14 de abril de 2016 | Ano 3, Edição #25 | Texto: | Ilustração: Isabela Zakimi-Innocentini
A importância de reconhecer suas qualidades
EDICAO25-FALSA MODESTIA-KIKI

Não sei vocês, mas eu sou meio nerd desde que me lembro por gente. Tão tradicionalmente nerd – a que ia bem na escola e amava isso – que aprendi a odiar essa palavra e suas variantes, tais como CDF, bem cedo na vida. Não tinha nada que eu gostasse mais do que de chegar em casa e me gabar pra família sobre algum elogio que a professora tinha me dado, com uma nota dez, com um boletim impecável. Enfim, vocês podem imaginar.

Essa sempre foi a área na qual eu tive mais êxito – pra algumas é nos esportes, nas relações sociais ou nas artes – então, sempre foi a minha grande fonte de munição para “me gabar” por aí. Isso pra dizer que, casualmente, também me orgulhava de outras coisas que eu julgava fazer bem, como entender letras de música em inglês e desenhar.

Eu, no entanto, não pensava nesse jeito como uma forma de me gabar. Aliás, eu nem pensava no que eu estava fazendo: era só o que me vinha à cabeça pra exaltar sobre mim mesma, e eu via zero motivos pra não ter orgulho do que eu sabia fazer bem. A sensação era ótima, sabe. E também acredito que uma parte de nós – que é maior ainda quando criança – espera algum tipo de validação de que estamos fazendo a coisa certa a todo momento (ou talvez só seja a minha alma de Menina Certinha?).

Bem, eu tinha esse hábito até aprender que isso era supostamente sinônimo de má educação. Sabe aquele tipo de infração social pela qual você recebe umas represálias meio veladas, tipo uma exclamação ou risadinhas (quando você é criança e ainda acham tudo que você faz bem fofo) ou olhares tortos (quando você já passou dessa idade)? Eu percebia não só as reações à minha vaidade como as reações à suposta modéstia dos outros, as últimas geralmente garantindo pontinhos na opinião alheia.

A questão é que eu estaria mentindo se dissesse que não ligo pra quando as pessoas não gostam de mim. Eventualmente, percebi que meu jeito “original”, franco ao extremo e empolgado com as minhas conquistas de uma maneira que era interpretada como egocentrismo, não fazia geral simpatizar comigo (ao menos de cara) e transformava a imagem que tinham de mim num total oposto de quem eu realmente era. Eu, a Certinha com letra maiúscula, era vista como a Rebelde por basicamente não ter papas na língua. Não que eu me ofendesse por isso, mas eu estranhava. E também, como já disse, queria MUITO que gostassem de mim.

Então decidi que iria me conter. Em vez de gritar pelos quatro cantos do mundo sobre minha nota surpreendentemente boa naquela prova de matemática, eu iria dar um sorrisinho, enrubescer e responder “ah, é exagero…” sempre que algum parente comentasse com um conhecido sobre o quão inteligente eu era.
Esse novo hábito evoluiu pra um estado em que eu me convenci de que nada que eu fazia era grande coisa, que não era nada demais, e minha vida se tornou uma sequência chata de coisas das quais eu não me sentia no direito de achar incríveis. Fui bem-sucedida em me diminuir a ponto de acreditar no meu próprio conto. E isso evidentemente foi uma mega cilada.

Recorri a contar a minha própria história porque sempre que pego uma pauta como essas, ofereço soluções ilusórias como se eu estivesse muito distante desses problemas e acreditasse que eles fossem simples de ser solucionados. Vivemos numa sociedade que não só espera que todos os elogios sejam recebidos com um “magina!”, “você está sendo generosa”, “que mentira!” e frases do gênero, como coloca uma pressão ainda maior para se fazê-lo quando o sujeito em questão é uma garota. Afinal, um dos estereótipos de gênero mais latentes que temos é o que relaciona passividade às mulheres e assertividade aos homens – por mais que modéstia seja bem vista em ambos os casos, ela só é totalmente inaceitável em um deles.

Que fique claro que a modéstia da qual falo não é a atitude de estar aberto a ser alterado por diferentes visões de mundo, aceitar críticas e não acreditar que suas ações e/ou trabalhos são inerentemente superiores aos dos outros. Se fechar para novos aprendizados não tem nada a ver com isso. O que está em questão nesse texto é a falsa modéstia expressa todas aquelas vezes em que negamos nossas habilidades perante os outros. É o sentimento que nos impede de dar voz aos nossos pensamentos perspicazes numa aula, que nos deixa com vergonha de entrar num concurso quando nós sabemos que somos capazes, que nos mantém caladas.

A solução para esse problema vem em um passo único, porém incrivelmente complicado de ser colocado em prática, principalmente quando você reprimiu seu lado leonino por tanto tempo, como eu: começar a reconhecer tudo aquilo que você faz bem e gritar para o mundo, não para criar um complexo de superioridade, mas para escapar do complexo de inferioridade ao qual frequentemente nos encontramos presas. Por mais que tentem nos convencer – seja por meio de uma clara aprovação social maior ou por representações na mídia em geral – que é horrível que uma mulher exija reconhecimento, respeito e mostre orgulho de ser quem ela é, essa é uma regra que, quando seguimos, não faz nada além de nos segurar, nos impedir de brilhar o tanto quanto podemos e devemos.

Você sabe fazer contas mais rápido do que qualquer pessoa que você conhece? Ultrapassa todo mundo quando aposta corrida? Consegue arrotar o alfabeto? Tem facilidade para aprender línguas? Não importa onde estejam seus talentos, deixe de exercitar a falsa modéstia. Você não precisa disso. Na próxima vez que te elogiarem, apenas sorria e complete com um simples “obrigada” ou, se estiver se sentindo excepcionalmente confiante (ou se o elogiador for um mala), diga logo um “eu sei”.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Parecia que estava lendo um texto sobre mim mesma, se tem algo que estou precisando fazer é reconhecer minhas qualidades.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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