma supernova.

“Quando descobri que estava grávida, senti uma mistura de alegria, amor e medo. Alegria por estar realizando o sonho de ser mãe, um amor que nasceu no peito quase que de imediato, e também medo de não ser capaz de cuidar e orientar um ser humano nesse mundo tão doido em que vivemos. E em pensar que todos esses sentimentos, então, eram direcionados a uma ‘sementinha’ que estava crescendo no meu ventre e que ainda não dava sinais de estar lá. Será que eu não estava sonhando? Será que era mesmo verdade que eu seria mãe? E que tipo de mãe eu seria? Eu só pensava na minha própria mãe e no quanto eu precisava de um colo e de alguém que me dissesse que tudo ia ficar bem.”

Nove meses depois, ela define a maternidade como um exercício de fé. “As coisas saem do controle – a gente não sabe se a gravidez será tranquila, se a criança será saudável, como será o parto, como será a relação com essa pessoa estranha e ao mesmo tempo tão próxima… Como pode a gente amar alguém cujo rostinho nunca viu? E como será o nosso primeiro encontro? Será que vai ter cólica/mamar/dormir à noite/ser saudável/feliz/ meu melhor amigo? Será? São tantas dúvidas, tantos medos, que só a fé acalma. Então eu resolvi ter fé de que o amor me trará todas as respostas que eu preciso para guiar meu filho pelo caminho do bem.”

“[Meu filho] me apresentou um mundo novo, onde as pessoas são boas e há um milhão de razões para acreditar.”

5. “Amores todos, eu te amo”

E por fim, o mais importante, mais ainda que aprender a viver com todos os amores da nossa vida, é aceitar que nenhum amor é mais legítimo que outro. Se alguma coisa ficou comprovada para mim depois de falar com pessoas tão diferentes sobre tipos tão diferentes de amor, é que o amor deixa o mundo mais colorido, independentemente de qual amor for.

Gabriela Martins
  • Colaboradora de Cinema & TV

Apaixonada por seriados, escrever e dar aula. Estudante de letras, professora de inglês, escritora amadora enquanto um agente literário não se apaixona e diz que ela é tudo que sempre sonhou. Acredita veementemente na capacidade de cada um de salvar o mundo, e tem uma metáfora capa de super-heroína que veste mentalmente em situações difíceis.

  • Bianca Xavier

    Caramba, que texto! O amor e seu leque de variedades. Também concordo com você. Por ser amor, já tá valendo.

  • Andrea

    Muito inteligente a forma como abordou os diferentes tipos de amor…me fez pensar a respeito e me ver um pouquinho dentro de cada um deles!!

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