18 de abril de 2016 | Edição #25 | Texto: | Ilustração: Bárbara Carneiro
A celebração da morte
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Certa vez comentei algo sobre minha própria morte e recebi como resposta apressada um “Credo!” da pessoa com quem eu conversava. Eu tinha falado de algo muito prático, talvez informando que queria que, morrendo, meus órgãos fossem doados. Minha mensagem foi transmitida, mas fiquei encafifada com aquele “Credo!”. A simples menção a uma coisa – a mais natural das coisas – já causa um mal-estar imediato. Mas será que a morte é sempre um tema difícil de tratar?

Pensando neste assunto, telefonei para um amigo mexicano e ele topou me ajudar no assunto, me contando como é a celebração de Dia dos Mortos em seu país. Saul já tinha me contado que, de fato, as fotos coloridas que enchem a internet nos primeiros dias de novembro são retratos fiéis às comemorações mexicanas. O país todo celebra (e a palavra “celebrar” vem da ideia de honrar) as crianças e os adultos que morreram nos dias 1º e 2 de novembro.

Dessa vez ele ainda me contou mais detalhes. Nesta época, Saul celebra com seus familiares. Os enfeites, as cores, os alimentos, as danças são representações da morte ou da ideia de que as almas aproveitam esse período para visitar suas famílias. Há uma mistura, entre os mexicanos, de alegria e assombro, que convivem com a melancolia de lembrar que aquelas pessoas já não estão presentes. Na casa dele, na região costeira do país, eles colocam uma oferenda aos mortos com alimentos e objetos dos quais o morto a ser lembrado gostava; podem ser comidas, frutas, doces, bebidas (inclusive alcoólicas), cigarros e o famoso “pão de morto”. Quando a alma esperada é de criança, colocam-se doces e brinquedos.

Há famílias, me contou Saul, que levam alimentos ao cemitério e fazem a refeição ao redor da tumba do morto, com um piquenique. Aproveitam o dia para limpar e enfeitar o lugar e mariachis (aqueles músicos populares mexicanos) são contratados para tocar nessa “festa”. Mas daí eu perguntei “beleza, mas como você vê essa relação da morte como uma festividade? A coisa da tristeza e tal”. Saul me respondeu que se trata mesmo de uma festa, porque, afinal, se faz um banquete e se espera que as almas dos mortos voltem ao lar e ali se hospedem por dois dias. Esses costumes, para ele, ensinam a respeitar a morte e a entendê-la como algo natural e inevitável.

Há quem defenda que a vida é uma coisa sem sentido que simplesmente chega ao fim. Outros, acreditam que a vida acaba neste plano, mas continua em outro lugar. Às vezes, a vida pode voltar a acontecer. A nossa dificuldade em tratar do assunto parece ser dupla: tanto por não sabermos qual é a real da nossa existência quanto por considerar que pessoas queridas vão embora.

Não falar sobre o assunto para evitar o sofrimento é uma tática comum. Mas transformar a morte em tabu talvez seja uma maneira de dificultar nossa compreensão sobre ela, e tem quem diga que o nosso medo de conversar sobre a própria morte gera ansiedade nos familiares que não sabem bem o que a pessoa morta desejava para seus últimos momentos de vida e para seu corpo no período seguinte.

De alguma forma, eu invejo um pouco Saul e sua percepção sobre a morte. Para mim, esse assunto é sempre muito sério. Estou acostumada com as pessoas falando sobre a morte de maneira sóbria, mas eu gosto de saber como as pessoas – e outras sociedades – lidam de forma diferente perante um assunto tão universal. Embora pra gente seja geralmente um tema complicado de colocar em uma conversa, há filmes como os do Tim Burton (tipo O estranho mundo de Jack, Os fantasmas se divertem e Noiva cadáver) em que o mundo dos mortos parece mais divertido até do que o mundo dos vivos. Nesses filmes, os mortos parecem ter uma “vida” mais genuína do que os que ainda estão do outro lado com suas ambições e desejos mesquinhos. De repente, se a morte não for parecida com essas festas dos filmes, deve ser legal ser mexicano e voltar para festejar sua própria morte com o pessoal que ficou. E ainda reencontrar comidas gostosas nesse retorno!

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.