6 de março de 2015 | Edição #12 | Texto: and | Ilustração: Dora Leroy
A arte como tratamento

Crescemos com a ideia de que arte é questão de talento, dom, que ou você nasce com predisposição pra isso ou pode desistir do assunto. Uma das coisas que revolucionou esta forma de ver a produção artística foi o surgimento da arteterapia.

Antigamente pouco se pensava na capacidade artística de pessoas com transtornos psíquicos. Elas eram tratadas apenas como pessoas doentes que precisavam de tratamento, e esse tratamento, apesar de ser principalmente para a mente, era induzido pelo corpo.

Lobotomias e eletrochoques, por exemplo, eram rotineiros. Até que uma mulher – a primeira a se formar em Medicina no Brasil (!) –, Nise da Silveira, decidiu se opor às práticas agressivas em vigor na época e passou a procurar alternativas de tratamento para seus pacientes, introduzindo a produção artística como ponte entre paciente e terapeuta.

Nise revolucionou o funcionamento de manicômios ao estimular o senso artístico de pessoas que a sociedade considerava (e ainda considera) como loucas e “sem futuro”. Ao oferecer a alternativa de pintar e desenhar, sua ideia inicial de arteterapia deu origem a área que hoje podemos chamar de Terapia Ocupacional. (Dia 26 vamos poder conhecer um pouco mais sobre essa mulher maravilhosa e o trabalho que ela fez numa pauta escrita pelas capitolindas Bárbara Carneiro e Ana Paula Pellegrino, fiquem ligados! ;)).

Na arteterapia, encontramos a produção de uma obra como fonte de conhecimento do paciente sobre si mesmo, ajudando-o no tratamento, além de ser uma ponte entre paciente-terapeuta (como artista-espectador). Nesse âmbito, a criatividade é interpretada como parte de um fenômeno humano universal e não especial de alguns poucos bem-dotados. Aqui, a obra não interessa pelo seu valor informativo ou estético: o que importa é seu valor como mediador da expressão.

Um exemplo de como a arte pode ser uma forma de lidar com um transtorno ou dor intensa, é a famosa pintora Frida Kahlo. Frida foi uma mulher que, desde seu nascimento, teve que lidar com a dor – desde o distanciamento da mãe na infância, às sequelas da poliomielite aguda que contraiu aos 6 anos, até o acidente que sofreu aos 18 anos que fraturou sua coluna.

Influenciada pelo pai, começou a manejar sua dor expressando-a em seus quadros. Quando não podia andar, um espelho que ficava em cima de sua cama ajudou a manter a mente ocupada ao pintar autorretratos.

Freud também se interessou pelo assunto. Analisou vida e obra de artistas e escritores, à procura de pistas de que aqueles teriam transtornos mentais, convicto de que encontraria “algumas verdades psicológicas universais” nessas descobertas. E fazia bastante sentido: Vincent Van Gogh, por exemplo, diagnosticado com epilepsia, depressão maníaca e psicose grave, foi um dos maiores pintores que já existiram, sendo estudado até hoje; assim como uma infinidade de artistas que, por algum motivo, encontraram a melhor forma de lidar com suas dores e problemas através da arte e construíram, assim, obras maravilhosas.

É inegável a influência dos sentimentos dos artistas em suas obras. Antes do Romantismo, a arte era considerada técnica, e quanto mais perfeita nesse aspecto, mais valiosa era considerada. Depois da quebra desse paradigma, a sociedade passou a avaliar com outros olhos o valor de uma peça artística. As motivações por trás de cada obra puderam se tornar mais íntimas dos autores, e dessa forma, ao usar a arte como válvula de escape, o público tinha a oportunidade de ter um vislumbre de seus sentimentos.

Manifestação artística alguma precisa estar necessariamente ligada a transtornos psicológicos, mas em uma sociedade onde pessoas com tais problemas são quase sempre consideradas incapazes de fazer algo por si mesmas, é importante lembrar a grande influência que a dor e o sofrimento possui no trabalho de artistas como Frida, Van Gogh, Tolstói e Yayoi Kusama – sendo tão importantes que se tornam inseparáveis das obras finais.

Leia mais:
O que é arte terapia?
Museu de Imagens do Inconsciente

Beatriz H. M. Leite
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Beatriz H. M. Leite, 21, é paulistana e mora em Buenos Aires. Além de cartas não enviadas, coleciona cartões-postais e histórias dignas de novela mexicana.

Luciana Rodrigues
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Artes

Luciana tem 20 anos e é de Macapá, no Amapá, no extremo norte do Brasil. Cursa Letras na universidade federal do seu estado e é apaixonada por artes em geral, sendo a dança, o desenho e a pintura suas favoritas. Sonha em mudar o mundo com a ajuda dos seus gatos e tem certeza de que nasceu, além de índia, sereia de água doce.

  • vanessa proença

    Bem legal o texto, Beatriz. Gostei também do “Leia mais”. Estou em fase de fazer o TCC e essas referências são importantes para a temática que estou abordando 🙂

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