25 de dezembro de 2015 | Ano 2, Edição #21 | Texto: | Ilustração: Beatriz H. M. Leite
A cada milágrimas: o poder reconstitutivo do choro

“A cada milágrimas sai um milagre” cantaram Itamar Assumpção e Alice Ruiz. E eu não sei se depois de muito chorar sempre virão milagres, mas não tenho dúvida alguma sobre o poder reconstitutivo que o choro pode ter.

Crescemos ouvindo que “meninos não choram” e mesmo que teoricamente meninas chorem, não é muito elegante sair demonstrando esses sentimentos em público. Então há coisas que vamos aprendendo ao nos tornarmos “mocinhas” e uma delas é que não se abre o bocão para chorar por aí ou como de forma tão cruel muitos pais falam: é preciso “engolir o choro”.

Uma das coisas que me deixou mais intrigada há algum tempo foi uma leitura da Heleieth Saffioti, uma socióloga feminista, em que ela diz que por muitos homens não chorarem suas glândulas lacrimais podem vir a ficar atrofiadas. E eu que sempre fui chorona comecei a imaginar o que seria da minha vida sem poder chorar. Confesso que foi um bocado desesperador pensar nisso.

Mas agora pensemos juntas: quais são os momentos que as lágrimas costumam se acumular num cantinho e começar a despencar? Ou em que momentos uma ou duas lagriminhas tímidas caem pelos nossos rostos?

São sempre momentos ligados a muita emoção. Choramos ou porque estamos muito felizes – essa foi uma categoria nova de choro que incorporei na minha vida em 2015 – ou choramos por estamos muito tristes, chateadas ou com muita raiva.

E agora me digam, por que devíamos mesmo segurar essas emoções?

Se as lágrimas vêm nesses momentos de extrema alegria ou de extrema tristeza, o que nos resta fazer? Chorar.

Não há nada de feio ou de fraco em chorar. Ao contrário da ideia disseminada pela sociedade que só os fracos choram ou só os fracos ficam tristes, bem sabemos que ninguém é feliz a maior parte do tempo. Então o meu conselho é: choremos. Não deixemos sentimentos entalarem na garganta, se eles podem chegar até os nossos olhos e tomar uma forma aliviante: a das lágrimas.

E eu acho que é válido chorar onde quer que estivermos, da forma que quisermos. Pode ser no banho disfarçadamente, pode ser na frente do espelho apreciando aquele sofrimento momentâneo, pode ser na cama molhando o travesseiro, no cantinho do quarto escuro, no transporte público, correndo ouvindo música, abraçadas com as amigas achando que vamos morrer, em alguns segundos, de tanto sofrer…

E sabe qual é a melhor parte disso?

Que muitas vezes, depois de chorar um monte, a gente percebe que não tem mais lágrimas para cair por aquela questão. Então, podem vir umas tristezinhas de vez em quando, mas chorar fez parte do processo de cura e pode ser que, em algum momento, nem a tristeza apareça mais.

E convenhamos, nessa época do ano, quando estamos fazendo mil balanços internos, vem aquela vontadezinha de chorar, né? Aproveitemos e coloquemos para fora esses sentimentos todos. Não só agora, mas no ano inteiro, a cada TPM, a cada amargura por dentro ou excessos de raiva.

É claro que desejo para cada uma de vocês mais lágrimas relacionadas a momentos de alegria, quando aquela música linda faz a pele arrepiar, aquelas flores maravilhosas nos são dadas de presente ou quando passamos naquele vestibular que tanto queríamos. Espero que caíam, portanto, mais lágrimas de felicidade do que de tristeza, mas não calemos o choro, não engulamos a emoção, na dúvida deixem os sentimentos tomarem a forma que precisam tomar e quem sabe a cada milágrimas – ou até um pouco menos – testemunharemos um milagre?

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

  • Samantha

    Excelente texto <3 Eu, que sou uma dessas que não me permito chorar quase nunca, quero conseguir liberar as lágrimas sempre que der vontade.

  • http://minhajubadeleao.tumblr.com/ Amanda Argilero

    Sou daquelas que chora muito quando está sozinha, mas na frente das pessoas eu seguro. Não quero ninguém me olhando e fazendo perguntas, pois muitas vezes meu motivo de choro pode ser por qualquer simples, até um comercial de tv que me faça ou não lembrar de algo

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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