9 de maio de 2016 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
A falta de representatividade em Cannes e em grandes festivais

O dia foi 14 de abril de 2016. Pros cinéfilos de plantão é um grande dia: a lista dos filmes indicados a Cannes finalmente é revelada. Um dos maiores festivais de cinema do mundo, que se encontra em sua 69ª edição, selecionou 49 filmes para a exibição, vinte deles dentro da competição oficial pela Palma de Ouro. Foi de grande alegria observar que após oito anos, um filme brasileiro, rodado em solo carioca e falado em português finalmente iria competir.

O filme de Kleber Mendoça Filho (O Som ao Redor, 2012), Aquarius, marca a volta do Brasil à competição oficial de Cannes. O longa, estrelado por Sônia Braga, conta a história de uma mulher viúva, jornalista aposentada e mãe de três filhos. Ela vive em um apartamento em Boa Viagem, junto a seus apetrechos, mas com um diferencial: ela possui o dom de viajar no tempo.
É importantíssimo ver o papel de uma mulher como atriz principal de um filme, mas também é necessário salientar que, apesar disso, há ainda uma falta gritante de representatividade dentro de grandes festivais. O festival de Cannes é apenas um exemplo, já que ocorrerá no próprio mês de maio (11/05 até 22/05). Por ser um fato recente, e de grande influência mundial, podemos usá-lo para ilustrar essa ausência de mulheres dentro do mercado cinematográfico. Cannes chamou a atenção justamente por, na competição oficial, dos vinte filmes indicados apenas três são dirigidos por mulheres, ou seja, 15% dos filmes. E nenhum deles por mulheres negras. No ano passado, foram apenas dois. Se isso é chamar de progresso, continuamos ainda na estaca zero para a busca de uma maior representatividade dentro desta indústria. Ao vermos o Oscar, em que grandes (ou os maiores) filmes de Hollywood participam, sabemos que as oportunidades para mulheres dentro de tais estúdios é bem restrita – algo que precisamos continuar lutando por uma melhora. Mas mesmo quando olhamos para Cannes, vemos algo análogo: mesmo com filmes que geralmente têm um orçamento muito mais baixo e muitas vezes financiados pelos próprios países – geralmente, pela cobrança de impostos para as respectivas áreas –, as oportunidades são igualmente limitadas.
O baque parece ser mais forte observado por este parâmetro: não é apenas o dinheiro que entra em jogo, mas sim toda a perspectiva de uma sociedade embutida de sexismo e racismo. Após 2015, em que houve uma grande revolta e vários protestos nas redes sociais em relação à subvalorização das mulheres dentro da produção audiovisual, havia uma chama de esperança que em 2016 houvesse alguma melhoria. A campanha #SeeHerNow, por exemplo, estimou que, de 2005 até 2015, dentro da competição oficial de Cannes, apenas 9% dos filmes foram dirigidos por mulheres.
Observamos sim mulheres atuando, mas geralmente dirigidas por homens – até quando trata-se de assuntos importantíssimos que acabam por ultrapassar a linha da fala e de quem pode falar sobre aquilo. Apesar de fundamental a atuação destas mulheres, é necessário olharmos de uma forma macro para toda a produção audiovisual (que inclui uma equipe com inúmeros setores), e perceber que outros papeis também precisam ser preenchidos por mulheres, e serem valorizados dentro de grandes festivais.

 

OS FILMES:

 

  • Toni Erdmann – Maren Aden:

Conta a história de um pai que tenta se reconectar com a filha já crescida. Na história, acompanhamos os passos do pai, que vai visitar a filha, mas percebe que esta ficou “muito séria”, e que não liga mais para suas piadas e brincadeiras.

Maren Aden é uma diretora alemã premiada com o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlin (Berlinale) pelo seu filme Todos os Outros (Alle Anderen), de 2009.

 

  • American Honey – Andrea Arnold:

Conta a história de uma garota adolescente que se junta em uma viagem com uma equipe de venda de revistas e acaba por atravessar o Meio-Oeste americano. É o primeiro filme americano de Arnold e conta com a atuação de Sascha Lane (atriz novata), Arielle Holmes (Heaven Knows What, 2014) e Riley Keough (Mad Max: estrada da fúria, 2015).

Andrea Arnold é uma diretora inglesa bastante premiada. Em 2005 ganhou o Oscar de melhor curta-metragem pelo filme Wasp e em 2006 e em 2009 ganhou o prêmio do júri em Cannes pelos filmes Red Road e Fish Tank, respectivamente.

 

3) From the Land of the Moon (Mal de Pierres)– Nicole Garcia:

Conta a história de uma mulher durante as duas décadas após a Segunda Guerra Mundial, estrelado pela atriz francesa Marion Cotillard.

Nicole Garcia é uma diretora e atriz francesa conhecida pela direção em Um Belo Domingo (Un beau dimanche, 2013) e pela atuação em My American Uncle (1980) e Little Lili (2003).

Sofia Brayner
  • Colaboradora de Cinema & TV

Sofia tem 18 anos e mora em São Paulo, apesar de ter um coração alagoano fruto de sua moradia de 7 anos na capital. Estuda Cinema e tenta escrever ora ou outra umas histórias mirabolantes que aparecem na sua cabeça fantasiosa. Ela canta Beatles, dança sem motivo, é louca por jogo de terror e fala demais. Ah, e sonha, sonha muito...

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos