13 de janeiro de 2015 | Ano 1, Edição #10 | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
A linguagem que nos faz ver o mundo

Antes de sabermos que a Terra é redonda, de Cristo ter ou não ter andado sob as águas, antes mesmo dos grandes impérios e civilizações, já havia a linguagem. Desde os tempos da caverna, os seres humanos já buscavam se comunicar e registrar histórias de alguma forma. Pintavam em suas pedras-paredes as narrativas de suas caçadas. Passaram a fazer sons mais complexos e, pouco a pouco, fizeram deles significantes, enquanto o mundo – interno e externo – se tornou significado.

É claro que, da pré-história até hoje, a linguagem se transformou, rebuscou, criou inúmeros ramos – seja ela criada em sons (fala) ou imagens (escrita, desenhos, placas etc.). Mas hoje vamos falar especificamente da linguagem falada e escrita. Gosto de pensar como na música de Luiz Tatit:

Assim era no princípio
Metáfora pura
Suspensa no ar
Assim era no princípio
Só bocas abertas
Inda balbuciantes
Querendo cantar

[…]

Diria, sem muito rodeio
No princípio era o meio
E o meio era bom
Depois é que veio o verbo
Um pouco mais lerdo
Que tornou tudo bem mais difícil
Criou o real, criou o fictício
Criou o natural, criou o artifício
Criou o final, criou o início
O início que agora deu nisso

Então eis que a linguagem surge como necessidade de comunicar. Desde lá dos tempos das cavernas, o ser humano já sentia a necessidade de contar suas histórias. E desde lá dos tempos que injustamente denominamos pré-história, todos os causos contados já passavam pelo filtro da(s) pessoa(s) que os viveram e de também de suas memórias. Sabemos, portanto, que nós moldamos a linguagem de acordo com nossas experiências, com o que queremos dizer; mas a verdade é que o contrário também acontece e, particularmente, acredito que mais do que fazer-nos entender, o maior poder da linguagem seja esse: moldar o nosso mundo interno.

Assim que nascemos já somos submetidas à linguagem. Ouvimos as pessoas ao nosso redor se comunicarem e, pouco a pouco, vamos absorvendo essa forma de se comunicar, até que nós mesmas começamos a nos aventurar na fala. Ninguém precisa nos ensinar a falar. Naturalmente começamos a testar nosso aparato fonético (lábios, língua, palato, cordas vocais etc.); ninguém nos conta como temos que falar em nossa língua materna. Na escola, aprendemos apenas as convenções da língua escrita e vocabulário, mas a sintaxe já está internalizada em nós. Ninguém precisa nos contar que temos que falar “a menina” em vez de “menina a” ou “ela me viu” em vez de “me ela viu”. Sabemos onde colocar o artigo, o substantivo, o verbo e o adjetivo numa frase de nossa língua materna para que ela fique inteligível.

Da mesma forma que absorvemos a nossa língua materna, absorvemos junto a isso milhões de noções que elas trazem – desde casos mais simples (como palavras que existem em uma língua e não em outra) até os mais complexos (como os diferentes tipos verbais que podem ou não existir em uma língua). Essas noções moldam a forma com que percebemos o mundo.

Um exemplo clássico é a existência da palavra “saudade”, a qual aparentemente só existe na língua portuguesa. Isso faz com que nossa relação com o que não temos presente não seja (apenas) físico, mas passa pelo âmbito emocional, beirando a nostalgia e melancolia. Sentir saudade implica em voltar ao tempo do ido, enquanto sentir falta (expressão normalmente usada em outras línguas, como no inglês – “I miss you”) está apenas no tempo presente.

Mas há milhões de exemplos curiosos, como o caso da língua pirarrã, em que “pai” e “mãe” não são diferenciados, para ambos se usa a mesma palavra. Nesta língua também não há palavras para cores, apenas para “claro” e “escuro”. De forma parecida, a língua bassa, falada na Libéria, só diferencia cores frias e quentes – o que faz, literalmente, o povo que a fala ver apenas duas cores no arco-íris.

Pode parecer loucura, mas a existência de palavras realmente muda a forma com que vemos o mundo. No inglês, por exemplo, não existe diferença entre azul anil e roxo, tudo é tido como roxo (purple). Por causa disso, para eles o arco-íris tem apenas seis cores. E se você não acredita pode pegar a capa do The dark side of the moon, do Pink Floyd, para conferir. Saem apenas seis cores do prisma e, não, não foi erro de quem fez a capa do álbum.

Até mesmo nossas queridas onomatopeias são moldadas por nossas línguas. Aqui no Brasil, quando um cachorro late, você escuta: au au!, mas lá nos Estados Unidos se escuta: wolf wolf!. Gato aqui faz miau; lá faz meow. Você se surpreende: Uau!, mas há quem se surpreenda: Wow! Tem língua que coisas explodem buuuum, pow, plac. Coisas podem cair na água e fazer plaft, pluft, glub, ploc. E isso depende da língua que você fala. Na verdade, essa história de onomatopeia é tão maluca que lá na Grécia Antiga, todos aqueles que não falavam grego, para falantes da língua, eram ouvidos em um único blábláblá: bárbaros bárbaros bárbaros (eis aí a origem da palavra).

Mas vamos subir um degrau: você sabia que existem línguas em que não existem artigos? Pois é, o russo, por exemplo, é assim. Pergunto-me como fica essa questão de definição ou não: uma menina ou a menina. A falta de artigo faz com que não importe se o sujeito é definido ou não, o que muda completamente a forma de encará-lo. Afinal, eu conheço essa menina ou não?

