12 de março de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
A jornada das narrativas

Se há algo que fazemos bem é contar histórias. Estamos fazendo isso há séculos, oralmente, através de pinturas ou palavras, estamos sempre contando histórias como forma de transmitir algum ensinamento ou simplesmente para criar entretenimento.

Existem, no entanto, alguns elementos que se repetem em diversas narrativas ao longo da história, como, por exemplo, os que compõem a jornada do herói.

A jornada do herói possui alguns passos essenciais que podemos identificar desde a Odisseia, de Homero, passando por Senhor dos Anéis, do Tolkien até Harry Potter e Jogos Vorazes.

Tudo começa com uma pessoa normal, vivendo sua vida normal, quando de repente alguma coisa acontece que desperta um chamado para a aventura. Como qualquer pessoa normal, diante da pressão de ter recebido um “chamado para a aventura”, o herói tenta escapar seu destino, até que um Obi-Wan Kenobi aparece e dá um empurrãozinho para ele dar a cara a tapa num universo desconhecido.

Aí que a coisa começa a pegar para nosso herói (ou heróina, né, gente) e ele/ela passam por provações (Alô, Hércules?). Mas tudo vai se resolvendo até o conflito final, que sempre tem um tensão especial e fica todo mundo com medinho das coisas darem errado mesmo sabendo que o padrão das narrativas é dar tudo certo para a mocinha.

E, como geralmente acontece, o herói se redefine através desse conflito final, concluindo a jornada atingindo algum objetivo e depois ele (ou eles, porque pode ser uma galera, tipo no filme Os Goonies) volta para casa e com seu tesouro e tudo está tão diferente mas ao mesmo tempo eles retornaram para um lugar familiar da onde vieram.

A jornada do herói é um exemplo de técnica narrativa que já é mais conhecida, no entanto, existem outros exemplos, como o das tragédias gregas que também são utilizados até hoje em outras mídias.

As tragédias, por sua vez, começam com uma profecia, representando a vontade dos deuses. O homem, que obviamente não quer aceitar seu destino, desafia essa vontade e mexe e viola a ordem, potencializando o caos.

A coisa linda da tragédia, que é o que efetivamente a faz ser trágica, é que geralmente o herói trágico não tem consciência de seus erros. Ele sofre ao descobrir que seu destino estava traçado desde o início e que, mesmo lutando contra ele, a profecia se concretizou. E você sofre com o herói, através da catarse, por compaixão, piedade ou até mesmo horror.

A tragédia clássica é geralmente representada por Édipo e eu gosto de brincar que Tebas é o lugar onde tudo acontece porque, coitado do rapaz, tudo de ruim acontece com ele. Apesar de ser uma história que muitos talvez já conheçam em algum nível, não vou ficar citando porque spoiler é chato e eu, pessoalmente, acho uma narrativa fantástica.

O nosso dramaturgo maravilhoso Nelson Rodrigues ficou bastante conhecido por suas tragédias modernas nas quais ele pegava esses elementos de tragédias clássicas e recriava de forma a atualizá-las. Também fantástico e recomendo, não vou ficar dando spoiler.

Para não ficar sem exemplo e eu não correr o risco de ser chamada de falcatrua, vou finalizar com uma música do Trio Parada Dura (sim, é isso mesmo) que possui todos os elementos de uma tragédia grega!

Na música o fazendeiro Jeremias leu a sorte de seu filho e disse ele ia morrer nos chifres do boi Tufão. O fazendeiro não aceitando o destino de seu filho, mandou matar o boi. Eis aí sua profecia e o homem desafiando a vontade dos deuses e/ou do destino.

A criança foi crescendo e o chifre do boi foi ficando pelo pasto. Certo dia o menino tropeça e cai na ponta do chifre. E todos nós sofremos com os pais da criança, pois é uma verdadeira tragédia que talvez nem tivesse acontecido, não tivesse o fazendeiro mandado matar o boi.

Lúcia Dos Reis
  • Coordenadora de Social Media
  • Colaboradora de Tech & Games
  • Colaboradora de Literatura

Lúcia dos Reis, pequena em tamanho e gigante em ambições. Não sabe se isso é bom ou ruim, mas tampouco se importa. Vive entre letras e códigos, entre o papel e o pixel. Ganhou aplausos na FLIP 2015 com comentário feminista sobre Star Wars e queria deixar isso registrado em algum lugar desse mundo maravilhoso das interwebs.

  • Douglas Morais

    Me ajudou muito, parabéns Lúcia

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