8 de março de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
8 de março: Dia Internacional de Luta das Mulheres
Ilustração: Gabriela Sakata

O 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, é atualmente disseminado pela opinião geral como uma data “comemorativa”, tendo sido apropriado pelo mercado e pela publicidade, como é comum em um sistema capitalista e patriarcal. É um dia em que empresas, amigos, parceiros e instituições em geral resolvem nos presentear com flores, chocolate, descontos em produtos de beleza e matrícula na academia etc. etc. etc. Mas é também um dia de muita luta para as mulheres e que não pode ser banalizado dessa forma.

Como surgiu

Talvez a versão mais disseminada sobre a origem do 8 de março seja a greve realizada por trabalhadoras têxteis da fábrica da Triangle Shirtwaist, em Nova York, após um incêndio que teria matado 146 operários, sendo a maioria costureiras. Contudo, não há sequer um consenso sobre o ano do acidente: há versões que indicam que aconteceu em 1857 e outras, em 1908. O fato é que movimentos de mulheres proletárias já estavam se desenvolvendo com muita força desde o início do século XX, principalmente devido às péssimas condições de trabalho, jornadas abusivas, diferenças salariais e luta por direitos políticos e ao voto. Se hoje essas questões ainda são pauta da nossa luta em razão da extrema disparidade que existe entre os gêneros no mercado de trabalho, imaginem naquela época.

Em 1910, ocorreu a Segunda Conferência Internacional de Mulheres, em Copenhagen, dirigida pela Internacional Socialista, quando foi aprovada a proposta da socialista alemã Clara Zetkin de instituir-se um dia internacional da mulher, embora nenhuma data tivesse sido especificada. No entanto, se defende que a origem do 8 de março remete sobretudo às manifestações das mulheres russas que, em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro pelo calendário juliano), promoveram uma greve de operárias da indústria têxtil contra a fome, contra o czar Nicolau II e contra a participação do país na Primeira Guerra Mundial.

Leon Trotsky inclusive registrou o episódio como um importante estopim da Revolução Russa, impressionado com a dimensão que a greve tomou, mesmo não tendo sido organizada oficialmente pelos líderes socialistas. Essas manifestações marcaram o início da Revolução de 1917 e, durante o período Stalinista da União Soviética, a data foi utilizada como elemento da propaganda partidária do Partido Comunista.

Nos países ocidentais, o Dia Internacional das Mulheres foi comemorado até meados de 1920, mas por um tempo foi esquecido, até ser retomado pelo movimento feminista por volta dos anos 1960, com a renovação das reivindicações pelo sufrágio feminino e outras demandas do crescente movimento de mulheres. O ano de 1975 foi designado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher e, em dezembro de 1977, o Dia Internacional das Mulheres foi instaurado pelas Nações Unidas como uma data para celebrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Aqui é importante notar o aspecto burguês e Ocidental que a data adquiriu, algo que, atualmente, é cada vez mais questionado por movimentos de mulheres periféricas, indígenas, negras, proletárias e transexuais, por exemplo.

Desafios e demandas

Os desafios são inúmeros: desde combater o aspecto publicitário que a data adquiriu até a autocrítica das nossas demandas. Vou tentar listar alguns pontos importantes, mas que não são os únicos!

1) Respeita as mina!

Sério, imagino que todas estamos exaustas de sofrer a opressão dia a dia, do jeito que só nós sabemos como é, e chegar o 8 de março para sermos “cultuadas” da pior maneira possível. Empregadores, em vez de dar uma rosa ou um bombom para homenagear suas funcionárias, que tal equiparar nossos salários aos dos homens que ocupam os mesmos cargos? Que tal parar com as piadinhas machistas? Que tal parar com o assédio sexual? O mesmo vale para as empresas que lucram em cima da autoestima das mulheres, utilizando-se desse dia como alavanca para suas campanhas publicitárias. Igualmente me dirijo aos companheiros abusivos, que agridem suas parceiras durante todos os outros 364 dias do ano e, no dia 8 de março, acham que estão prestando alguma homenagem levando um buquê para casa. Para todos aqueles que se identificam nesses papéis, fica o recado: respeita as mina!

2) Protagonismo

2.1) Todo esse histórico do Dia Internacional das Mulheres nos traz a necessidade de refletir: dia de que mulher? O feminismo tradicional, sufragista e burguês que se consagrou juntamente com a data precisa ser revisto. É preciso dar voz aos grupos de mulheres mais oprimidos dentro de nossa própria categoria e reconhecer nossos próprios privilégios.
2.2) E por falar em reconhecer privilégios, vamos falar de aliados? Homens que se sentem empáticos com a luta, reconheçam que o feminismo é um movimento de mulheres para mulheres e que deve ser protagonizado por… mulheres. Utilize sua voz não para questionar mulheres, muito menos para tentar ensiná-las como militar e/ou o que deve ser importante no feminismo, mas para se descontruir como pessoa opressora e problematizar atitudes opressoras de homens do seu círculo social. Para nós, feministas, isso já está de bom tamanho. Pode deixar que o resto a gente corre atrás, como sempre fizemos.

3) Violência contra a mulher

Uma das realidades mais brutais que afeta as mulheres no mundo todo é a violência familiar e doméstica. Esse ano a Lei Maria da Penha completa oito anos e você pode ler um pouco mais sobre ela aqui na Capitolina. Recente também é a aprovação do projeto de lei que torna o feminicídio um crime hediondo. Avanços inegáveis, mas que respondem a uma realidade preocupante, basta ver a quantidade de male tears que esses assuntos geram, principalmente nas redes sociais. Mas fato é que o feminismo nunca matou ninguém, enquanto o machismo segue tirando vidas todos os dias.

4) Direito ao próprio corpo

Esse tema tem diversas nuances: vai desde o combate ao assédio sexual no ambiente público até o direito de escolha e ao próprio corpo, o que engloba o aborto. Este último, principalmente, tem ocupado grande importância no movimento feminista. O aborto é mais do que uma escolha — ele segue acontecendo em condições das mais insalubres e a criminalização só serve para aumentar o número de mulheres penalizadas se não com a vida, com o cárcere. O aborto não é uma questão de religião, mas sim de saúde pública. Pelo aborto legal e seguro, pela vida das mulheres!

5) Sororidade e Empoderamento

Muito se tem falado sobre sororidade e empoderamento no movimento feminista. Como qualquer outra pauta, é preciso problematizar a profundidade e o alcance dessas demandas e perguntar: elas estão agregando mulheres negras? E trabalhadoras? E mães? E trans? E com discapacidades físicas? A sororidade não deve ser praticada somente com as mulheres do seu círculo social, mas com todas. Igualmente o empoderamento: ele é individual em muita medida, mas só serve de ferramenta de emancipação quando se dá coletivamente.

Leia + em: 

As mulheres faziam parte das classes perigosas

Neste Dia das Mulheres,  vamos defender nossa voz e combater o medo

Feminismo, Militância e Autocuidado

Oito de março, dia das mulheres

 

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos