7 de novembro de 2014 | Edição #8 | Texto: | Ilustração:
A história pelo fio: cabelos em movimento
Ilustração: Ana Maria Sena.

Ilustração: Ana Maria Sena.

Desde sempre, o estilo dos cabelos foi uma maneira das mulheres se expressarem, tanto pessoal como culturalmente. Penteados, comprimentos e ornamentos também serviam para determinar determinado período ou classe social da mulher em questão. E como cada estilo novo que surgisse pretendia quebrar com os parâmetros do status quo capilar anterior, hoje em dia temos diversos estilos e maneiras nas quais nos inspirar para criar o nosso próprio.

O primeiro estilo de penteado de que se tem ideia é a trança, o que nos é contado por uma escultura chamada Vénus de Willendorf, feita durante o período paleolítico. Algumas outras esculturas desse mesmo período demonstram que, já nesse momento da história, as mulheres se preocupavam em arrumar seus cabelos de formas diversas e estilosas, e não só deixá-los caídos e sem arrumação alguma.

Já no período da história antiga, que é composta pelas civilizações do Mediterrâneo e do Oriente Próximo até a queda do Império Romano em 476 D.C., as formas de mudar e estilizar o cabelo aumentaram bastante. As mulheres desse momento da história pintavam os seus cabelos, prendiam em diversos estilos de rabo de cavalo e até os enrolavam, em um antecessor do modelador de ferro conhecido como babyliss. Nessa época, os cabelos eram modelados com argila molhada e então as mulheres iam para o sol, para que a argila secasse e o cabelo tomasse aquela forma. Quando já seco, elas penteavam o cabelo para tirar a argila seca dos fios.

Durante o Império Romano e a Idade Média, as mulheres começaram a usar as suas madeixas de milhões de maneiras complicadas e inovadoras. Muitos cachos, ondas, tranças; a ideia era que sempre ficasse muito diferente e muito bem montado. As de família nobre se preocupavam tanto com a estilização de seus cabelos que até escravos e um cabeleireiro davam atenção especial durante o dia todo para que o penteado não se desmontasse. Além do próprio cabelo, também eram utilizadas perucas, grampos, pomadas e almofadinhas e, no Império Bizantino, as mulheres nobres adornavam seus penteados com toucas de seda e redes de pérolas.

Nesse período, as mulheres usavam seus cabelos o mais comprido que podiam deixar. Pouco da estilização era feita com a ajuda de tesouras, visto que na maior parte do tempo o cabelo permanecia em penteados ou coberto por um véu ou por outros adereços. A utilização do cabelo solto, sem nada, ao natural, pelas ruas era limitada às prostitutas. Usar o cabelo solto, sem nenhuma amarração, além de ser considerado de extrema sensualidade, ainda tinha conotações sobrenaturais.

Prender e trançar o cabelo era bem comum, sendo que, a partir do século XVI, as ornamentações capilares começaram a ser cada vez mais complicadas e decoradas, com pérolas, jóias, fitas e véus. A maior expoente até hoje dessa ornamentação exacerbada de cabelos, tanto na história quanto na cultura popular, é a Maria Antonieta. A rainha francesa dava tanta atenção à ornamentação de seus fios que, para ganhar a altura que seus penteados ganhavam, ela mandava construir suportes para colocar por dentro do cabelo e fazer suas criações capilares que mais pareciam bolos de casamento.

Esses costumes de deixar o cabelo longo e de adorná-lo de maneira espetacular e com muitos objetos diferentes perdurou até quase o início do século XX. Ainda existiam penteados bem elaborados para o dia a dia, mas não foi até o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, que as mulheres resolveram cortar suas madeixas de maneira prática e da forma que queriam.

Como muitas mulheres fizeram parte dos esforços de guerra, geralmente como enfermeiras ou outros postos que auxiliavam as tropas, mas sem necessariamente estar nelas, a rotina acabava pedindo por cabelos mais simples, que pudessem ser cuidados com menos afinco e que tomassem menos tempo para estarem prontos. Com isso surgiram os cortes na altura do ombro, ou até mais curtos, que no período entre guerras acabou sendo bem estilizado com ferro de modelar e acabou continuando até quando já não ocorria mais a guerra.

Mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, as mulheres perceberam que gostavam de seus cabelos mais naturais e sem muitos ornamentos e continuaram utilizando-os de forma mais livre e sem adornação extensiva, chegando até o pixie cut na década de 1960. Ainda falando nessa década, foi uma época importante para as mulheres negras na questão capilar. Com o advento dos movimentos para igualdade de direitos civis, as mulheres negras cessaram as tentativas de terem estilos capilares similares ao da mulher branca, como lhes era imposto socialmente, e finalmente se empoderaram para assumir o cabelo afro maravilhoso que já tinham. Ao invés de alisar e domar seus cachos lindos, as mulheres negras começaram a assumir seus blacks maravilhosos com gosto a partir desse momento histórico. Na década de 1970, com os movimentos hippies, a tendência era cabelo para todos os lados, quando mais, melhor. E na década posterior, em 1980, não existiam limites para os penteados e permanentes que as mulheres usavam.

Importante ressaltar que, nos dias de hoje, ganhamos a liberdade de escolher o que queremos para o nosso cabelo. Seja curto, longo, alisado, enrolado, colorido, natural, máquina zero… a escolha está em nossas mãos. Todos os movimentos pelos quais o cabelo passou durante os séculos, foram para que hoje possamos movimentá-los da maneira que bem entendermos.

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

  • Mônica Monteiro

    Isso é tudo o que eu precisava para um documentário. AMO VOCÊS! <3 AMO A CAPITOLINA!!! <3

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