4 de junho de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração:
A criação de Margo Roth Spiegelman

 

– o texto contém spoilers! –

Cidades de Papel, à primeira vista superficial, é a história do mito de Margo Roth Spiegelman. O livro escrito por John Green e lançado em 2008 ganhou uma versão para os cinemas em 2015 e é fácil achá-lo em qualquer livraria.

Margo Roth Spiegelman cursa o último ano da escola e mora em um subúrbio de Orlando, no estado da Flórida nos Estados Unidos. Diferente de seu vizinho e ex-amigo de infância, Quentin Jacobsen, ela faz parte do grupo de adolescentes populares da escola. Mas não é só isso: Margo Roth Spiegelman é diferente. Uma vez, por exemplo, ela fugiu de casa e deixou as pistas escritas numa sopa de letrinhas.

Na verdade, Cidades de Papel é a história de Quentin Jacobsen. É a história de um garoto que acredita que o grande milagre de sua vida foi ter se tornado vizinho de Margo Roth Spiegelman. Esta é a primeira informação que descobrimos sobre Quentin e também sobre Margo Roth Spiegelman. Ou pelo menos a Margo Roth Spiegelman que habita a imaginação de Quentin.

Um mês antes da formatura, Margo convoca Quentin para uma missão. Onze missões que envolvem, entre diversas coisas, se vingar das pessoas que Margo achava que eram seus amigos. Durante uma noite eles rodam a cidade e os arredores seguindo o plano desenhado por Margo. Esse episódio faz Quentin acreditar que ainda existe uma chance de amizade ele entres ou até mais que isso – já que nessa altura não é novidade para o leitor a paixão que ele sente por ela.

No dia seguinte, Margo Roth Spiegelman não vai a escola. Quentin teme que algo ruim tinha acontecido a ela ou mesmo que ela tenha morrido. Ninguém sabe qual é o paradeiro dela e a polícia não pode fazer muito, já que ela é maior de idade.

Como Quentin é aparentemente a última pessoa ter tido contato com Margo a polícia vai interrogá-lo, mas ele não tem muito a oferecer as autoridades. Nesse mesmo dia, ele nota um pôster na janela de Margo. Um pôster que nunca esteve lá antes. Quentin, junto com seus amigos Ben, Radar e Lacey, começa a encontrar pistas que eles acreditam que vá levá-los até Margo Roth Spiegelman.

Quentin realmente acredita que ela deixou pistas para ele a seguir. Assim acompanhamos a trajetória de Quentin atrás de Margo Roth Spiegelman.

Aos olhos de Quentin, Margo Roth Spiegelman é quase uma entidade. Ele claramente tem uma visão idealizada e intocável dela. O problema de pensar em alguém nesses termos é que, quando fazemos isso, tiramos não só a autonomia da pessoa, mas também toda a humanidade dela.

Não sabemos quem é Margo Roth Spiegelman, porque só conhecemos ela pelos olhos de Quentin. Ele, além de nosso personagem principal, é nosso narrador. Ela é um milagre, ela é uma pessoa diferente das outras, ela quer que nós a sigamos, ela espera por nós.

Essa visão idealizada não é ruim apenas para Margo, mas para o próprio Quentin. Ela deixa de ser uma pessoa como qualquer outro; ele constrói alguém que não existe e praticamente pede para que tudo isso acabe numa grande frustração – isso sendo otimista.

John Green, em alguns momentos pontuais do livro, nos dá a indicação de que Quentin teria algum tipo de problema de lidar com a expectativa, com a diferença entre a forma como espera que os outros ajam e o que realmente acontece. Talvez todos nós passamos por isso de uma maneira ou outra, o fato de que projetamos coisas nas pessoas de maneira quase que sem querer.

O livro é sobre Quentin. Sobre sua relação com o mundo, com os amigos, a família, o futuro… e inevitavelmente Margo Roth Spiegelman.

