14 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: and | Ilustração: Jordana Andrade
A importância das conquistas das mulheres negras

Ao pensarmos em conquistas, a primeira coisa que nos vem à mente é a necessidade de refletirmos sobre a resistência das mulheres negras. Mulheres que têm que lidar com as consequências do machismo e racismo, que são latentes em suas vidas, e ainda assim resistem. Não podemos, não devemos e não iremos esquecer o quão importante foram e são as mulheres negras para a formação da nossa sociedade.

Diante desse quadro, tais mulheres têm lutado para conquistar visibilidade e representação, seja na esfera da educação, na política, esportes, mídia, e em qualquer outro espaço que não seja aquele que tem sido forçado e delegado há séculos para elas: o espaço privado, de servidão e submissão. Dizemos isso porque há dois estereótipos ligados à imagem da mulher negra em nossa sociedade: o primeiro deles está associado a uma figura materna, que não cuida apenas dos próprios filhos, como também dos filhos de suas patroas, dos netos, dos sobrinhos. E essa imagem convive com um segundo estereótipo, da mulher mais lasciva, sexualmente mais dispostas que todas as outras mulheres. Em resumo, a imagem da mulher negra mãe de todo mundo coexiste com a de que, em uma clássica divisão entre putas e santas na sociedade, a negra se encaixaria na categoria das putas, e não na das santas.

Considerando mais precisamente a realidade brasileira, é importante revisitarmos as estatísticas. As mulheres negras e pardas constituem 44% da população, tendo remuneração abaixo da média e são a maioria das chefes de família, isto é, a maior parte das mães que sustenta suas famílias sem ajuda de um parceiro. Além disso, as mulheres negras costumam se casar mais tardiamente do que as mulheres brancas, o que levanta a questão não só de liderarem o número de mulheres que são chefes de família, mas também as questões relacionadas à solidão.

Num cenário como esse é inegável que as consequências de uma mentalidade escravocrata ainda perduram e que o racismo estrutural ainda persiste. Mesmo assim, mulheres negras têm conseguido ir contra as expectativas e têm deixado, de alguma forma, suas marcas e conquistas neste mundo. Conseguiram, e ainda estão conseguindo, ser pioneiras (sim, porque em pleno século XXI ainda há espaços que nunca foram ocupados por elas) e preencher cargos de destaque no mercado de trabalho, tornando-se conhecidas como atrizes, cantoras, mas também advogadas, professoras, universitárias, juízas. Temos Antonieta de Barros, Theodosina Rosário, Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Carolina Maria de Jesus, Enedina Alves, Ivone Caetano, Benedita da Silva e tantas outras que merecem ser mencionadas.

Mas não podemos ignorar que para alcançarem esses postos, seus esforços são duplicados, isto é, elas precisam se esforçar muito mais para se encaixar no mercado de trabalho, mais do que os homens ou mesmo outras mulheres.

“Quantas vezes eu te falei: você tem que ser o quê? Você tem que ser o quê? “Duas vezes melhor” “SER O QUÊ?” “DUAS VEZES MELHOR” “Sim, você deve ser duas vezes melhor que eles para conseguir METADE do que eles têm!”

“Quantas vezes eu te falei: você tem que ser o quê? Você tem que ser o quê?
“Duas vezes melhor”
“SER O QUÊ?”
“DUAS VEZES MELHOR”
“Sim, você deve ser duas vezes melhor que eles para conseguir METADE do que eles têm!”

Ainda sobre mercado de trabalho e conquistas, vale a pena destacar o aumento da presença das mulheres negras dentro da universidade, o que nos leva a pensar a respeito de dois pontos muito importantes: o fato de que isso proporciona que a elaboração de conhecimento e pesquisa dentro de espaços acadêmicos seja realizada sob a perspectiva do oprimido, dessas próprias mulheres, garantindo a elas o seu direito de narrar sua história a partir de sua visão; e o fato de que essa entrada nas universidades permite que essas mulheres possam se apropriar de conhecimentos que historicamente lhe foram renegados.

O que queremos destacar com essa última observação é o quanto nós, mulheres negras, nos empoderamos ao escrever ou pesquisar. É empoderador deixar de ser objeto de pesquisas para passarmos a ser sujeitos das nossas próprias pesquisas. Tanto para estudar temas ligados à negritude, mas também para produzir conhecimentos em outros espaços. Há especificidades relacionadas à saúde das mulheres negras, por exemplo, e ter médicas negras ou pesquisadoras negras na área da saúde pode trazer um acúmulo de conhecimento que ajudará na resolução de doenças. A questão é que a ocupação de todos os espaços que quisermos tem a ver com representatividade, mas não apenas para sermos números, mas porque, quando uma mulher negra ocupa espaços outrora não ocupados, há um avanço na vida de outras mulheres negras, da população negra e da população como um todo.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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