8 de fevereiro de 2016 | Ano 2, Edição #23 | Texto: | Ilustração: Bárbara Fernandes
A bioquímica do prazer

O que pode fazer uma pessoa se sentir bem ou mal? O que te faz sentir prazer? Um cheiro de dama da noite, uma barra de chocolate, um beijo da pessoa que você ama? Você já parou para pensar em como alguma coisa pode te fazer sentir prazer ou não?

Nosso cérebro é composto por uma complexa rede que conduz impulsos eletroquímicos em resposta a estímulos do meio em que vivemos. Toda essa frase complexa que parece uma introdução de artigo científico pode ser traduzida da seguinte forma: nós, seres humanos, recebemos estímulos a todo momento e cabe ao nosso cérebro interpretar se eles são bons ou ruins para nós. Um certo estímulo pode gerar tristeza para uma pessoa e felicidade para outra. Então, dizemos que a interpretação desses estímulos é subjetiva, e cada pessoa tem sua própria percepção do que leva à alegria ou à dor.

Como então podemos entender os mecanismos que geram prazer para nós? A primeira coisa que pensamos é que tudo que é bom tem o potencial de nos dar prazer, né? Mas a verdade é um pouco mais complexa que isso. Biologicamente pensando, isto é, pensando em como funciona nosso organismo e metabolismo, o prazer está associado à nossa sobrevivência. Ué, o que isso quer dizer? Digamos que comer uma refeição bem calórica te faça feliz, te faça sentir prazer. Bom, você precisa se alimentar para sobreviver, certo? O prazer que sentimos ao comer então é um mecanismo que secretamente faz você se sentir feliz quando come para garantir que você não vai parar de se alimentar para não morrer de fome. Simples, né? Esse mecanismo é conhecido como recompensa e motivação. Há vários comportamentos em nós, seres humanos, e em outros animais que nos levam a ter ações que asseguram nossa sobrevivência; para isso, há uma “recompensa bioquímica”: a liberação de neurotransmissores que nos fazem sentir bem. Calma, não precisa ter medo dessa palavra! Neurotransmissor é uma palavra sofisticada para nomear uma substância que é liberada nas nossas células do cérebro (os neurônios) e que são responsáveis por nos fazer sentir dor, prazer, felicidade, tristeza. Você já deve ter ouvido falar da serotonina, por exemplo. Quando você faz esporte ou come chocolate, é a serotonina que faz você se sentir bem! Outra substância, a ocitocina, tem sido chamada se “molécula do amor”, pois os cientistas a associam ao conjunto de sensações que sentimos quando estamos apaixonados. Às vezes, chega a ser difícil de acreditar que algumas substâncias químicas viajando na nossa cabeça possam causar tantas emoções!

Porém, algumas respostas não são tão óbvias assim. Por exemplo, quando falamos de algumas drogas que deixam tantas pessoas viciadas. No geral, os mecanismos de recompensa surgiram ao longo da evolução para garantir que tomemos decisões que são benéficas para nós e que vão preservar nossas vidas, como alimentação e reprodução. Normalmente, essas atividades não são viciantes (apesar de que podem existir desequilíbrios bioquímicos que levam algumas pessoas a serem viciadas em comida ou sexo). Quando uma coisa que nos causa prazer se torna um vício, chamamos isso de toxicidade motivacional. Essa expressão quer apenas dizer que alguns estímulos podem ser tóxicos para nós, mas mesmo assim somos motivados a “repetir a dose”. Quando somos viciados numa droga (por exemplo, cocaína), os estímulos que normalmente nos fazem sentir prazer (como comida ou sexo) deixam de ser capazes de nos fazer sentir bem, e nossos cérebros sentem prazer apenas quando são estimulados por essas substâncias.

Para algumas pessoas, estímulos de dor também podem acabar se tornando um vício, uma vez que a percepção de dor e prazer estão fisicamente relacionadas em nossa mente. Isso acontece porque tanto prazer como dor são o que chamados de determinantes de comportamento. Acredita-se que prazer e dor são sensações que “competem” em nossas mentes – quando o cérebro recebe os dois estímulos ao mesmo tempo, qual deles nós processamos primeiro? A resposta é que há uma sobreposição da “rede” de neurônios que processam prazer e dor. Isso quer dizer que muitos dos “caminhos” percorridos no cérebro quando sentimos dor são os mesmos percorridos quando sentimos prazer! Agora muita coisa faz mais sentido, certo? Tente imaginar um ratinho que quer muito comer um pedaço de queijo, mas para poder comê-lo, ele precisa sentir uma dor leve. Você acha que o ratinho vai continuar indo buscar o queijo mesmo que isso implique sentir dor, ou que o ratinho vai desistir de comer? Bom, ele certamente irá buscar o queijo dele! E aquela frase que talvez você já tenha lido: no pain, no gain (sem dor, sem ganho)? As pessoas adeptas dessa filosofia esportiva acreditam que, apesar da dor ao treinar, haverá um ganho maior depois (até porque de fato quando a dor do exercício passa, fica a sensação boa causada pela liberação de serotonina após se exercitar).

Nós nunca paramos para pensar como nosso corpo e nossas sensações funcionam, né? Mas da próxima vez que você comer um pedaço de chocolate, não esqueça: esse quadradinho delicioso está causando uma cascata de reações químicas no seu cérebro para fazer com que você sinta felicidade ao comê-lo!

Carolina Sapienza
  • Colaboradora de Relacionamentos e Sexo
  • Revisora

Carol nasceu em 1991 e mora em São Paulo. Bióloga que queria ser de humanas, gosta de escrever sobre ciência mas mantém o caderninho de poemas sempre na bolsa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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