Mais um degrau: a questão dos gêneros. É claro que é sempre um choque quando algo que, pra você, é masculino, para alguém em outro lugar do mundo, é feminino e vice versa. Como o caso do computador, que, em português, é masculino, mas em espanhol é feminino. Isso em si claramente já é um choque e muda nossa relação com o objeto. Mas a questão dos gêneros vai além. Quantos gêneros existem na sua língua materna? Se esta for português ou espanhol, sua resposta será dois – temos o gênero feminino e o gênero masculino. Mas em outras línguas, como o inglês, o alemão, o grego e o latim, existe além desses dois um terceiro gênero: o neutro. Assim, enquanto nós nos enrolamos para falar com pessoas não-binárias, pois na nossa língua ou falamos no masculino ou falamos no feminino, nessas outras línguas é mais fácil a expressão. O problema é que, no inglês, por exemplo, talvez usar o gênero neutro seja pejorativo, já que ele não é usado para se referenciar a pessoas, mas a coisas.

E já que mencionamos gêneros, vamos falar de pronomes. Você sabia que no francês e no inglês eles são obrigatórios? Enquanto isso, no espanhol, pronomes são usados apenas para enfatizar a diferenciação dos dois (ou mais) sujeitos, no resto dos casos, entende-se de quem se está falando de acordo com o verbo, da mesma forma que podemos fazer no português. A diferença é que na nossa língua, o uso do pronome é opcional, mas parece que tendemos a usar o pronome como se fosse obrigatório, mesmo que entendamos a frase sem eles.

Na Alemanha, durante a onda de feminismo dos anos 70, feministas propuseram uma mudança na língua. Acontece que, em alemão, existe a partícula “man”, um pronome indefinido (que poderia ser traduzido como o “se” do português, usados em casos como “não se deve fumar”). Qualquer pessoa está abarcada pelo pronome, porém etimologicamente a partícula vem de “homem” (“Mann”, em maiúsculo mesmo). Assim, as feministas, preocupadas com a opressão que se perpetua na linguagem, passaram a questionar o uso do pronome e, a partir da palavra “mulher” (“Frau”, também em maiúsculo), criaram uma partícula equivalente ao “mann”: “frau”, de maneira a contornar o machismo da língua.

As palavras, a gramática, a sintaxe mudam nossa forma de encarar o mundo. O que vem depois: o verbo ou seu complemento? No alemão, é o verbo. Em russo, pode até não ter verbo na frase! Isso é porque não existe verbo “ser” no presente na língua russa. Não à toa que não há grandes filósofos existencialistas por lá. Em hebraico, o gênero do sujeito muda o verbo – se usa uma terminação x se estamos falando do feminino e outra y se estamos falando do masculino.

Mais um degrau para cima: curiosidades sobre verbos. Conversando com uma amiga minha que estuda russo, ela me contou que os verbos são diferentes caso o sujeito esteja a pé ou em alguma outra forma de transporte. No grego, o verbo para “morrer” teria uma tradução mais próxima como “afastar-se da vida”, o que tem tudo a ver com a ideia de ter que pegar a barca no rio Letos para chegar ao reino de Hades.

Mas o mais interessante mesmo, talvez o degrau mais alto da linguagem, é a noção de tempo nas línguas. Se as palavras sozinhas já mudam nossa forma de ver o mundo, quem dirá o conteúdo que está por trás delas!

Em português temos a noção de três tempos básicos: passado, presente e futuro. Mas cada uma dessas noções se divide em outras: pretérito perfeito simples (eu escrevi), pretérito perfeito composto (eu tenho escrito), pretérito imperfeito (eu escrevia) e pretérito mais-que-perfeito (eu tinha escrito); presente do indicativo (eu escrevo); futuro do presente simples (eu escreverei), futuro do presente composto (eu terei escrito), futuro do pretérito simples (eu escreveria) e futuro do pretérito composto (eu teria escrito).

Cada um desses tempos cria uma nova noção de tempo para nós. Conseguimos entender que existe um futuro que vai acontecer e outro que poderia ter acontecido, mas não aconteceu. Entendemos que só existe um presente. Entendemos que existe um tempo do fazer uma ação que é quando usamos o gerúndio (eu estou escrevendo). Mas nem todas as línguas têm esses mesmos tempos.

No espanhol, por exemplo, existe a noção de que tem um passado que é mais próximo de você, enquanto outro é mais distante. É algo completamente subjetivo e se relaciona a memória: se é algo que aconteceu no passado, mas ainda tem relação com o presente de alguma forma, se usa um tempo verbal (he comido); agora se não há nenhuma conexão com o presente, o tempo verbal é outro (comí).

No inglês, o futuro certeiro e aquele em que há dúvidas também se diferenciam verbalmente. Enquanto no português isso não acontece: o rolê sempre vai acontecer, mesmo que todo mundo fure. Agora o mais louco são algumas línguas indígenas que não têm verbo no futuro.

A lista de exemplos que poderia dar é quase que infinita, mas esse texto já está grande o suficiente. O importante mesmo é perceber que nossas línguas têm o poder de modificar nossa visão de mundo. Isso não quer dizer, é claro, que o mundo não exista independente de nós. É claro que ele existe. Podemos tocar nele, vê-lo, experimentá-lo. E da mesma forma que ele nos molda através da bruta realidade, nós o moldamos através da linguagem.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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