12 de março de 2016 | Ano 2, Edição #24 | Texto: | Ilustração: Laura Athayde
A história eurocêntrica do Brasil

Todas frequentamos a escola por um único e universal motivo: adquirir conhecimento. Nos primeiros anos, somos alfabetizadas, aprendemos contas matemáticas simples, o número e o nome dos estados brasileiros, o que está por trás da puberdade e quem declarou a Independência do Brasil. Até aí, tudo ok.

Mas, mais ou menos a partir do final do ensino fundamental, lá pela sétima ou oitava série, a gente começa a se deparar com uns conteúdos que nos deixam intrigadas. “Pra quê e onde eu vou usar isso?”, perguntamos frente à fórmula de Bhaskara ou diante de uma lista imensa de datas importantes para decorar.

Isso porque o ensino formal, especialmente o das escolas privadas, é profundamente pautado pelos temas cobrados no vestibular, o que não é nenhum segredo. Então, já que o vestibular (tanto ENEM quanto outros exames de universidades públicas e até particulares) exige que saibamos que “xis é igual a mais ou menos a raiz quadrada de delta sobre duas vezes a” para sermos aprovadas em algum curso superior, é isso o que as escolas nos ensinam.

E não é diferente com o ensino de história (sim, sou de humanas). Infelizmente, a estrutura do vestibular é muito problemática. É uma prova que exige conhecimentos muito específicos, que podem parecer tão distantes da nossa realidade que acabam perdendo o seu lado prático, na maioria das vezes.

Além disso, há um outro problema envolvido, este, talvez, maior ainda. Nosso ensino é extremamente parcial, privilegiando a perspectiva histórica europeia. A isso damos o nome de eurocentrismo. Saímos do colégio craques em primeira guerra mundial (que sequer envolveu mesmo o mundo inteiro), segunda guerra mundial, história ibérica, e, para “diversificar”, algo de história dos… EUA.

Não quero aqui hierarquizar a importância dos conteúdos, já que o aprendizado é (ou pelo menos deveria ser) algo bastante subjetivo; mas é meio esquisito que um país com mais da metade da população (53%) autodeclarada preta ou parda aprenda, quase que exclusivamente, apenas a história dos… brancos europeus.

O projeto de lei que obriga o ensino de história africana, por exemplo, é extremamente recente, tendo sido aprovado só em 2003. Até então, o máximo que aprendemos é a história dos negros escravizados no Brasil, e olhe lá, já que, em muitas vezes, a abordagem é totalmente branda, como se 500 anos de escravidão fosse apenas um “efeito colateral” da colonização portuguesa, e que a princesa Isabel tenha abolido a exploração por pura benevolência. Pouco destaque se dá, no entanto, ao fato de o Brasil ter sido o último país do continente americano a fazer isso, por exemplo.

É claro que a história europeia é importante para nós, é óbvio que temos que aprender sobre as duas guerras mundiais, mas saber sobre esses temas não é (e não pode ser) suficiente. O conhecimento histórico é uma importante ferramenta de empoderamento, emancipação e memória, para que possamos entender como e porquê estamos aqui, e, principalmente, aprender com os erros e acertos do passado. “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”, como diz o mote da Comissão Nacional da Verdade, que recupera a história da ditadura militar.

Aliás, esse é outro tema importante da nossa história que muitas vezes acaba recebendo menos atenção do que deveria. Mas isso já é assunto para outro texto…

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • Nívia

    Escola publica também

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  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Seu texto está maravilhoso, eu acho bizarro não sabermos nada sobre a América depois de sair da escola, América como um todo, os povos que aqui estavam, além da África e também da Ásia que são completamente esquecidas…

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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