29 de abril de 2017 | Colunas, Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Bruna Morgan
A família de mozão: por que precisamos de aceitação
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A família de mozão: por que precisamos de aceitação Conversando com uma amiga que há pouco tempo começara a namorar outra menina depois de anos só se relacionando com meninos, ela me contou que antes nem fazia questão de conviver com os pais do ex, inclusive já morria de nervoso só de pensar no possível constrangimento, embora os pais dele gostassem muito dela e ela deles. Imagino que você, se for hétero ou só tenha namorado meninos até agora, talvez já tenha vivido essa sensação também. E eu entendo, porque conhecer a família do boy pode sim acarretar umas situações estranhas, tipo aquele parente que te puxa no canto pra dizer “cuida bem dele, hein!” ou, dependendo dos costumes e valores da família, já chegarem falando de casamento e te colocando numa posição constrangedora.

Voltando à história da minha amiga: no atual relacionamento (homossexual, desta vez), ela também é muito querida pelos sogros, só que agora é diferente pra ela. Em vez de ter aqueles sentimentos não muito agradáveis ao pensar no convívio com eles, ela fica de coração quentinho quando vê que é bem-vinda na família e adora estar com eles.

Quando ela me contou essa história, acabamos tendo umas conversas e reflexões bem interessantes sobre as diferenças entre relacionamentos hétero e homossexuais​.

Primeiro, acho importante esclarecer que dizer que um relacionamento é heterossexual ou homossexual, não quer dizer que as pessoas deste relacionamento são uma coisa ou outra. Falo especificamente do casal – se um homem namora uma mulher, este é um relacionamento hétero. Se o homem no caso é bissexual e a mulher hétero, não é o que está em questão aqui. Isso porque, quando essas pessoas estão juntas na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, é como elas serão lidas, ou seja, vistas pela sociedade. Ninguém para as pessoas na rua pra perguntar “oi, qual sua orientação sexual? Só pra eu saber se posso te discriminar”, porque não existe um Regulamento da Sociedade LGBTfóbica™ pra ditar quando ou como alguém vai ser discriminado. A sociedade julga o que ela consegue ver, e ela é heteronormativa​, o que quer dizer que a “norma”, como o próprio termo diz, é ser heterossexual. Ou seja, o “normal” (que quer dizer “conforme a regra”), é ser hétero e as outras orientações sexuais fogem a esta regra. Por isso que há tanto preconceito e discriminação contra a população LGBTQ+.

Meu objetivo aqui é explicar por que a aceitação da família é tão importante pra nós, que vivemos relacionamentos homossexuais. Quando eu contei pra minha mãe a história da minha amiga e que ia escrever sobre isso, ela logo perguntou pro meu irmão (hétero) o que ele acharia caso ela não aceitasse algum relacionamento dele, e ele disse “ah… não ia ligar não”. Logo depois, ela perguntou ao meu outro irmão (gay) como ele ia se sentir se ela não aceitasse o namorado dele, e ele disse que ficaria muito triste e magoado. Na mesma hora, ficou clara a diferença. Eu também ficaria muito magoada com a minha mãe se ela não aceitasse alguém que eu amo. E claro que pessoas num relacionamento hétero também podem ficar magoadas com os pais se eles não aceitarem seus namorados ou namoradas, mas meu irmão hétero, por exemplo, eu sei que não se importaria com isso porque a aceitação em outros lugares viria muito mais facilmente.

Isso tudo eu falo baseada na minha experiência pessoal né, mas imagina a dificuldade pras pessoas que não são assumidas, ou acabaram de se assumir recentemente. A violência já é diária, a todo momento nós e as pessoas ao nossos redor são condicionadas a pensar que nossa maneira de amar é errada. Se a pessoa não é hétero mas não conta pra ninguém, geralmente é por medo da reação das pessoas, principalmente das pessoas que ela ama, inclusive a família. Aliás, é muito comum ver pessoas que são assumidas nos meios sociais, escola, faculdade etc mas não pra família. E o medo é diferente, nesse caso, porque só pensar na possibilidade de deixar de ser amado pelas pessoas que te criaram pode ser muito assustador. A gente vive ouvindo por aí que amor de família é incondicional, que é pra sempre e tudo mais, mas imagina perceber que no teu caso não é bem assim. Amor não é também aceitar a pessoa do jeito que ela é? Se o amor da família não for assim, onde mais encontrá-lo? E a aceitação da família não é importante só pra quem faz parte dela, mas pra(o) parceira(o) desta pessoa também. Enquanto casais hétero podem não fazer a menor questão de comparecer juntos a eventos de família, casais homo estão vibrando de alegria a cada vez que são apresentados como “namorado do meu filho” ou “namorada da minha filha” nesses eventos. É muito importante que tenhamos um espaço que nos garanta amor, segurança e conforto, porque não podemos contar com isso em outros lugares.

Pessoas não-hétero convivem diariamente com o medo. Medo de ser discriminado(a), violentado(a) das mais diversas maneiras e até mesmo de morrer. É triste, mas é a realidade em que vivemos. Quando eu dou a mão pra minha namorada na rua, é porque gosto de estar perto dela e me sinto bem assim, mas não posso evitar imaginar os riscos que uma simples demonstração de afeto pode acarretar. Quando eu assumi meu primeiro relacionamento com outra menina, também estive exposta a muita discriminação dentro da escola, que era um lugar em que eu me sentia muito segura até então. E é disso que a gente precisa – segurança. O papel da família é muito importante na aceitação de relacionamentos homossexuais porque nós já não somos aceitos na maioria dos lugares. Família é pra ser sobre amor e proteção, e deve ser o primeiro lugar em que procuramos abrigo quando o mundo fora dela não é seguro.

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Laura Miranda
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Lau tem uma crush na cidade de São Paulo, mas só trocaria o Rio por Salvador. Tem 19 anos e cursa Letras com habilitação em Literatura, gosta muito de falar e aos 14 anos percebeu que queria mesmo ser professora - hoje faz isso voluntariamente em pré-vestibulares comunitários, além de uns trabalhos aqui e ali com cenografia e figurino. Foi auto-declarada rainha da internet em 2013 e acredita muito no poder político dos memes. Se assumiu lésbica com 15 anos e por isso entende algo sobre adolescência não-heterossexual, então tá disposta a conversar contigo se você não tiver coragem de conversar com mais ninguém sobre isso - pode mandar e-mail pra mrndlaura@gmail.com

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