16 de março de 2017 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
“A filha perdida”: mergulhando no interior de uma personagem que é mãe
Ilustração por Gabriela Sakata
Ilustração por Gabriela Sakata

Ilustração por Gabriela Sakata

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender”.

A frase acima foi retirada do livro “A filha perdida”, de autoria de Elena Ferrante, pseudônimo de uma romancista italiana, a qual não se conhece a verdadeira identidade. Ferrante ficou consagrada como uma das mais importantes escritoras contemporâneas a partir da escrita de sua série Napolitana, na qual conta, em quatro livros, a história de duas amigas desde a infância até a velhice. Vale dizer que a série é incrível, daquelas que nos fisgam e só voltamos a viver depois de conseguir terminar de ler. Esse já seria, para mim, motivo suficiente para conhecer essa autora, mas não para por aí.

O reconhecimento da escritora, dentre outros motivos, se dá pela consistência de sua escrita e a forma que consegue mover-se por meio do interior das personagens femininas, transformando os sentimentos e pensamentos de suas personagens em universos profundos.

É de modo a trazer à tona esse universo, que dialoga com questões que se pautam na feminilidade, que ela escreve também “A filha perdida”. Dessa vez, o foco está na história de Leda, uma mulher acadêmica, prestes a fazer 48 anos, divorciada, que tem duas filhas – uma de 24 e outra de 22 anos – e que passa as férias em uma praia sozinha, após suas filhas irem morar com o pai em Toronto.

A viagem até a praia permite que Leda faça diversas imersões em si mesma, o que consequentemente pode levar as leitoras a mergulharem em si mesmas. Algumas de suas imersões se dão por retomar a voz de sua mãe e os cuidados para que ela não entrasse no mar na infância e outras pelo contato que estabelece com Nina, uma jovem de vinte e poucos anos, que tem uma filha chamada Elena, que por sua vez tem uma boneca chamada Nani.

Observar os cuidados de Elena com sua boneca e o quanto mãe e filha parecem se encaixar perfeitamente nesse papel, faz Leda sentir-se mal em diversas ocasiões. Lembrando-se inclusive do quanto a sua mãe não gostava de brincar com ela e o quanto ela se esforçou para fazer o inverso:

“Minha mãe nunca esteve disposta às brincadeiras que eu tentava fazer com ela. Logo ficava nervosa, não gostava de bancar a boneca. Ria, se esquivava, ficava com raiva (…). Já eu, não. Como adulta, sempre tentei me lembrar do sofrimento de não poder mexer nos cabelos, no rosto, no corpo de minha mãe. Por isso fui pacientemente a boneca de Bianca nos seus primeiros anos de vida”.

Entretanto, mesmo tentando ser pacientemente diferente de sua mãe, a maternidade trouxe-lhe pesares que pareciam não condizer com o que se espera da mulher que tem filhos. Os momentos em que ela observa Nina, Elena e Nani, parecem então como uma espécie de assombramento, no qual ela constata que nem ela, nem sua mãe foram o modelo de mãe que se esperava, ou seja, que esbanjasse amor, afeto e carinho todo tempo. A culpa parece ser uma constante nesses pensamentos, ainda que não sentir ou identifica-la propriamente torne-se uma nova espécie de pesar.

Tal pesar parece tomar a forma de um não encaixe, como não conseguir cumprir o que acredita ser necessário. São os movimentos feitos entre passado e o presente, recuperando memórias e notando essa necessidade de diferenciar-se tanto de sua mãe quanto de suas tias e outras mulheres de sua família, que fazem Leda suscitar em nós algumas perguntas: o que se espera de uma mulher que é mãe? O que ela achava que precisava ter feito para que essa relação fosse estabelecida de forma mais próxima à perfeição? O que se passa no interior das mulheres de nossa família? E o que se passará dentro de nós se um dia viermos a ser mães?

“Eu queria estar pronta para lidar com pedidos repentinos de ajuda, temia que me acusassem de ser como eu de fato era: distraída ou ausente, absorta em mim mesma”.

A passagem destacada acima demonstra novamente esse sentir-se mal. E o sentimento não vem por ausência de querer bem às filhas, mas por uma relação em que ela acredita ter que se colocar como o maior amparo. Como se não pudesse ser ela mesma, distraída ou ausente, de vez em quando. Demonstrando que tipos de danos emocionais a idealização da maternidade pode trazer a uma mulher que não seja necessariamente o padrão esperado.

Leda desfaz, desse modo, a ideia de heroína que temos de nossas mães ou pelo menos do que é ser mãe. Ela traz a face humana dessas mulheres que muitas vezes são cobradas de serem anjos ou que abdiquem de si mesmas e de sua existência. Como se a maternidade necessariamente anulasse o que existe de desejos e sonhos na mulher que teve um filho. Possibilitando-nos pensar no quanto muitas vezes buscamos apoio, mas não necessariamente demos apoio de volta às nossas mães. Ou nos fazendo questionar se já esquecemos ao nos relacionar com nossas mães que havia ali também uma pessoa, cheia de afetos e de falhas, pois ela é também humana.

A viagem possibilitada por “A filha perdida” é encantadora.  Por tudo isso que eu disse, mas também por algumas ações de Leda nos fazerem pensar que nunca cresceremos o suficiente para sermos um exemplo de maturidade e controle emocional. E sabe o que é melhor? Dá para encontrar o livro online. Corre lá, lê esse romance e vem comentar o que você achou também. Prometo que deixei as surpresas do romance bem guardadas e que mesmo tendo lido esse texto você ainda vai se surpreender um montão.

 

Gostou muito da Ferrante e ficou curiosa? Tem outros textos que você pode conferir sobre a escritora:

A febre Ferrante – Mulheres que escrevem 

A escritora está ausente – Helena Zelic 

Amigas e rivais – Taís Bravo 

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Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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