5 de junho de 2016 | Ano 3, Edição #26 | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
A linguagem através das gerações
giriasgeracoes

Assim como bater um papo com uma amiga de outro estado pode ser um momento de descobertas de palavras novas, aquele papo no almoço de domingo com a vó também pode nos apresentar um novo (na verdade nem tão novo assim) vocabulário. E mais ainda, conhecer o passado da nossa língua nos faz conhecer, também, a nossa própria história enquanto sociedade. A língua que aprendemos na escola, cheia de regras e definições é de extrema importância pra que tenhamos estabelecida uma forma comum de comunicação e também para que essa comunicação esteja documentada, ultrapassando as gerações e limites territoriais. Mas é importante saber que para chegarmos até aqui, percorremos um longo caminho de construção da língua portuguesa através das mais distantes gerações e enxergar também a fluidez e flexibilidade da nossa língua, suas transformações ao longo dos tempos. Enxergar que ela é viva, afinal, somos nós que a construímos, constantemente.

A língua portuguesa fixou-se como língua oficial em território brasileiro em um longo processo dado a partir da imposição da colonização portuguesa em nossas terras. Resumidamente, ao se estabelecer em território brasileiro, os portugueses passam a sobrepor sua língua nativa às já faladas anteriormente aqui pela população indígena. Estima-se que eram faladas mais de mil línguas, sendo a principal o Tupi. Durante certo período tanto o Tupi como o Português eram utilizados, até que a língua indígena é suplantada pela portuguesa. Posteriormente, a escravização de africanos no território traz mais uma influência na construção da língua no Brasil. Palavras como abacaxi, mandioca, caju, tatu têm origem nas línguas indígenas e perpassam gerações sendo usadas até hoje. Isso acontece com diversas palavras ligadas à flora, à fauna e nomes próprios. Assim como se dá também com palavras de origem africana, como caçula, moleque e samba. No desenrolar de nossa história outras influências vão se incorporando e fazendo o português daqui se afastar do português de Portugal e ganhar suas próprias características.

A forma como falamos e como escrevemos vai, também, se construindo e se diferenciando. A oralidade é muito mais utilizada e dinâmica, enquanto para se oficializar e incorporar uma palavra aos dicionários, ela deve ser utilizada amplamente e profissionais da área devem definir a necessidade de incluí-la. Assim, criamos palavras, expressões, gírias que utilizamos de forma informal em nosso dia a dia e outras que se mantém no âmbito formal da comunicação. É claro que a gente não vai escrever a redação do ENEM do mesmo jeito que a gente fala com a nossa melhor amiga na hora do recreio da escola, mas isso não quer dizer que uma forma de linguagem exclui a outra. Precisamos saber adequar as tantas possibilidades a seus espaços, momentos, locais. Mas as gírias, o jeito mais pessoal de falar, demonstram muito de cada tempo e de cada lugar.

A forma como me comunico com você agora, ao escrever este texto, é característica do nosso tempo e, com certeza, seria totalmente diferente se escrita com o mesmo conteúdo, mas por uma adolescente dos anos 40, por exemplo. Isso porque essa mutabilidade da língua não se dá só em grandes diferenças de tempo, como de hoje para a mistura inicial entre as línguas indígenas, portuguesa e africanas, mas se dá a todo momento. Se hoje a gente acha aquele cara ou aquela mina um/a gato/a, há um tempinho atrás ele era um pão, boa pinta e ela um broto. Se você que lê a Capitolina acha a revista mara, incrível, há quem diga que nós somos uma brasa, mora? No fim de semana passado eu aproveitei o respiro nos estudos e fui pra uma night, uma balada, uma boate, uma festa, um baile, uma discoteca, enfim, foi ótimo, eu estava uma verdadeira pé de valsa! (Com tantas formas de falar acho que o importante mesmo é sair, dançar e se divertir, não importa o tempo, né?) Nesse dia, fiquei impressionada com o tanto de gente estilosa, com aquelas roupas super cool, pra frentex, moderninhas, vários visuais transados a beça!

Com o avanço da comunicação pela internet, entre os anos 1990 e 2000, além de gírias, criamos novas formas de escrever as palavras. Abreviações das mais diversas, escritas que expressam o som da palavra e naum sua grafia oficial e estrangeirismos se tornam cada vez mais normais. Se você foi adolescente nos anos 2000 como eu, viu ou escreveu, com certeza, dEsSE JeYTu uM tANtO pEcUliAR, e vc tb teve mta preguiça de escrever as palavras tdas. Ah eh! Os acentos tambem deram uma desaparecida neh.

Essas apropriações e novas formas de escrita ao longo do tempo são, também, uma forma de identidade e por isso a gente pode achar esquisita aquela gíria do arco da velha usada pela sua vó e ela com certeza fica bem confusa com o que você escreve aqui nas redes sociais. Esse estranhamento em uma mesma língua acontece porque, assim como os lugares e os grupos sociais têm suas características linguísticas específicas que vão sendo estabelecidas de acordo com seus contextos e agentes, isso se repete e (se renova) ao longo do tempo. Sabe-se lá como se comunicarão as nossas filhas e filhas de nossas filhas, mas com certeza assim como acontece com nossos pais, teremos aquelas palavras que sobrevivem ao tempo e aquelas que não. E, assim, a língua se estabelece e se renova de geração em geração.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos