29 de março de 2016 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração: Isadora M.
A importância dos filmes de mulherzinha

Outro dia conversava com amigos – todos homens – sobre dois filmes que estavam concorrendo a diversas premiações. Um era O Regresso (The Revenant, 2015) e o outro Brooklyn (2015). O primeiro conta a história de um homem que após ser atacado por um urso e traído pelos seus companheiros de viagem, precisa lutar para sobreviver na floresta no meio de um inverno rígido. O segundo conta a história de uma menina irlandesa que migra sozinha para os EUA no final dos anos quarenta. A grande discussão era que eu não senti absolutamente nada além de tédio vendo o primeiro filme. Não tiro o mérito técnico do filme, realmente é muito bem feito, mas pra mim, é mais um homem branco tentando sobreviver, e já vi tantos. Homem branco tentando sobreviver no mar, no fogo, em Marte, já deu pra mim. Enquanto o outro eu amei, chorei do início ao fim. Falou demais comigo esse filme. Meus colegas não aceitavam isso, Regresso era o melhor filme do ano e pronto, Brooklyn não deveria nem ter sido indicado. Depois de quebrar diversos argumentos deles, finalmente me falaram por que Brooklyn era tão inferior: é por ser filme de mulherzinha.

Essa discussão me fez pensar muito sobre esse tipo de filme. Dramas centrados em mulheres ou até mesmo as famosas comédias românticas, obras que visam o público feminino, assim como tudo que é destinado à gente ou faz parte do nosso universo é considerado inferior. Parei para pensar nos grandes filmes que são considerados clássicos do cinema ou até nos filmes recentes que ganharam premiações e são considerados “grandes filmes” e a maioria esmagadora, passa longe de ser destinado a mulheres. A maioria esmagadora é centrada em homens e suas histórias, nós mulheres estamos ali só para acompanhar e no máximo ajudar eles a alcançarem seus objetivos. Esses são filmes “sérios”. Nossas histórias são besteiras, são filmes de mulherzinha. Pegue um diretor como Woody Allen, por exemplo. Seus filmes são bem concentrados no diálogo e ele fala até bastante de amor, fez filmes como Noivo neurótico, noiva nervosa (Annie Hall, 1977), Manhattan (1979), Tudo pode dar certo (Whatever Works, 2009), mas na maioria das vezes o ponto de vista é masculino, com um personagem principal homem. Ele (Allen) é considerado um gênio, um mestre do cinema. Agora uma diretora como Nora Ephron, que também fazia filmes muito concentrados em diálogos, que também falava de amor, como Sintonia do Amor (Sleepsless in Seattle, 1993) e Harry e Sally – Feitos um para o outro (When Harry Met Sally, 1989), esses são filmes de mulherzinha, esses não são tão grandiosos quanto os do Woody Allen, por quê?

Voltando ao Brooklyn: li uma crítica feita por um jornalista homem que detonava o filme e basicamente resumia o filme a uma garotinha que quando acha um namorado fica tudo bem e que seu maior desafio é escolher entre dois amores e como isso era pequeno e não valia a pena ser visto no cinema. Primeiro que Brooklyn é muito mais que isso, o filme é sobre amadurecer, sobre quando crescemos precisamos fazer escolhas e lidar com o fato de quando escolhemos algo, inevitavelmente, estamos abrindo mão de outra coisa e que isso causa um sofrimento e uma angústia muito forte. Será que se fosse um homem passando por tudo isso que ela passa, o jornalista conseguira enxergar essa complexidade? Tendo a achar que sim. Segundo que, mesmo se o filme fosse só ela sofrendo as idas e vindas do amor, por que assistir a mulheres lidando com amores, felicidades e sofrimento relacionados a isso é tão menos importante do que ver homens sobrevivendo na selva?

Quando eu vi o filme 500 dias com ela (500 Days of Summer, 2009), fiquei bem irritada e não sabia exatamente o porquê. O filme é uma comédia romântica que conta a história de um rapaz que se apaixona por uma menina que não acredita em amor e como os dois lidam com essa situação. Temos aqui uma troca de papel de gêneros que estamos acostumados a ver no cinema, que é até interessante. Aqui temos o homem super apaixonado e a mulher não; a mulher não curtindo ter relacionamentos, não sabendo lidar com isso direito. Além da personagem feminina ser uma clássica manic-pixie-dream-girl, descobri o que me irritava: esse filme é considerado “cool”, não é como uma comédia romântica comum, ele é interessante, porque é o homem que está sofrendo por amor e, de repente, quando o homem tem que lidar com isso o filme fica interessante e merece ser comentado. Esse não é o único filme faz isso. Posso citar vários, a maioria são considerados filmes “indie”, sensíveis e estão em festivais como o Sundance e outros. Não tiro a validade deles e até gosto da maioria, só questiono por que as comédias românticas clássicas com mulheres sofrendo e vivendo por amor não estão nesses festivais. Isso me faz pensar também como é um reflexo da vida real. Quando vemos um homem passando por um término difícil, sofrendo ou tendo que lidar com uma rejeição como ele é sensível e como ela foi uma idiota por ter dispensado ele, já quando é uma mulher tendo que lidar com a mesma coisa, ela é uma maluca que está com raiva, ou coitada, ela é uma desesperada que não para de correr atrás de homem, tem que superar logo. E como esse julgamento diferenciado às vezes faz com que nós mulheres escondamos nossos sentimentos, algo que só nos faz mal.

