15 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
A linguagem enquanto ferramenta política: a linguagem politicamente correta, discriminação e racismo

Vamos começar discutindo o que é o tal do ‘’politicamente correto’’? Pra mim, nada mais é do que a expressão e grito de populações historicamente marginalizadas. Estamos falando de negros, mulheres, trans, gays, lésbicas e outras minorias. Estamos falando de indivíduos silenciados, desconsiderados, discriminados e que hoje ‘’se atrevem’’ (que loucura, não?) a lutar por respeito.

É importante ter em mente que não há como dissociar a linguagem de suas raízes históricas e culturais. A linguagem tem o poder de afetar sentimentos. Não estamos à procura de moralismo. Certas expressões carregam atitudes machistas, homofóbicas e racistas, como já discutimos aqui. É o caso de ‘’viado’’, ‘’coisa de mulher’’, ‘’até que é bonita para uma negra‘’, por exemplo. Não proponho eufemismos exagerados, mas sim discursos neutros, que não tragam consigo conotações negativas.

Com o passar do tempo, algumas expressões se tornaram corriqueiras e foram incorporadas no nosso discurso diário de um jeito que nem percebemos. Da mesma forma que alguns comportamentos sutis estão enraizados na nossa cultura e alimentam ideias racistas, machistas e homofóbicas silenciosamente. Por exemplo, por mais que ninguém (ou quase ninguém) declare abertamente sua homofobia, é muito comum ver em algum programa de TV ou filme uma piadinha sobre gays. Essa piadinha parte do princípio de que é ridículo, vergonhoso ou engraçado ser gay. E por menor que seja, ela reforça essa ideia que está sempre aí, pairando, difícil de desconstruir por completo. Se para alguns é só uma piada, um apelido, uma brincadeira inofensiva, a verdade é que tudo isso se trata de um discurso, que nunca é neutro. Cada coisa que você escolhe dizer levanta uma bandeira. E vale a pena parar para analisar que bandeiras estamos levantando através do nosso discurso.

Sobre linguagem racista, por exemplo: atos explícitos de racismo são proibidos, mas o discurso de hoje em relação a isso ainda é bastante hipócrita e

contraditório. Já não é surpresa para nós que as pessoas, quando indagadas, dizem considerar o Brasil um país racista, mas também são essas pessoas que afirmam não serem preconceituosas. Então, quem é que pratica o racismo? Onde ele se faz presente? Eu te digo, ele está, entre tantos outros lugares, na linguagem também, tentando não desafiar de um jeito tão explícito as normas sociais. Porque racismo também é um discurso, que traduz relações de poder, ideologias e desigualdades.

Nós usamos expressões que traduzem tensões históricas. Uma das coisas que mais destaca essa diferença que muitos fingem não perceber é a interpretação que temos quando usamos a palavra branco e negro, por exemplo, e como elas mudam o contexto em que estão inseridas. Coisas negras ou de negros geralmente tem conotação negativa. Quer ver só? É o caso do ‘’cabelo ruim’’, ‘’magia negra’’ e ‘’serviço de preto’’. Em contrapartida, as coisas ‘’de branco’’, conotam coisas boas e amenas, é o caso de ‘’negro de alma branca’’, ‘’magia branca’’, ‘’cabelo bom’’ e ‘’inveja branca’’.

Então, o que estamos propondo quando falamos da necessidade de se rever discursos? É que, por tudo que já dissemos anteriormente, acreditamos na capacidade dela em reescrever e problematizar um vocabulário que é, em alguns casos, negativo e perpetua estereótipos em relação a grupos marginalizados. Acredito do poder da linguagem e no seu papel de transformação.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos