13 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
A felicidade não é normal

Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

[Os Mutantes – “Balada do Louco”]

Dizem que somos loucas por sermos felizes. Quer dizer, muitas vezes os jeitos que encontramos de sermos mais felizes podem ser vistos como loucura. O termo “loucura” é usado no cotidiano para denotar qualquer coisa “fora do normal”; não se refere a transtornos mentais severos e é fundamental repensar seu uso. A ideia de loucura é oposta à ideia de normalidade. Quando o nosso modo de vida é visto como anormal ele pode ser taxado como “louco”, basicamente. Mas… O que é ser normal mesmo? Quem define o que é normal e o que não é? De onde vem a tal normalidade?

A palavra “Normal” vem do grego normalis que significa “de acordo com a regra” e, lá na Grécia Antiga, norma era o nome de um esquadro para marcar ângulos retos (ah!, a geometria…). Normal se refere, na geometria e em todo o resto, também ao que “segue o padrão”. Portanto, a tal da normalidade tem tudo que ver com normatividade: seguir as regras, atender ao padrão e estar de acordo com o esperado.

As normas da nossa sociedade foram instituídas em um processo histórico no qual o nosso sistema econômico, social, político e cultural foi se conformando (e transformando) para chegar no que é hoje. Nesse sistema, existem tanto leis quanto normas sociais (leis que não estão escritas, mas que nos são impostas igualmente) que ajudam a manter sua ordem. Dica: desde que o sistema continue o mesmo e bem ordenado, ele segue racista, machista, homo-lesbo-bi-transfóbico, etc., traduzindo: nocivo.

Alguns exemplos de normas sociais (na cultura ocidental): heterossexualidade é natural, homens não devem usar saia no cotidiano (a não ser que seja por religião ou tradição), devemos comer com talheres, mulheres devem se depilar, etc. Essa vai pra quem diz que “ninguém é obrigada a se depilar, não tá escrito em lugar nenhum”: pois é, as normas sociais são impostas de diversas maneiras, bastante eficazes, que não requerem nenhum parágrafo na Constituição para sua existência. Shazam! Ninguém escreveu que a gente devia se depilar, mas não se depilar já é vandalismo, né?

Que fique claro: não se nasce normal, torna-se. Mas na verdade verdadeira, a gente sabe que ninguém é normal nem que se esforce muito (pra seguir as regras). Bom, se ser normal também é seguir o padrão predeterminado, o que acontece se eu não me identifico com o padrão? O que acontece se eu, inevitavelmente, estou fora do padrão?

Às vezes, só por você se vestir diferente ou não gostar do “hit do momento”, já é taxada como estranha. Em outros momentos, você é estranha porque gosta de alguém do mesmo gênero ou porque curte andar descalça pela rua enquanto canta “É o Tchan”. Seja uma ou outra, o que importa é que a tal “normalidade” não promete nada mais do que estar de acordo com as regras, então o risco de que você precise passar por cima delas para estar mais contente consigo mesma… É bem grande.

É crucial não se reprimir por conta do que dizem que é “certo” e “normal”, não deixar com que te botem pra baixo por ser estranha. Se encaixar no que esperam de você dói mais do que lutar para ser você mesma – mas ninguém disse que ia ser fácil. Lembra daquela dica lá em cima? Então: não reproduzir certas normas também ajuda que outras pessoas possam ser elas mesmas. Se você deixa de reproduzir lesbofobia, você e quem está ao seu redor se sente mais a vontade para explorar a própria sexualidade para além da norma.

Eu deixaria aqui, para finalizar, uma recomendação: tente ver em cada ação sua até onde te falaram que é assim que se faz e até onde é assim que você quer fazer: desde relações sexuais até o tamanho da sua unha. Às vezes a gente precisa experimentar pra ter certeza do que a gente gosta e realmente nos faz bem. Não custa nada investir no seu lado anormal, ou melhor, tentar descobrir quem você realmente é, sem tantas imposições.

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz

Beatriz H. M. Leite
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Beatriz H. M. Leite, 21, é paulistana e mora em Buenos Aires. Além de cartas não enviadas, coleciona cartões-postais e histórias dignas de novela mexicana.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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