Muitos apontaram a construção da personagem Margo Roth Spiegelman como uma Manic Pixie Dream Girl. O que, em outras palavras, é uma personagem que existe numa história apenas para dar sentido à vida do personagem. O protagonista é um cara tímido, daí ele conhece essa menina que é engraçadinha, estranha, tem gostos diferentes e acaba tirando ele da concha e mostrando um mundo novo. Em 2008, mesmo ano de lançamento do livro, John Green escreveu em seu site sobre isso:

“Margo é definitavamente apresentada por Q como uma Manic Pixie Dream Girl no começo de Cidades de Papel. Totalmente. Mas isso vem do fato de que alguns garotos realmente acreditam em MPDG; não é um argumento que elas existam ou que Margo seja uma. Cidades de Papel é um livro sobre – pelo menos em partes – sobre a mentira das MDPG, e o poder da mentira – que machuca não só o observado como observador. Para descobrir o destino de Margo, Q deve imaginar Margo como uma pessoa, e abandonar sua fantasia de MPDG. (…) Então, se alguém termina de ler Cidades de Papel acreditando em MPDG, ou que o livro continua a perpetuar o terrível mito de MPDG, então Cidades de Papel é um fracasso, pelo menos nesse ponto.” (tradução nossa, rs)

Essa acusação vem do fato de que a personagem serve à narrativa do nosso narrado e faz com que ele saia de sua zona de conforto. O dia das onze missões, o fato de que ele e seus amigos fugiram da cerimônia de formatura e embarcaram numa viagem interestadual em que nenhum deles sabia se ia dar certo ou não… o livro deixa bem claro que há diferenças entre Margo e Quentin. Ele gosta da rotina, de seguir o que se espera que ele faça (escola, faculdade, trabalho, família, filhos etc) e ela se vê presa nas expectativas e num mundo onde nada é real – assim como as cidades de papel.

E então, depois de semanas procurando por pistas e tentando desvendar o mito de Margo Roth Spiegelman, Quentin, Ben, Radar e Lacey a encontram numa cidade de papel no estado de Nova Iorque. A primeira reação de Margo ao ver os colegas de escola é de raiva. Ela não pediu para ser seguida. Mesmo tendo deixado uma pista DENTRO DO QUARTO de Quentin, ela nunca imaginou nada daquilo. Talvez sim, ela esperasse que acabassem achando-a naquele lugar, mas não tão cedo. Talvez quisesse já estar longe quando isso acontecesse.

Agora conhecemos uma visão u  pouco mais próxima da verdadeira Margo Roth Spiegelman. Descobrimos porque ela fugiu e como fugiu. Mas também ficamos sabendo que tanto Quentin quanto Margo tinham ideias superficiais um sobre o outro. Que a Margo aventureira também é uma jovem inconsequente e que tirou um certo proveito do mito de Margo Roth Spiegelman.

Nessa altura do livro, Quentin há tempos já se deu conta de que Margo é mais que a Margo Roth Spiegelman de sua cabeça. Que ela é uma pessoa assim como ele e não sua imaginação. Mas essa realização não o impediu de continuar procurando as pistas e ir até ela.

Talvez Margo Roth Spiegelman não seja mesmo uma Manic Pixie Dream Girl e que de maneira resumida e grosseira o livro é sobre lidar com as expectavivas que colocamos nos outros. Não tem grande moral no final do livro. Os dois acabam ficando, mas cada um vai para seu canto. Quentin vai para a faculdade e Margo vai para onde ela acha que pode se tornar uma pessoa de verdade.

Só que eu não consigo pensar: a falta de lição que ela ensina para ele de uma maneira também não acaba sendo uma lição? Ele não precisou encontrá-la para desmistificar Margo Roth Spiegelman, mas nada disso o impediu de ir até onde achava que ela estaria. A curiosidade e talvez até uma esperança fez com que todos se aventurassem nessa viagem.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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