Não quero com esse texto fazer todo mundo amar comédias românticas e filmes de mulherzinha. Entendo também como todos esses filmes podem ser problemáticos, começando pela imensa falta de representatividade, porque só falamos aqui de casais héteros e mulheres brancas, magras e cis. O mundo das mulheres não gira somente em torno dos homens e de amores, tem muito mais a ser explorado e grande parte desses filmes deixam de ir mais a fundo e ficam na superfície. O que eu quero é não cair mais nesse falso julgamento de que para ser um grande filme sério e com méritos a história tem que ser centrada em um homem. Precisamos olhar para os filmes que tratam do mundo feminino com outros olhos. Dando a mesma importância e valor que damos aos outros. Precisamos principalmente incentivar mulheres a entrarem nesse clube do Bolinha que é o cinema e deixar elas se tornarem roteiristas e diretoras, para elas poderem contar as nossas histórias.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

  • Monica Bramorski

    Oi Dani,
    Eu tive a mesma reação que você quando em 2006 quando lançaram “À procura da felicidade” com Will Smith. Só porque é um pai passando perrengue para criar o filho todo mundo endeusa o tal do filme. Eu na verdade não gostei do filme e não concordo em achar que ele é um pai divino e “coitado”. Quantas de nós, mulheres e mães, fazemos o mesmo com o pé nas costas e com a mão esquerda e ninguém bate palmas. Tenho a mesma visão que você nesse ponto.
    Bom, era isso que tinha a dizer no momento. Abraço 🙂

  • Naíza Alves

    Eita! Ei vi O Regresso com 2 amigos, homens. Todos nós gostamos do filme pela grandeza técnica, mas achamos o roteiro bem fraco, batido, etc. Achei que o mérito do filme foi trabalhar bem as atuações, por isso achei longe de ser o melhor filme do ano. Ainda não parei pra ver Brooklyn, mas foi um dos filmes que me chamou mais atenção pela sinopse e trailer. Prefiro histórias interessantes a preciosidades técnicas, embora não descarte nada. Usar “filme de mulherzinha” como argumento é dar atestado de não ter argumento mesmo, feito menino buxudo que tá perdendo a briga. hahaha Não dá pra ser fã de cinema desse jeito.

    Eu curti muito 500 Days of Summer, embora eu entenda perfeitamente a Zooey como mpdg. Mas eu amo coadjuvantes e tenho uma mania de enxergar as histórias através deles. Acho que Summer foi criada pra ser o sonho dos homens e por isso o objetivo do final do filme, depois de você ter criado empatia com Tom e sofrer por ele, é você odiar ela. hahaha E foi exatamente isso que meus amigos homens sentiram quando o filme acabou (não os mesmos de O Regresso), chamaram ela de vaca. haha Enquanto eu vi o filme todo como uma projeção e expectativa muito irreal de Tom sobre Summer. E depois a queda foi tão grande quanto o vôo. No final ela tá até bem diferente do que a gente pensa como mpdg, eu acho. Por isso eu só vejo o filme como se fosse coisa da cabeça dele. E acho ela super coerente com ela mesma. Mas isso sou eu defendendo o filme, apenas. hahaha

    E cara! Nora Ephron! Você nem imagina o quanto eu concordei contigo nessa comparação com Woody Allen! Adoro como ele trabalha bem com a cidade. E não entendo como as pessoas podem não enxergar essa mesma qualidade incrível nela! Tem 2 filmes dela na minha lista de favoritos da VIDA: Harry & Sally e Mensagem Pra Você. <3 Tem falha, tem esteriótipo, tem essas coisas todas, mas não mais que os Allen da vida. Por que??? Por que ela é abismalmente preterida a ele??? Jamais entenderei!

    Desculpa pelo comentário gigante, mas eu gosto tanto desses assuntos que li o texto querendo que fosse uma conversa sobre filmes, a gente de boas, comendo umas pipoquinhas no sofá. :3 E se não for muita ousadia… você viu Ele Não Está Tão A Fim de Você, e Medianeras? Não vi nenhum dos dois com esse olhar mais crítico, mas lembrei deles com seu texto e fiquei curiosa sobre sua opinião/avaliação. =X

    • Natália C.

      nossa, é tão bom achar alguém que viu a verdade hahah também penso a mesma coisa sobre 500 dias com ela. e acho que quase todo mundo que vê (não só homens, infelizmente) acaba odiando a summer 🙁 tem algumas poucas coisas que eu não entendo o porquê dela fazer, mas é sempre importante lembrar que o filme é feito sob a ótica do tom, então é muito conveniente ver a summer como a “vilã”

  • Tayana Alve’z

    Stol passada com esse texto. Gente, como assim ainda descubro buracos profundos onde o machismo habita em mim? Hahahaha.
    Eu amo filme de mulherzinha, justamente por serem de mulherzinha, por eu me identificar com eles… Acho que é o mesmo que a taylor swift fala sobre as músicas, Bruno Mars faz um cd romântico é lindo, já ela faz uma CD e se transforma em várias porque só fala de homem. É tanta gente nos limitando que nem da gosto de expor sentimentos.

  • Natália C.

    nossa, esse ponto de vista parece tão distante de mim… haha
    é engraçado isso, porque eu acho bem tosco comédia romântica mas por algum motivo gosto de 500 dias com ela… acho que é porque a Summer não fica correndo atrás de homem em nenhum momento, como geralmente acontece nas comédias românticas. infelizmente não assisto muito filme romântico e também não consigo me lembrar de mais referências de comédia romântica com homens no papel principal pra avaliar a questão melhor e entender o que eu penso sobre isso rs.

    PS.: também não achei o regresso nada demais – mais um motivo pra desistir dessas premiações. e agora tô louca pra ver brooklyn! espero que não foque muito no aspecto romântico, senão vou ter a mesma opinião que os seus amigos rs 🙁

    • http://imaginatif.com.br Patthy

      Eu gostei de 500 dias com ela exatamente por isso: não enxerguei a Summer como uma ~vaca~ que maltrata e engana o Tom (pelo contrário, ela foi bem honesta com ele desde o começo). Eu vi uma moça que não ligava para relacionamentos, começou a namorar um colega do trabalho, não deu certo, e depois disso achou o amor da vida dela. Tudo isso sem ficar sofrendo e se arrastando por ninguém.

  • Pingback: Links Imperdíveis da Semana #3 | Livro do dia()

  • Crystal Ribeiro

    Tive que vir comentar porque (500) Dias Com Ela é meu filme preferido kkkk Acho que a uma primeira vista é isso que dá pra você inferir do filme: Tom = sensível; Summer = bitch total. Mas na minha opinião o filme em nenhum momento quer que você julgue ele ou ela completamente de um jeito ou de outro. Tom não é mais ou menos sensível por gostar da Summer e ela não; e não gostar dele é um direito que ela sempre teve e terá com qualquer outro, e isso não faz dela uma bitch nem nada do tipo.

    E mulheres ditas “como a Summer” não precisam ser o ideal de mulher, nem somente o que deve ser retratado em filmes. Mulheres não precisam ser generalizadas. É preciso dar crédito a outras mulheres incríveis do cinema “de mulherzinha” que a gente vê por aí, como a Sally e até a Bridget Jones.

    O Nick Hornby (roteirista de Brooklyn) fez um excelente trabalho com o filme, ainda mais com Educação (seu trabalho anterior), um filme que retrata uma menina-mulher que me tocou absurdamente. Pelo trabalho técnico, preferi O Regresso, mas Brooklyn não deixou de ser memorável.

    O que eu acho, sinceramente, é que falta empenho e roteiristas que se proponham a retratar a mulher no cinema do jeito que ela realmente é, sem esteriótipos, loucuras e dependência de homens. A maioria dos filmes para mulheres, infelizmente, faz desse jeito. E infelizmente não são produzidos/escritos/dirigidos bem o suficiente para serem alçados a prêmios da indústria (não que isso valha de alguma coisa).

  • Cora Reynolds

    O lance de 500 Dias Com Ela é justamente que o Tom ENXERGA a Summer como uma manic pixie dream girl, isso dá pra ver desde o comecinho, em que ele imagina a adolescência dela e mostra todo mundo fascinado por ela e tal, duma forma bem irreal e idealizada. O próprio Joseph Gordon Levitt, que interpreta o Tom, já disse que o problema do Tom é justamente esse, ele idealiza uma mulher e depois age como um babaca quando ela não corresponde ao que ele idealizou. Até a irmã mais nova dele, que é colocada como uma personagem bem madura, fala: “Não é pq uma garota gosta das mesmas bandas idiotas que vc gosta que ela é tua alma gêmea”.

    Tem uma cena que deixa isso bem explícito, o Tom sai com uma mina mas tá na bad da Summer e fica falando mal dela, aí ele termina, a mina vira pra ele e diz algo tipo “Então, ela falou desde o começo que não queria nada sério?” E ele “Sim”. “Ela não te traiu nem foi desonesta com vc em nenhum momento?” E ele “Não.” E ela olha pra ele com uma cara de “Então do que vc tá reclamando, meu filho?” e o encontro acaba.

    É um filme sobre não criar expectativas irreais, mas infelizmente tem muito homem que realmente não entende isso e faz com a Summer exatamente o que o Tom fez (e que até ele superou no fim do filme, inclusive).

  • Pingback: Linkagem de Segunda #40 – Sem Formol Não Alisa()

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos