4 de julho de 2015 | Edição #16 | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
A fofoca não tem rosto
Ilustração: Beatriz Quadros.

Ao longo da série Gossip Girl, uma entidade anônima – a própria Gossip Girl – mantinha um site de fofocas sobre os personagens principais (e aqueles em seu círculo social). O funcionamento do site era simples: pessoas mandavam dicas, segredos, fofocas, fotos, vídeos, gravações, provas do que sabiam, e a pessoa responsável pelo site decidia o que era ou não uma boa fofoca e postava, sempre no pior (melhor?) momento. Os personagens usavam o site para ganho próprio – para destruir seus inimigos, para se alçar à notoriedade –, mas eram vítimas dessas mesmas ações o tempo inteiro também.

Lá pela quinta (e penúltima) temporada, a narrativa da série começou a se preocupar com quem era a pessoa que cuidava do site, com alguns personagens decididos a destrui-la, porque a identificavam como a fonte desse mal que os perseguia (em um mundo como o de Gossip Girl, a reputação, por mais infame que seja, é essencial, e nada tinha o efeito destruidor de uma fofoca potente); infelizmente, no último episódio, descobrimos quem a tal pessoa é (e, me controlando, não vou dar o spoiler aqui).  Digo “infelizmente” porque, para mim, se preocupar com a identidade da Gossip Girl, e ainda por cima desvendá-la de fato, foi a pior decisão narrativa da série: afinal, não importa quem é responsável pelo site no fim das contas (e a própria pessoa diz isso no último episódio), porque o site só funcionava porque todo mundo delatava todo mundo, todo mundo espalhava as fofocas. Em um episódio em que o site é hackeado e os e-mails (até então anônimos) de todo mundo que mandou dicas são expostos, vemos que os personagens que mais eram alvo das crueldades também eram aqueles que mais as perpetuavam.

E, bem, por que isso importa aqui? Porque a força da Gossip Girl é a força da fofoca, e a fofoca é uma entidade sem rosto. Fofoca não funciona se só uma pessoa a conta, se não é espalhada, se não há retribuição, se não alimenta um ciclo. Mesmo que se identifique a origem da história, mesmo que saibamos quem era o polo de distribuição, não temos como impedi-la, porque ela só funciona quando se torna parte de uma massa disforme de informação.

Eu fui alvo de uma boa quantidade de fofocas na época do colégio: algumas maldosas, de me fazer voltar para casa chorando; algumas ridículas, das quais eu chegava a ter algum orgulho; eu diria que metade era verdade, provavelmente (“New Romantics”, da Taylor Swift, podia ser a trilha sonora dos meus quinze anos – “the rumors are terrible and cruel, but, baby, most of them are true”). Muitas das vezes, eu sabia quem tinha começado a espalhar – muitas das vezes, era a mesma pessoa (ou pelo menos o mesmo grupo de pessoas). Mas, no fim das contas, isso não fazia a menor diferença.

Fofoca é uma responsabilidade conjunta: se você contou para sua amiga que ouviu alguém falar que fulana fez sei lá o quê, você está tão envolvida quanto o alguém que falou para você. Se você contou para aquela colega que não tem nada a ver com a história o segredo de um amigo, e se a colega contar para uma amiga dela, mesmo que tenha jurado para você que não ia falar para ninguém, pronto, as engrenagens da fofoca já estão se aquecendo, e até chegar de volta no amigo vai ser rápido. Pelo menos, na minha época (sou velha, falo “na minha época”) a gente não tinha smartphone, então fofocar era no boca a boca, no máximo no Orkut ou no MSN, e escapar das fofocas se tornava um pouco mais fácil também – mas agora, um print de conversa no Whatsapp é evidência o suficiente para tornar a vida de alguém um inferno, e uma foto em um momento inoportuno é pior ainda. Não vou falar muito sobre as ramificações mais violentas disso, como a exposição de garotas e o slut shaming, porque já falaram melhor do que eu aqui, mas é importante entender que, em qualquer fofoca, se você encaminha um print comprometedor para o seu grupo de amigos você é tão responsável quanto a pessoa que te encaminhou o print – até porque você não sabe para quais outros amigos os teus amigos vão encaminhar.

Além disso, como já falei na carta das editoras, contar seus próprios segredos é ótimo, porque eles só têm peso enquanto são secretos. Se espalham uma fofoca sobre você e você só confirma e fica de boas, a fofoca morre: afinal, se é só um fato conhecido que você admite, não é mais uma fofoca interessante, né? A força da fofoca está no anonimato, na massa, nos bilhetinhos escondidos no estojo, no sussurro no ouvido do colega, no grupo secreto do Facebook, no fake no Instagram – fofocas com rosto, com nome, com responsabilidade, fofocas escancaradas, perdem seu poder em um instante.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos