26 de novembro de 2015 | Colunas, Esportes | Texto: | Ilustração: Isadora M
A fronteira final – mulheres treinando homens

No tênis, um dos esportes mais diretamente associados com desempenho pessoal, um esporte comumente jogado por dois indivíduos dependentes de seus talentos e resistências, o técnico é poucas vezes questionado. Não podemos dizer o mesmo sobre a resposta da mídia e dos fãs do esporte quando, ao fim do ano de 2014, o desempenho de Andy Murray caía e caía. O que fez do caso de Murray, maior tenista britânico em atividade, um caso peculiar? O atleta havia trocado seu treinador, um homem, pela ex-tenista francesa Amelie Mauresmo. A capacidade de Amelie como treinadora foi rapidamente colocada em cheque.

Desde então, Andy Murray consolidou sua posição como 3º tenista no ranking da ATP, e teve bons desempenhos em Wimbledon, no Australian Open, e em vários torneios de menor expressão, na semana passada sendo eliminado nas semifinais do torneio dos campeões da ATP. Não há mais espaço para questionar o desempenho da treinadora do britânico. O futuro de Mauresmo como técnica de Murray é duvidoso, mas apenas por escolha da francesa, que acaba de se tornar mãe e está ausente das quadras. Mas e o futuro das mulheres que sonham com uma vaga na equipe de treino de um atleta ou time de alto nível?

Não é só um problema dos esportes masculinos. Hoje, na liga mais célebre do esporte feminino, a WNBA (Liga feminina de Basquete dos EUA), 5 dos 12 times são treinados por mulheres – um deles, Minnessota Lynx, o último campeão da liga, treinado por Cheryl Reeve. As bem-sucedidas seleções nacionais brasileiras de vôlei e futebol feminino são treinadas por homens – por outro lado, porém, as seleções de judô e ginástica olímpica do país, estrelas do nosso esporte olímpico, são treinadas por mulheres em suas divisões femininas.

No esporte masculino, no Brasil, não temos mulheres em posição de comando dentro das quadras e campos – porém alguns avanços começam a surgir no horizonte das grandes ligas profissionais dos EUA. Jen Welter, atleta de futebol americano que coleciona posições de pioneirismo no esporte oficial da hipermasculinidade, teve um breve período como técnica de linebackers (jogadores de defesa) do Arizona Cardinals, um dos principais candidatos ao título em 2015. Na NBA, duas mulheres são as principais assistentes técnicas de dois times de elite: os campeões de 2013, San Antonio Spurs, e o californiano Sacramento Kings.

De acordo com dados da Alliance of Women Coaches, órgão ligado à associação de esportes universitários dos EUA, a NCAA, o número de mulheres praticando esportes em nível universitário (semiprofissional) no país cresceu dez vezes nos últimos 40 anos. Esse crescimento não é refletido no aumento do número de treinadoras afiliadas a times da NCAA, e atualmente oito em cada 10 técnicos são homens. Nos times com atletas masculinos a porcentagem é ainda mais gritante – apenas 4% desses times são treinados por mulheres, e nenhum desses times estão na primeira divisão da NCAA.

A aceitação da mulher como ponto de referência e autoridade em um vestiário masculino, lidando com a parte tática e de preparo físico de alguns dos maiores atletas do planeta, é ainda uma fronteira a ser explorada nos esportes. Quem sabe um dia podemos levar a máxima de que no Brasil existem 200 milhões de treinadores da seleção brasileira masculina de futebol, a canarinho, à risca, e uma das várias mulheres que palpitam todos os dias sobre a escalação e a formação dos nossos rapazes de amarelo possa, realmente, liderá-los.

Ana Clara
  • Colaboradora de Esportes

Ana tem um site de cinema que chama Ovo de Fantasma e está se formando em comunicação na UFMG e tentando mestrado em cinema. É obcecada em estudar cultura americana, cresceu tomboy de joelho ralado, ama futebol, baseball e futebol americano. Jogada basquete, escalava, hoje tem hérnia e só comenta e ganha dos homens no Fantasy.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos