11 de abril de 2016 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração: Isadora M.
A cool girl e as representações de gênero na mídia

Tanto no cinema, quanto na TV, e até na vida real, estamos acostumados a classificar as pessoas por estereótipos, pondo os indivíduos em panelinhas. Parece que nós só conseguimos identificar as pessoas por seus rótulos e o que eles definem. Um dos que tem me chamado mais atenção ultimamente é o arquétipo da ‘cool girl’.

O que é a cool girl? É aquela mulher com hábitos ditos “masculinos”: ela é liberal no sexo, não gosta de compromisso, toma uísque e ama cerveja, come muito e ainda mantém aquele tamanho 38. Ela não liga quando aparece uma piada machista, ela só ri e até concorda, porque ela é a cool girl. Ela não faz parte do senso comum feminino, ela inclusive se acha superior a todas essas frivolidades.

O termo cool girl nasceu do livro Garota exemplar (Gone Girl, 2013) da Gillian Flynn, em um dos desabafos da personagem principal, Amy. Para mim, a cool girl é uma evolução da manic pixie dream girl. Sim, aquela menina, que não é como as outras, com suas diferenças que faz dela especial. Analisando pelo lado do roteiro, as duas se assemelham muito porque elas sempre se encaixam como par dos sonhos dos protagonistas masculinos.

Dois casos de cool girl anteriores a Amy me surpreendem bastante no quesito representação. Um deles é a Andie de Como perder um homem em 10 dias (How to Lose a Guy in Ten Days, 2003). Para quem não viu o filme, a Andie é uma jornalista que decide fazer um artigo para a revista na qual trabalha dando dicas de como afastar um cara em dez dias. Enquanto o filme vai passando, vamos vendo que todas as atitudes que a personagem acha que vão fazer o homem sair correndo são atitudes ditas “femininas”. Ser muito emotiva, chorar por qualquer coisa, cuidar de plantas e por aí vai. Ela caçoa e faz pouco caso das mulheres mais femininas, dizendo que é a pior coisa que podem fazer é ser assim.

Outra personagem que age de maneira bem parecida é a Robin Scherbatsky da série americana How I Met Your Mother (2005). Como ela foi criada por um pai cujo desejo era ter um filho homem, ela adota características que são extremamente ligadas ao sexo masculino em uma tentativa frustrada de agradar ao pai. Ela é um dos caras, uma mulher que pode facilmente ser reconhecida como um amigão, mas ao mesmo tempo ela é sexy e gata.

Confesso que tenho um carinho muito grande pela personagem, mesmo que em vários momentos tenho que dar o braço a torcer e dizer “miga, não tá dando para te defender”. Ela zomba das outras mulheres que tem hábitos de “mulherzinha”, diz que é tudo uma baboseira, mas ao mesmo tempo ela tem momentos de quebra nesse padrão cool girl. Ela deseja ser só mais uma delas, desejando com um casamento, preocupada com a cor do guardanapo da cerimônia entre outras coisas que ela considera fúteis.

A posição dessas cool girls de diminuir qualquer mulher que seja feminina é um desserviço para as mulheres e o feminismo de forma geral. Nossos anseios, nossos gostos e como nós respondemos ao mundo é uma forma particular de mostrar o que nós somos de verdade. Isso não deveria ser modificado pelo que a sociedade considera aceitável ou não. E muitas vezes as mulheres recorrem a esse estereótipo para serem aceitas, fingindo que vivem melhor assim.

O que acontece é que, mesmo recorrendo ao modo cool girl de ser, nem sempre ele vai adiantar em 100% da sua vida. Isso é ainda pior quando a cool girl dá aquela escorregada, mostrando que ela surpreendentemente tem sentimentos e pode mudar a sua opinião, porque aí ela é questionada sobre ser realmente daquele jeito. A mulher acaba caindo em um tipo de ostracismo pela mentira que ela supostamente contou, por não ser mais quem ela dizia ser.

Além de ser um posicionamento totalmente execrável pelo simples fato de dividir as mulheres em castas de aceitação, ele ainda corrobora com o binarismo de gênero que tanto agride a nossa sociedade como um todo. Não deveria existir uma atitude feminina ou uma atitude masculina, devia existir atitudes relacionadas ao ser humano, não importa o gênero ou sexualidade ao qual elas são vinculadas.

No final das contas, o que acontece é que sempre qualquer coisa relacionada ao gênero feminino vai ser colocado como ruim pela sociedade. Um exemplo é o próprio termo mulherzinha, que já vem com uma conotação extremamente pejorativa na adjetivação de qualquer coisa. O que precisa ser feito é a quebra desse pensamento.

É ok você ser mulherzinha, amar passar maquiagem, usar coisas floridas e rosa. Isso não vai te fazer menor ou pior. Mas é ok também você amar cerveja, futebol, uísque. O que não pode acontecer é essa cisão de gênero que acontece desde sempre, muito menos esse retrato nas obras de ficção que diminuem uma mulher em prol da outra. A cool girl é qualquer uma de nós, para qualquer pessoa, ou para pessoa alguma além de você mesma: o que importa é que você seja quem você quer ser.

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

  • Valentina Pompermaier

    Não sabia que existia um termo pra isso. Eu já tentei ser assim, e se bobear ainda tento as vezes. Mas cada vez mais da de perceber o quanto isso é ridículo e vai de encontro a tantas coisas que eu prego na vida.
    O feminismo vem me mostrando todos os dias os preconceitos que eu tenho e me ajuda a desconstruir preconceitos que eu nem sabia que existiam. Obrigada por me trazerem tantas visões diferentes, tantos conceitos novos e por me darem tanta força pra acreditar na igualdade de gênero! <3

  • Bianca

    Ela também é a “namorada legal” que não vê problemas em deixar o namorado livre pra jogar o futebol dele ou sair com os amigos sozinho quantas vezes quiser sem dar a menor satisfação. Pq mulher gurdenta, ciumenta e insegura pega mal né? Ela tbm adora jogar videogame, comer besteira e é linda sem maquiagem. 🙂

  • Bianca

    Ela também é a “namorada legal” que não vê problemas em deixar o namorado livre pra jogar o futebol dele ou sair com os amigos sozinho quantas vezes quiser sem dar a menor satisfação. Pq mulher gurdenta, ciumenta e insegura pega mal né? Ela tbm adora jogar videogame, comer besteira e é linda sem maquiagem. 🙂

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos